Propósito

E eis que eu me deparo com a última semana na Indonésia. Nesse processo. Nesse ciclo que estava se fechando (ou abrindo). A última semana foi eleita por mim a mais intensa, mais emotiva, onde depositei grandes expectativas e queria superá-las. Desde o inicio do projeto procurei objetivar (apesar de ter uma personalidade bastante subjetiva) o programa. Procurei traduzi-lo a fim de concretizar as conquistas, e a curto prazo ver o resultado da minha breve estadia nesse país. Para atingir esse objetivo não medi esforços, apesar da AIESEC (executive boarding) tentar me convencer a não entrar nessa pilha, relaxar na última semana e até propor “free days” (Eles não iam poder estar comigo porque as aulas deles já haviam começado) eu bati de frente e comprei essa “briga”.
A semana teve inicio com toda a carga, e um planejamento diário de atividades pesadas para concluirmos (discutível o uso do plural) as obras para a escola Master. Quando ainda tratava-se apenas de um dia de caridade, o dinheiro arrecadado era suficiente apenas para comprar novas lixeiras e então as crianças não iriam mais jogar lixo ou resto de comida na sala, trazendo um melhor ambiente, mais respeitado e mais digno para elas. Mas depois da semana anterior, onde foi possível arrecadar um montante de mais ou menos 1500 doláres através de doações de pessoas FODÁSTICAS, que confiaram 100% em depositar seu dinheiro em um projeto que estaria ajudando crianças do outro lado do mundo. Foi possível arrojar esse planejamento e sonhar num ambiente ainda melhor para elas. A cada centavo desse que entrava, ou até mesmo das pessoas que estavam se esforçando para tentar doar, eu via como existe muita possibilidade de mudança, não só daqui mas como em qualquer parte do mundo, só precisamos conectar pessoas interessadas a causas honestas. As vezes as pessoas não tem tempo para se doar fisicamente, mas confiam em pessoas que podem fazer esse trabalho por elas, e isso já é muito mais que suficiente. Principalmente quando você sabe exatamente o que aquele seu investimento se tornou. Algumas outras pessoas, ainda questionam por que ajudar crianças de um país lá na PQP, se o nosso próprio Brasilzão é tão carente e necessitado desses esforços, mas eu prefiro responder a essa questão com uma outra pergunta: Qual a diferença do valor da vida de uma criança no Brasil, Indonésia, Congo ou Russia? Não importa. Nunca o patriotismo/nacionalismo deve ficar a frente das pessoas e das vidas, principalmente quando se trata de crianças.
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Logo no inicio das atividades, já tivemos que fazer grandes mudanças no planejamento. Kintan, a responsável pelo cadastro do site de arrecadação de doações, se enganou. Por mais que eu tivesse a questionado milhares de vezes durante o final de semana sobre o processo de retirada de dinheiro (ela garantia que era muito fácil e no mesmo dia) não era possível passar por cima da burocracia do saque. Imaginando um cenário: Doações feitas, NINGUÉM até então para me ajudar na obra e nem se quer para traduzir o que eu queria falar em armazém de construção. Me vi num beco sem saída, impossibilitado, incapaz e amarrado. Que danado eu fui inventar de, através de amigos, e amigos de amigos, usar da confiança deles para um projeto onde eu estava só, num país de língua e cultura diferente, sem ajuda de locais. Sem nada, mas ainda assim não é motivo para desistir. Com muita insistência consegui que Sabrina viesse comigo a uma reunião na manhã da terça no Master para falar das doações ao HeadMaster (Diretor) da escola. Ele marcou conosco às 8 da manhã, e isso era ótimo porque pretendia ir no armazém já a tarde para orçar o material com o budget estipulado. Acontece que para minha surpresa, ninguém da AIESEC comunicou o cidadão de que estávamos em campanha para doação a escola. O cara é muito marrento e não ficou feliz não, pelo contrário, negou a ajuda, disse que não precisava e ainda disse que ficou sabendo dessa campanha e das doações através das redes, que não era assim que funcionava. Como estávamos usando o nome da escola sem nem sequer ter uma reunião com eles para dizermos nossa intenção? Sabrina muito tímida não rebatia e não tentava mais a fundo, eu tava vendo tudo aquilo acontecer e só podia presumir os fatos pelo balançar negativo da cabeça dele, e pelo pouco inglês que ele as vezes tentava soltar para me dar essa resposta. Eu não larguei o osso e fiquei lá falando Inglês (que na verdade tanto fazia se fosse português já que ele não entendia) insistentemente para ajudar a escola (quem já viu né?), até que vi uma foto num quadro na sala de um cara que era o fundador do Master. Pedi pelo amor de deus uma reunião com esse cidadão para tentar explicar a situação, pedi desculpas de todas as formas possíveis e imaginárias, até que ele concedeu o contato para a conversa. Ufa! um passinho para frente. Sabrina falou na hora com o fundador, que disse que estaria muito ocupado de manhã, mas tinha uma horinha às 9:30, e pediu que nós fossemos até ele. A escola master é muito pobre, mas é um complexo de pequenos “prédios” de contêiner por todo um quarteirão e era do outro lado onde esse cidadão ficava no escritório (e que escritório, ar condicionado, cama, sofá, tv led – doação em dinheiro não ia rolar). Pedi para Sabrina então não ter vergonha e traduzir tudo o que eu precisava falar, e só às 11:30 da manhã acabamos a reunião com sucesso. A Escola Master estava de portas abertas para receber nossa ajuda.
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Já não dava mais para ir ao armazém, a única que pôde me acompanhar de manhã ia ter aula então sem tradução fica muito difícil. Mesmo assim nesse dia mais tarde, através de um grupo que temos no LINE (app de conversas daqui) remontei o plano de atividades, agora de acordo com a nova expectativa de retirada de dinheiro (que só saía na sexta). Com esse novo prazo, se tornava muuuuito dificil a conclusão dos trabalhos, principalmente porque eles deixaram claro que não iam poder ajudar de nenhuma forma durante a semana. Jordan que viu meu desespero em casa, se ofereceu para ir comigo fazer os orçamentos e etc. Se fosse pela intenção deles, íamos pegar o dinheiro na sexta, comprar o material no sábado de manha, trabalhar (tirar foto) no domingo e deixar o resto para o Master resolver. Isso tava me deixando doente, enlouquecido. A falta de interesse deles começou com a “indisponibilidade”, mesmo quando se tratava de atividades no final de semana. Qualquer coisa era mais importante, inclusive tive uma grande briga com Momo porque ela insistia em que eu devia apresentar um seminário no sábado com duração de 4 horas, me impossibilitando de trabalhar. Essa discussão transcorreu para o resto do grupo, que de “indisponível” deve ter passado a ficar envergonhado por não querer ajudar e simplesmente sumiram! Coloquei toda minha indignação em textões no grupo, como eles trabalhavam para uma ONG onde a finalidade é fazer um mundo melhor e não podiam ajudar? O que era caridade para eles? Não existia nenhum esforço, era um absurdo!. Mas era isso, ninguém mais respondia nem dava mais nenhuma satisfação. A não ser por uma ou outra breve conversa com Awal e Kintan atualizando da entrada do dinheiro, agora eu tava só. Só não, com Jordan.
Sem AIESEC para ajudar, sem voluntários para ir comigo (eles já estavam voltando para suas casas ou tinham outros compromissos que julgaram mais importantes), era eu e Jordan e um final de semana para colocar tudo em prática. Então para ajudar, começamos a procurar por pedreiros, e nem contato de pedreiros o pessoal da AIESEC me passou, pelo contrário, Fiqih que havia se responsabilizado porque o pai dele conseguiria facilmente, disse de última hora que não foi possível (só me cobrando fotos de Jogja – da camera), atrapalhando ainda mais todo o planejamento. Fomos ao vizinho pedir esses contatos, paramos em obras que estavam acontecendo na rua pedindo indicação, e nada! Através da internet, Jordan conseguiu dois contatos em um site tipo o “getninjas” do Brasil. E na quinta de manhã marcamos duas reuniões para fazer um orçamento de serviço com eles na escola. Jordan me acompanhou para traduzir, e minunciosamente fomos de local em local vendo tudo o que era possível fazer para melhorar pelo menos os piores ambientes da escola. Demos essa volta duas vezes, cada vez com um grupo de pedreiros diferente até chegarmos a conclusão de qual grupo íamos ficar ($$). Fizemos uma lista gigante que ia se rolo, tinta, azulejo até a massa, cimento, areia, puzzle floor e espatulas. Isso tomou toda a manhã, a tarde fomos ao armazém orçar o material. Agora, com muito esforço, diga-se de passagem, já tínhamos todo o orçamento pronto, com serviço, material e ainda a reserva que sempre fui instruído a deixar para itens de última hora em obras. A noite eu tava cansado, e finalmente o povo da AIESEC ressuscitou o grupo (antes tivesse deixado morto), alegando minha falta de compromisso com o programa porque eu não estaria cumprindo o meu dever indo apresentar o seminário nessa conferência da Universidade onde já tinham sido distribuídos os convites, estava com auditório reservado e etc. A verdade é que eu sabia desse meu compromisso, mas que finalmente encontrei um propósito de verdade, tangível e que ia de fato mudar a vida daquelas pessoas na escola. Então eu fiz a minha escolha, a vida é feita de escolhas. Eu temi por de repente não poder receber o certificado do programa no final do período, mas rapidamente eu lembrei que não tava lá por esse pedaço de papel e sim para impactar a vida de alguém (principalmente a minha). Então F O D A – S E conferência. Meu dever era com a escola. Depois disso nem um “bom dia” mais da AIESEC ou envolvidos no programa. O dia tava pesadíssimo, mas ainda assim precisava retribuir o que a familia fez por mim nesse período. Pensei em cartinha, pensei em presente, mas nada melhor do que dar esforço. Então repeti a dose, e voltei para as panelas. Resolvi fazer um risotto de camarão e parmesão caprichadíssimo, era algo novo que a familia nunca provou e agradava a todos porque não tinha porco ou outra coisa que pudesse ir de contra a religião ou gosto de alguém da casa. Não é possível encontrar os ingredientes em Depok, lá não existe um mercado minimamente “refinado” que pudesse vender alguns itens, e principalmente o vinho branco. Fui com Jordan, e num total de 3 horas (ida e vinda) foi possível chegar em casa com tudo. Todos já estavam lá me esperando para cozinhar (eu tinha avisado a todos que cozinharia na quinta a noite), tomou tempo demais e deu um trabalhinho. Nunca tinha feito comida para 6, mas quis caprichar em todos os detalhes, até a cestinha de parmesão eu fiz, apesar de ter colocado em cheque por dar muito trabalho porque era muita gente, nenhum trabalho seria grande o bastante por agradecer aquela familia que me abraçou, me chamou de filho, me permitiu chamá-los de mãe e pai, se preocupou todos os dias com minha estadia, confiou a casa a mim e permitiu que eu “invadisse” a privacidade deles. Então botei quente e a parada ficou SINISTRA. Eles amaram, de verdade mesmo! Ayah (pai) que é mais tradicionalzão, pensei que não ia curtir, mas ele foi lá fora se deliciar e comeu toda a cestinha com o arroz dentro com a mão. Os outros não paravam de tirar foto e mandar pros amigos e familiares, foi tudo maravilhoso. Mas não foi só, comprei um sorvete de creme e servi com a calda de goiaba que já tinha feito. Foi para fechar com chave de ouro. Chuva de elogios!
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A sexta era o grande dia. Não de começar as obras, mas do dinheiro entrar, afinal alguns pagamentos precisam ser feitos antes do trabalho pronto. Ficamos com uma alta expectativa e nada, cobrei Kintan milhões de vezes até ela ver o que tava acontecendo, e ela percebeu que o dinheiro podia entrar em até 4 dias úteis. Seria então na segunda-feira seguinte. Desespero tomou conta da situação, mas não vamos andar para trás. Fomos atrás do que era necessário para não perder o tempo dos pedreiros no sábado e domingo. As obras de dentro da sala só poderiam ser feitas no final de semana, então já sabíamos que se tratava do material para o piso e tintas das salas. Aquele valor que a gente tinha arrecadado já não imporatava naquele momento, precisamos de dinheiro na hora e um amigo de Ibu que havia se disponibilizado para doação de qualquer valor que precisássemos seria a solução para o nosso problema. Se ele atendesse o telefone né? Então recorri a uma pessoa que foi fundamental por todo esse trabalho da esoola Master, Leticia (do casal de Jakarta, lembra?). Ela quem abraçou a causa desde o primeiro dia, confiou 100% em mim quando compartilhou nas redes sociais dela o pedido de doação, pedindo individualmente a amigas e vizinhas qualquer ajuda dizendo que era para um projeto social importante de um amigo. Leticia foi FODA, não só na arrecadação, mas como nessa hora. Sem nem pensar, quando eu pedi o valor para sustentar as obras do final de semana, ela transferiu em um minuto para Jordan. Esse dinheiro tinha muuuuuuuito mais valor sentimental que material. Acredite! Conheci Leticia há 3 meses atrás quando ela abriu a porta da casa dela para um estranho (eu), me abrigou na minha primeira semana num país estranho, disponibilizou o mundo para que eu pudesse me sentir a vontade, e fechou meu período na indonésia com essa grande ajuda que só uma pessoa com um coração maior do mundo, muita confiança e amizade poderia fazer. Valeu Le! Minha vinda aqui já se tornou válida só por conhecer ela e Gunar. Fora esse valor, Jordan conseguiu um pouco com uma amiga, Ibu também ajudou. Era muita gente confiando, acreditando no projeto, emocionante de verdade.
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Então era só o sábado e domingo para as obras das salas, que correria. Para trabalhar no sábado estávamos lá às 8 da manhã (horário combinado com os pedreiros) Eu, Jordan, um amigo dele e 4 pedreiros (os meus chamados foram em vão), então era mão na massa e pé no acelerador até o canto. Começamos lixando as paredes, enquanto os pedreiros focaram no piso na sala de cima. Demorou bastante até tirarmos todas as fitas adesivas velhas, raspar e lixar, principalmente porque todas as vezes que faltava algum material exigido pelos pedreiros, jordan tinha que ir ao armazem com o amigo para ajudar a segurar (de moto), até o fim dessa atividade era inicio de tarde, a medida que íamos evoluindo e o material novo ia chegando, várias crianças da redondeza entravam para ver ou tentavam ajudar. Era felicidade pura. Ipan, meu pirraia, não largava do meu pé, passava o dia me rondando e brincando, vez ou outra eu tinha que segurar ele porque ele gostava de colocar os gatos dentro de saco e amarrar. Pouco depois que acabamos a etapa de lixar, chegou Ayush, um voluntário Indiano que eu havia conhecido algumas semanas antes. Todo mundo dando raça, até o final do dia a sala estava pintada, todas as paredes estavam brancas, e a do fundo azul. Deixei só o teto para o pedreiros que tinham mais a manha. Ninguém tinha comido nada ainda, achei por bem pagar a comida dos companheiros que estavam ajudando, saímos dali e fomos na Domino’s perto, enchemos o bucho, conversamos muito e partimos, ali já era minha despedida do parceiro Indiano, que tinha intenção de continuar ajudando mas ia partir para bali no outro dia. O dia acabou e certamente eu deveria está exausto, mas não. Eu tava cheio de energia e eu não sei de onde vinha, só sei que nem pregar os olhos era possível, então aproveitei para seguir lendo Sapiens e, quem sabe, bater a meta né?
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No outro dia acordei com tudo, já completamente disposto e pronto guerra. Dei uma grande brochada no café da manhã quando fui surpreendido pela despedida de Ayah. ele tava partindo a trabalho e só voltava depois de 2 dias (depois que eu tivesse partido), essa foi a primeira despedida. Doeu, nós não conversávamos porque ele não fala inglês e eu não falo Bahasa, mas conseguíamos nos entender muito bem com uma brincadeirinha ou outra, dava para ver que tinha afeto, e a prova final foi no abraço emocionado que nos demos logo de manhãzinha cedo. Foda demais. Naquela hora eu já tinha recebido mensagens de Leticia, hoje ela tava vindo lá de Jakarta para colocar a mão na massa! Ela me ajudou muito de manhã na pinta das escadas, Jordan teve que se ausentar várias vezes para comprar material então fora ela só tinham os pedreiros ajudando. Acho que nesse dia, pudemos (eu e master) finalmente retribuir toda a ajuda que ela tem dado para essa causa, a troca dela com as crianças foi incrível. Enquanto trabalha, brincava com eles, conversava. A felicidade era reluzente! Em meio ao trabalho conversamos muito, e no meio dessa conversa toda ela me perguntou se eu tinha achado o que eu vim procurar aqui. Acho que eu não soube responder direito, algumas formas de negócios seriam reaplicáveis no Brasil, e vários deles me interessaram. Mas na verdade, ela me mostrou que acima disso existia um espirito empreendedor, que eu era muito persistente, e consegui manter uma liderança o suficiente para tocar o projeto num país de outra língua e cultura. Cumprindo todos o passo-a-passo da cartilha das startups, desde a identificação de um problema, sugestão para resolução, arrecadação de investidores (doadores) e até tocar o projeto. De fato, não tinha pensado por esse lado. Foi uma análise que me fez pensar muito, e talvez, ir um pouco ainda mais a fundo. Hoje em dia ouço muito falar em trabalhar com algum propósito, mas achei que fosse um termo (ou até sentimento) modinha. Nessa reta final da minha experiência, tive a felicidade de ter a oportunidade de trabalhar com um propósito. Acho que não me lembro na vida de ter me doado tanto a um projeto como esse, é energizante, você se torna incansável e fica obstinado até atingir a sua “meta”, até concluir. Quando é voluntário, as pessoas menos interessadas se afastam, as interessadas em ajudar tem mais força. Cada um tinha a força de 100, simplesmente porque todos estavam acreditando nessa ideia, todos estavam engajados e com o mesmo propósito. Isso era um time. No meio desse percurso escolhas tem que ser feitas, foi uma conferência, mas podia ser uma cerveja, uma farra, mas quando se tem um propósito, um objetivo, você não desfoca. NUNCA! e não precisa ninguém te dizer isso ou te impedir de sair desse foco, é natural.
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Awal apareceu no fim do dia do domingo por conta própria (em CPF não em CNPJ) junto com Paul, me ajudaram a finalizar a pintura da segunda sala. Quando o vi chegando, fiquei feliz. Juro que sem mágoa ou algum rancor. Ele se dispôs (cedo ou tarde tanto faz), com muita humildade pediu desculpas, como sempre fez, tirou a camisa e pegou o rolo. Ele me contou que os outros não viriam ajudar porque eles não acham que esse seja o trabalho deles, muito mesmo que esse tipo de trabalho era digno de pessoas com algum dinheiro (para Awal a maioria na AIESEC eram ricos), então que eles não colocariam a mão na massa.  E esse discurso coincidiu com o que um senhor que estava acompanhando a mulher num seminário sobre redes sociais ali perto nos falou. Esse senhor contou para mim e para Leticia de manhã que os jovens não tem essa prática de fazer esse tipo de serviço, principalmente sem ser remunerado. É inexplicável para eles porque a gente estava fazendo aquilo. Mas a medida que ele nos explicava isso, já arregaçou as mangas e pegou um rolo para ajudar a pintar, e só isso já era o suficiente para servir de exemplo a alguns jovens (17 19 anos) que estavam ao redor da gente só olhando. Ele falou que os jovens dele precisavam do nosso exemplo, mostrar que não tem nada de errado com esse tipo de trabalho, ao contrário, como era enriquecedor. Esse senhor aparentou ter um pensamento muito diferente da maioria por ali, ele era para frente. Pensava de outra forma, e queria fazer a diferença também. É uma pena que os outros integrante do programa não pudessem ter tido aquele contato que eu tive com esse senhor. Uma pena. Fiqih apareceu no finzinho, final suficiente para passar cola no verso de 3 “puzzle flor” e só. O trabalho foi pouco, ao contrário de Awal, ele me decepcionou bastante, talvez tivesse criado grandes expectativas sobre ele, ou de repente ele tem outros motivos para ter se ausentado ou mudado o discurso em relação a algumas coisas.
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Mas enfim, com toda essa força, foi possível perseverar. Até o final do dia as duas salas estavam prontas e as escadas pintadas. Foi um trabalho lindo de se ver, o riso frouxo era conseqüência, a satisfação em entregar e saber que no outro dia bem cedinho iam ter crianças ali, não tinha preço. Mas principalmente, estabelecer um plano, uma ideia, e concretizá-la é extremamente prazeroso. Perto de acabar ainda tinhamos mais um compromisso no dia, Sabrina e os meninos que estavam comigo iam para minha casa. Lá eles iam cumprir uma espécie de ritual de despedida da AIESEC. O resto do pessoal não pôde ir, então fomos só nós mesmo. Para começar Iniciamos com uma atividade onde cada um escreve algo sobre o outros em pequenos pedaços de papel. Comecei por Sabrina, por ter menos intimidade do que eu tinha com os outros 3 (Paul, Fiqih e Awal), disse que apesar da timidez dela, ela tinha uma característica que eu enxergo como uma grande qualidade, curiosidade. Ela gosta de perguntar e de ouvir sobre vários temas, independente de religião. E por mais que a religião possa impedi-la de fazer algo, ela ainda assim quer saber como funciona. Para Fiqih, falei do coração grande que ele tem, e que esse coração era tomado quase todo pela familia. Familia que para ele era mais do que pai, mãe e irmão. Era toda a “ia family” que vai do primo mais distante até os vizinhos. E finalizei com um “quanta sorte de quem conseguir entrar nesse coração”. Awal, o insistente. Para ele eu disse o quanto eu já compartilhei ruins pensamentos por aqui e com outros. Critiquei muito, principalmente os erros que ele cometia. Só me dei conta muito tarde, que apesar de muita porrada na cabeça, ele não desistiu. Ele continuou vindo ao meu encontro, continuou tentando, me ligando ou mandando mensagem. Errou mil vezes, bati mil e duzentas, e as mil e duzentas ele voltou para tentar de novo. No final das contas, era com ele que eu podia contar. Paul é gigante, tem um coração de ouro. A coragem que ele tem em percorrer um caminho religioso diferente dos demais integrantes da familia é inspirador. Ao mesmo tempo que ele tem essa coragem, ele tem a delicadeza e o cuidado de não magoar principalmente Ibu com essa nova vocação. A curiosidade dele para outros assuntos e a maneira como ele devora livros é diferente de tantos os outros que eu vi por aqui. Essas cartinhas eram para ser lidas depois, então coloquei tudo num envelope para ler no avião vindo para as Filipinas, a surpresa era que entre elas, tinha uma carta de Ibu. Entregaram certificados para Fiqih, para Awal, para familia e para mim. Eu deveria entregar o da familia, mas já disse ali mesmo a Ibu que para mim aquilo era só um papel, que eu não tinha palavras para agradecer por ela ter aberto a porta da casa dela para um estranho, não só aberto a casa, como ter me acolhido. Como familia. Foi um falando uma coisa para o outro, estimulado por Awal. Ele disse que não era bom com palavras e pediu que eu lesse a cartinha. Me deram vários presentes de recordação como, dragon fruit (porque eu disse que era muito cara no brasil), cerveja sem alcool (kkk só vende assim em depok), Indomie (miojo daqui, maravilhoso) e mais outras coisas. Ali, tarde da noite do domingo, já era minha despedida de Awal, de Fiqih e de Sabrina. Possivelmente nunca mais volto a encontrá-los. Isso é uma realidade que aprendi a encarar depois que deixei muitos amigos e familia no intercambio do Canadá e nunca mais voltei. Quero tá sempre perto para ajudar, mas infelizmente sabemos que todos temos nossas vidas e dificilmente é provavel que aconteça esse encontro novamente. Seria bom, gostaria de sempre saber o que aconteceu na vida de cada um. Como já tava tarde, todos partiram e quem é da casa foi dormir. Fiquei ainda um pouco na sala esperando Jordan que tava num casamento de um amigo. Agradeci do fundo do meu coração por tudo o que ele fez pelo master. Ele foi fundamental, assim como Leticia, para o projeto dar certo. É como se fossem as pilastras principais de toda aquela estrutura, daquele projeto da Escola Master.
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No outro dia já acordei saudoso, com um nó na garganta. Tudo o que eu fazia já parecia ser a última vez na vida. O lugar que eu acordei, onde eu sentei, o banho, tudo e qualquer detalhe. Cedinho parti em direção ao Master com Jordan, com uma única missão de para no caminho e imprimir várias fotinhas minhas com as crianças para dar de presente a elas, infelizmente boa parte delas larga as 10h, e não pude dar um último adeus. Para as outras não sei se foi muito fácilmente entendivel. Eu já tinha dado um adeus definitivo antes há algum tempo ali, eles podiam pensar que esse adeus agora seria exatamente como o outro. O headmaster durão, o fundador nó cego, a diretora e outra professora me agradeceram bastante. Me viram trabalhar duro ali no final de semana, viram muita ralação e a ótima entrega que fizemos para aquelas crianças. Foi foda! Mas no finalzinho foi o que mais me pegou, me despedir de Ipan, meu pirraia. Que vivia na cola. Foi muuito ruim dizer “dadaa” (tchau) para Ipan, é como se você tivesse abandonando ele, e ele tivesse criado muitas expectativas sobre você. Não profissionais ou financeiras, mas de carinho. E ainda acho que ele vai ser o meu vinculo ou motivo de volta um dia nesse país.
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Já era hora de voltar para casa, no caminho deixei Jordan escolher minha ultima refeição tradicional. Almoçamos, conversamos sobre minha estadia, quero muito ajudar ele e a familia a empreender em algo. Vamos sempre manter o contato, com certeza! Do restaurante para casa, Ibu ainda não tinha chegado, nem Paul ou Quézia. Foi o tempo em que arrumei minhas malas, esvaziei o meu quarto. Tirei foto de tudo, banheiros, comodos, quintal e frente da casa. Andei até a lavandeira tirando foto do caminho que eu fazia. E esse tempo foi o suficiente para todo mundo chegar. Depois que chegaram, não demorou muito e já era tempo de me despedir. Paul e Jordan iam me levar para casa de Leticia e Gunar que me abrigariam na última noite e eu deixaria Ibu e Quézia em casa. A despedida de Ibu foi demais para mim, eu não conseguia falar nada. Minha garganta era um nó gigante, ela chorou muito. E pela primeira vez fez na minha cabeça do mesmo jeito que ela fazia com os filhos, a cada tentativa de partida a gente se dava outro abraço e ela chorava ainda mais. Quézia tentava acalmar ela e eu me segurando. Segurei muito (em intensidade) mas não por muito tempo, assim que entrei no carro desidratei de tanto choro (kkkk), não sou muito de chorar não e até posso sugerir a última vez que deva ter chorado há anos. Mas essa foi em cheia. Me desabou. Mal conseguia falar com os meninos, o caminho todo ouvindo musica e conversando muito pouco. Agradeci muito a Paul o responsável por convencer a familia a aceitar um intercambista e a Jordan por tudo o que ele fez pela escola Master e por mim. Os dois foram gigantes parceiros nessa minha estadia e a familia hoje tem um grande espaço no meu coração. Quero ver falar de desprendimento, de maturidade dessas ocasiões. Um dia ainda aprendo (será?).

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Bandung – West Java

bDepois de uma semana calibrada, finalmente chegou o dia da viagem. Como antes não havia citado Bandung por aqui, pode parecer que eu não estivesse esperando tanto para conhecer essa cidade. Acontece que o primeiro contato que eu tive sobre AIESEC, foi através de Bruno, um cara que eu conheci na Arte de Viver, que dividiu comigo a experiência que ele teve na Indonésia e mais especificamente em Bandung. A cidade tinha sido extremamente indicada por ele, e ainda no Brasil ele me colocou em contato com Camila, uma brasileira que já estava em Bandung no meio de um outro programa. Antes de saber onde eu ia ficar (casa, cidade e etc), quando eu só sabia que vinha para Indonésia, eu já estava com Bandung na cabeça. Camila me explicou todos os detalhes do dia a dia dela, quais estavam sendo as dificuldades, o que eu devia fazer para me preparar melhor e até criou um grupo com vários brasileiros que iriam fazer programa lá (vários? Como assim? Haha). Mas dias antes da viagem, a AIESEC Brasil me perguntou se eu tinha interesse em um programa (que foi esse que eu participei) e eu topei, me deixando a 3 horas de distância de trem mais para o leste da ilha de Java.

O dia anterior, fiquei na cozinha até 1 da manhã fazendo o doce de goiaba, quando acabei ainda fui tomar banho, fazer a mala e ainda fiquei mexendo no celular. Resultado foi que fui dormir às 3:30 (kkk), e o detalhe era que tinha que tá em uma estação de metrô lá em Jakarta umas 7 da manhã. Ou seja, umas 4 ou 5 já estaria de pé. Dormi com um sono leve, e acho que até antes do alarme disparar eu já tinha olhado o celular, levantei um pouco antes do planejado, fiz um café e tomei um banho, para só depois acordar Jordan que também iria comigo. Saímos na hora, tínhamos combinado de encontrar alguns outros amigos no trem desde aqui de Depok, e de fato conseguimos alcançar Manuel, o mexicano. O resto encontramos no terminal lá em Jakarta. Nessa viagem seriam: Eu, Jordan, Fran (Filipinas), Naro (Camboja), Gunaz (Azerbaijão), Cecile (França), Manuel (Mexico) e Annisa (daqui mesmo). Todos pontuais e famintos, pegamos uma promoção de Donuts e demo de cano de ferro. 10 minutos depois já era o nosso trem, a viagem durou 3 horas, e eu que levei o livro para dar uma acelerada, obviamente não consegui ler, dormi até chegar lá. De cara já senti que a cidade tinha um clima um mais frio (uns 20 graus), apesar de ter confiado no roteiro criado no grupo de coisas que íamos visitar (prefiro confiar do que fazer), dei uma pesquisada na internet sobre a cidade e oque tinha para se fazer lá. Já tinha ouvido falar das pessoas daqui que lá era como se fosse a “casa de campo”, muitas pessoas saíam daqui no final de semana para “subir a serra”, e que lá era cheio de jardins e áreas verdes, muita área de lazer, coisas mais turísticas (mais do que em Depok que não tem nada fora o Shopping né? Hehe). Nada histórico, algum templo misterioso ou atração imperdível, nem os brasileiros que estavam lá sabiam dizer se tinha algo que era imprescindível para eu não perder. A minha cabeça dessa viagem foi muito diferente da de Jogja, dessa vez eu ia para tomar uma, conhecer o povo que eu vivia falando no grupo aqui do whatsapp e ter um bom momento com os outros voluntários daqui também. E foi isso.

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Logo que chegamos fomos num restaurante muito legal, bem organizado e comida com mais características de francesa, mas sempre com as opções para os indonésios né? (muito arroz e fritura), pedi um carbonara porque queria finalmente comer algo diferente (normal de casa, diferente aqui), mas infelizmente apesar de bonito tava muito sem gosto. Nesse restaurante passamos pouco mais de uma hora, jogamos um pouco de UNO (essa turma sempre joga) e depois seguimos andando pela redondeza até encontrar uma praça (tudo planejado), era feita de grama artificial e tinha muuuuita gente. Muito legal para as crianças e família! De lá ainda fomos para uma outra praça/parque bem conhecida na cidade mas que não tinha nada demais, e só depois desse citytour todo é que seguimos para a casa que tínhamos alugado através do Airbnb. No caminho, mais uma vez me impressionei com o tamanho da cidade, pensei que tava indo para um vilarejo (Gravatá, Campos), mas era bem grande. Só depois que fiquei sabendo que era a capital de West Java (mesma província onde Depok tá) apesar da distância e de Depok ser divisa com Jakarta, não com Bandung. A casa era enorme, pé direito alto, 2 andares, um pouco antiga, tinham uns 4 quartos muito espaçosos e chuveiros (PQP, finalmente). Eu tava pilhado querendo sair, já marcando com os brasileiros e pegando as dicas de lugares bom pra ir na noite de lá.

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O povo no inicio parecia tá na mesma vibe, mas não demorou muito para cada um cair para um lado (kkk), dei uma de chatão mesmo e fiquei na insistência, dizendo que a gente só tinha 2 dias e tinha que aproveitar. Com muito trabalho, acordei Manuel e tirei todo mundo de casa! Infelizmente o bar de sinuca que Tatiana tinha indicado como um dos melhores lá, tava uma miação total. Somado ao ânimo do povo (annisa dormindo na mesa), Manuel sem beber, e o resto muito devagar, fudeu né? Odeio levar a galera pra barca furada. Pode ser aqui, em são Paulo ou em qualquer outro lugar do mundo. Sempre quero oferecer a melhor saída que eu posso, mas convenhamos que ali eu não era o anfitrião né? Chegamos um pouco cedo enquanto Tatiana só ia chegar uma hora depois, e os outros eu nem sei que horas iam e se iam. Eu lá, na minha empolgação sozinho consegui ainda empurrar umas 5 garras de cerveja (600 ml) para os que tavam bebendo, mas só Jordan parecia responder, até que chegou Tatiana, numa animação fora do normal, destoou dos outros que tavam ali, chega deu uma animada (em mim e em Jordan), a reação dos outros deu até vergonha (kkk). Independente do que ela fizesse para animar e falar que mais gente tava indo não foi suficiente para segurar aquele povo miado. Todo mundo foi embora 15 minutos (sendo gente boa) depois que ela chegou. Acontece que logo depois subimos para a sinuca, eu, Tatiana, Jordan e Tuju (um indonésio cabeludo muuuuito gente fina) para jogar uma partida. Mais umas 4 cervejas e chegou UMA GA LE RA. Acho que tinham umas 20 pessoas, entre Indonésios, Brasileiros (uns 4), alemã, australiana e mais uma penca de gente aí. Deu um up na noite surreal. Para mim conhecer gente já é por si só uma programação, posso passar horas só querendo saber o que tá rolando ali e das experiências que o povo tá tendo na viagem. Galera muito gente fina, animada, pra cima. Conversamos sobre os programas, e felizmente eles estavam em programas que eram mais objetivos como ajudar crianças com câncer em hospitais, auxiliar pequenos empresários locais e ensinar inglês em escolas públicas. Tinham sempre a cervejinha no final do dia, a possibilidade de ir a bares e boates. Não preciso nem dizer que deu uma invejinha e até um certo arrependimento de não ter ido para aquela cidade. Ao mesmo tempo que eles estavam admirados com a minha experiência e a minha profundidade dentro da cultura indonésia, já que eu to morando na comunidade sem muito contato com estrangeiro. Devo dizer que cada qual tem suas vantagens. Durante as conversas, consegui um voluntário para se juntar a minha causa na Escola Master e me ajudar a renovar o piso, pintar paredes e etc. Era Gio (giovanne), que mais tarde passou o recado para Victoria que também animou (sim, eu estava recrutando gente! As doações não paravam de chegar). Depois dali, entramos num carro de uma indonésia para seguir para uma boate. A indonésia era loira, V1d4 l0k4, usava roupas como as brasileiras usam (no baile funk), tomava uma e era muçulmana. Assim como o cabeludo gente boa. Que inclusive sabia falar muitaaa coisa em português e quando falava em inglês era com sotaque Russo porque foi com russos que ele aprendeu (kkk). Então eu estava numa cidade onde aparentemente os locais tinham mais contato com os turistas, dando assim uma nova forma de vida mesmo sendo religioso, mais moderno. E imaginei que deve ser por isso que o governo não incentiva muito essa troca entre as pessoas de fora com os locais, para permanecer as tradições (islâmicas). Na boate seguimos ainda a noite até umas 3:30, 4h da manhã quando o povo começou a dispersar, foi de verdade um grande prazer conhecer toda aquela galera ali. Todo mundo muito gente fina.

No outro dia, os cidadãos do mundo que estavam na casa tinham combinado de sair às 6h da manhã para visita uma cratera (vi nas fotos), que parecia mais um açude de lama (mal demais) e ficava lá onde o vento faz a curva, perdi. Preferi ficar dormindo, na minha cabeça eu não tinha ido para lá para fazer esse turismo mais ou menos e sim para curtir, relaxar e etc. Acordei de meio dia quando eles já estavam em um mercado flutuante, esse sim eu me arrependi de não tá junto. Mas fazer o que né? Alcancei eles no próximo ponto que foi o Dusun Bambu, peguei um uber que durou mais ou menos 1 hora e pouco de viagem e deu o absurdo de 80k rps, 7 doláres? (kkk). Dusun Bambu é um complexo com restaurantes, lazer, vistas e um mercadinho, tudo artificial, criado para atrair turismo mesmo. É bem legalzinho, bonito de se ver e bom para curtir uma tarde por lá. Foi isso que fizemos, passamos uma tarde e pouco antes de escurecer voltamos em direção a cidade. Uns amigos locais de Annisa indicaram um restaurante de nome “Cococoricó” para jantarmos. Eu queria colar com os brasileiros que estavam em um shopping aberto inciando os serviços, mas como estávamos dividindo carro, fui junto com geral. Felizmente. Felizmente porque eu comi um espaguete a bolonhesa de respeito. Diria que um dos melhores que já comi na vida, me surpreendi verdadeiramente, tudo isso numa vista surreal do alto de uma montanha vendo toda a cidade de cima. Sentamos na mesa: eu, jordan, fran, naro e gunaz. O papo foi na sua totalidade cultura local e diferentes religiões. Do papo inteiro que foi muito cabeça e não merece ser compartilhado aqui  (kk) foi a bizarrice que Naro e Gunaz não cansavam de repetir. História com pessoas próximas (parente) deles que morreram e voltaram (hã??), uma tia avó da menina já tava no caixão quando acordou, tava com 91 anos, ainda passou uns meses viva e morreu de novo. O outro era um morador do bairro de Naro em Camboja que morreu, mas voltou (que esse não era o único caso), e que as pessoas consideram esses seres que vão e voltam iluminados e extremamente evoluídos. Eu esqueci o resto das explicações para essas argumentações que eles juram que é verdade, mas depois vou dar uma pesquisada. Para eles eu só deixei uma dica: Verifiquem antes de enterrar. Enfim, a noite aí não demorou muito. Eu queria sair, mas esse era aparentemente o último dia que eu veria Manuel, já que ele ia viajar no dia seguinte e não íamos nos falar. Então resolvi ficar pela casa como todos e desfrutar da presença deles aproveitando os últimos momentos daquela galera.

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No último dia, todo mundo saiu bem cedo, só ficamos eu e Jordan em Bandung. Nosso trem era no fim da tarde enquanto o deles era no início da manhã. Mesmo sendo tarde, mazelamos na programação e não deu para fazer muita coisa, Jordan tava achando tudo meio longe e isso deixou ele inseguro com medo de perder o trem, então fomos para um Museu bem legal e para o shopping aberto que eu falei onde os brasileiros se encontraram um dia antes. No trem consegui ler Sapiens para ca ce te, mesmo assim ainda falta “muito” e eu fico sempre num dilema, se leio e garanto minha meta ou se escrevo aqui. Estou dando essa preferência de volta a escrever porque quero que tudo ainda esteja fresco na memória e não deixar passar mais registro dessa experiência e lição de vida que tá sendo muito show e vale a pena ser compartilhada. A semana seguinte ia ser correria pura, fazer a soma do total arrecadado e ver o que poderíamos fazer com a grana. Juntar o máximo de gente para nos ajudar, arregaçar as mangas e ir as obras. Quanto mais tempo, melhor!

 

 

Empatia

Depois do final de semana da arrecadação muita coisa aconteceu. Os dias pareceram horas, e esse período em que não escrevi aqui fez uma bola de neve em vários eventos que seriam melhores descritos no calor do momento, e não resfriado depois de tanto tempo. Alguns motivos me fizeram me distanciar do blog como a falta de feedback, outras coisas importantes acontecendo e preguiça (preguiça aquela que eu combati tanto no início), mas na verdade era uma preguiça de exaustão, não de comodismo.

Voltando um pouco aos eventos anteriores, porque esqueci de descrever uma reunião que tivemos após o dia de arrecadação. Nos reunimos em um restaurante de um shopping próximo a rua onde estávamos solicitando ajuda a escola, lá íamos contar o dinheiro e discutir o roteiro da semana seguinte. Como já falei do valor arrecadado nesse dia, vou pular para a conversa. Sentamos na mesa e pedimos a comida, logo após a comida, Awal abriu o laptop para me mostrar quais seriam minhas atividades da semana. Ele e eu, compenetrados na explicação dele do que seria cada atividade e quais eram as minhas responsabilidades dentro de cada uma delas. Logo de cara, me deparei com uma coisinha que me incomodou (to parecendo um velho ranzinza), mas era sobre uma apresentação sobre diversidade cultural em uma escola DIVERGENTE (como tava escrito no computador dele) – wow, divergente de quem?. Mas não vou polemizar essa leitura que eles fazem sobre uma escola cristã não. A minha pergunta a ele foi qual seria realmente a minha função nisso, já que estavam sendo destinados 2 dias para essa escola e 1 dia para voltar a escola do estado que eu passei a última semana. Minha surpresa foi com a resposta. Tratava-se de uma apresentação de 30 minutos por dia nessa escola particular cristã, e a minha volta a escola estadual para a entrega de um certificado. Somando 3 dias de atividades, teríamos uma hora e vinte de conteúdo (?), não deixei ele se quer decorrer do conteúdo das atividades dos dias seguintes, interrompi por ali afirmando que faria tudo isso em um dia só e ainda precisava de mais atividades. De novo, que não tinha vindo de tão longe para ter “freedays”, se eu quisesse férias teria ido para Bali. Isso o colocou contra a parede porque ele não tinha plano B, ele ficou sem jeito mas explicou que era a Universidade deles que tinha voltado as aulas e eles não poderiam me acompanhar durante a semana. Minha intenção não era deixar Awal contra a parede ou sem saber o que responder, então chamei a atenção das meninas que tavam só conversando, participar e pedi que elas o ajudassem. Deixei eles em paz e disse que iria no banheiro, que na verdade preferi deixar eles a vontade para discutir sem a minha presença. Dei uma meia hora e voltei, e tudo já parecia ter sido solucionado. Awal aí já me mostrou um nosso roteiro para semana. Esse novo roteiro contemplava a escola estadual com mais dois dias, o outro faríamos uma longa apresentação na escola privada e por último duas “outside classes” na vila de Fiqih como aparentemente já estava marcado. Dessa forma minha semana estava completa e uma confirmação de Chantika (responsável pelos contatos das escolas), me deixou seguro de que estava tudo certo para seguir.

Acordei cedinho, eles me pediram para chegar às 8h na escola. Achei meio estranho porque tem a hora da reza, mas vamo lá. Tomo meu banho, uma xícara de café, visto minha Batik (é uma escola do estado formal, estão como regra exige a camisa com gola) e peço meu Uber. Cheguei na hora lá, mas já vi que tinha sido o único. Isso não me intimidou porque agora eu já tinha intimidade com a professora e com os alunos. Ms. Annie foi uma das primeiras pessoas que vi quando me aproximava da sala dos professores, e logo sem disfarçar ela já fez uma cara de surpresa. Me perguntou se eu ia dar aula hoje, que ela não tinha sido avisada (hã?), tudo bem ela tava tentando entender. Na sala do diretor, onde geralmente eu passava os intervalos das aulas, ela conseguiu falar com o próprio, que também não tinha sido avisado (por quem né? Ele é quem manda) e não demorou muito para Sabrina e Fiqih chegarem. Logo eu já passei essa informação para eles que tentaram contornar a situação. A primeira solução seria acompanhar Ms. Anie na aula dela na turma mais jovem (nunca tinha ensinado a crianças dessa idade) e teria que ser o assunto que ela tinha planejado (dias da semana e meses), preferi por bom grado não atrapalhar o planejamento dela (claro) então restou uma segunda alternativa. Esperar até às 10h e ensinar em uma outra turma (legal) sem a Cia de Miss Annie. Esperei até às 10h, fui no pátio no recreio fotografar as crianças. Ali todas se vestem bem, tem uma ótima aparência, aula de música, uma farda diferente (estilo diferente mesmo) por dia. Voltei para sala, tomei uma água e deu o meu tempo. No caminho para sala, Sabrina sem jeito me fala que ela e Fiqih não poderiam me acompanhar porque teriam aula as 10:15. Sério. Perguntei para eles como eles esperavam que eu me comunicasse com aquelas crianças. Sem NINGUÉM para traduzir a aula. Que não seria possível fazer aquilo. Isso não comoveu eles, ela só me perguntou se tinha algum problema de eu ir para casa (haha), respondi que claro que sim. Mas que mesmo assim iria.

Cheguei em casa possesso, emputiferado, soltando fogo pelas venta. Queria explodir com alguém, mas não existia alguém. Jordan tava na sala, mas com vergonha desse acontecimento nem com ele eu dividi esse acontecimento. A melhor solução aparente para mim, foi relaxar. Vim para o meu quarto, liguei o ventilador, comecei a ler (que me dá sono), e consegui descansar 1 hora. Acordei mais calmo, mesmo assim querendo dividir isso com alguém da AIESEC. Já recorri a Awal, a Momo, quem mais? Então Rafif me suou como um bom nome. Esse é o cara que eu tive o primeiro contato quando ainda estava no Brasil, ele me parecia ser de um cargo mais alto, então foi com ele que eu resolvi me abrir. Antes das primeiras palavras, já avisei aos outros dois que teria que falar com ele porque a situação já havia chegado em um limite razoável em que não era possível continuar seguindo pelo mesmo caminho. Tentei uma conversa pessoalmente, mas ele (que tava em casa) me pediu para ir até lá (uma hora e vinte de moto) o que não era possível. Então resolvi falar o que eu achava para ele por ali mesmo.  Comecei falando sobre o estopim da minha explosão que foi o acontecimento do dia, então abri todo o passado de falhas que estavam acontecendo. E para mim um dos problemas mais graves e onde eu foquei minha energia foi nessa questão de alguém para te acompanhar e foi exatamente dessa forma que passei para ele.

“Que porra é essa que o cara aciona um programa no site da Aiesec, pedindo voluntários que podem vir do outro lado do mundo para cá e você não calcula nem quando suas aulas vão começar para saber se vão tá disponíveis para acompanhar o estrangeiro nas atividades? Eu vim aqui com um propósito e estou levando isso muito a sério e foi por isso que desde o inicio eu perguntei para os responsáveis pelo meu programa se eles realmente precisavam de alguém ali. Se não eu poderia facilmente mudar para outro programa, outra cidade, outra província e até outra ilha, sem problemas. Se as pessoas aqui não se importavam em ajudar eu posso me mudar facilmente para algum lugar que eu encontre pessoas com meu mesmo propósito. Eu quero compromisso, vim de muito longe para ser feito de bobo.”

Ele foi competente em dizer que só ficou sabendo dessa situação nesse momento e que iria ver mais de perto, mas que eu ficasse tranquilo que ele iria resolver. Ainda não fiquei tranquilo porque não sabia nem o que faria no dia seguinte, sabido que conversando com Ms. Annie, ela me disse que o colégio estaria fechado para a Olimpiadas de Matemática no outro dia (que acerto em Chantika, parabéns). 3 horas depois, recebi a mensagem de Momo perguntando se ela poderia vir aqui na minha casa com alguns outros depois da aula deles. Claro, queria tudo resolvido. Quando era mais ou menos umas 8 da noite avisei a Paul que o pessoal tava vindo aí, e como das útimas vezes nos reuniríamos na varanda. Expliquei rapidamente o que tava acontecendo para ele e ele explicou para Ibu, que por sua vez achou melhor ele me acompanhar na reunião (kkk medo da minha fúria). Brincadeira, aí eu já tava risonho e de boa, mas mesmo assim eu queria clareza das informações e ser tratado com uma seriedade maior.

Chegou a tropa, todos meio acanhados e sem jeito sentaram em minha volta na varanda. Momo tomou as rédeas e seguiu com o texto. Quis entender melhor o que tinha acontecido, mostrou a importância do trabalho que a gente tava fazendo, falou que todos os outros programas já tinham acabado só o da gente era o que puxava mais forte, que apesar de sozinho eu tinha o roteiro mais cheio entre todos os outros programas. Para mim alguns outros devem ter se acomodado porque desistiram ou porque estão em grupos e as vezes recorrem a outras atividades e se apoiam em fazer uma outra coisa quando não tem solução. Eu tô só e quero cumprir minhas atividades ou ir além durante todo o período em que eu tiver aqui. Então pedi para que ela não me comparasse com os piores, com as falhas ou com os erros. Viemos para trabalhar, não para enrolar.

O mais engraçado é que eu as vezes me vejo neles quando posterguei alguma atividade no trabalho ou esqueci de fazer algo. É como se eu fosse meu próprio chefe agora e tivesse me vendo na terceira pessoa cometendo aqueles erros. Quando se tem um propósito é muito mais fácil manter o foco e talvez a falta de maturidade deles ou a compreensão plena do que eles estão fazendo ali os deixem mais relapsos do que eu em toda essa atividade.

Segui bem firme na reunião, e em meio a algumas falas de Momo ela se mostrou preocupada com a minha desistência. Ela achava que eu já tinha jogado a toalha e até citou outros casos como o de um cara que não gostou da família, outro que não gostou do quarto/casa/bairro. Mas de cara já disse para ela que isso não era eu, que eu não desistiria. Mas foi para aquilo que eles estavam ali, para me fazerem não desistir. Confesso que isso me trouxe mais ânimo, principalmente porque somado a isso ela reabriu o laptop e mostrou o roteiro do dia. Fiquei muito confiante para seguir a semana.

O dia seguinte foi show de bola, muito tranquilo. Conheci uma escola enorme e ainda melhor que a do estado que eu já tinha ido. Era a escola privada cristã, mas a diversidade de alunos era muito mais ampla. Tinham alunos indianos, do Timor Leste, professoras hindus, católicos, protestante e muçulmanos, aquele ambiente parecia muito “open mind” do que o dos colégios muçulmanos (to me contradizendo né?). Pude descorrer pela primeira vez de uma apresentação mais profunda sobre as outras religiões, indagando perguntas como quais eram as diferenças entre católicos e protestantes já que os dois seguem o mesmo livro e acreditam no mesmo deus. E quem era buda para hindus e para os budistas, por que eles eram diferentes? Tive a ajuda de Awal e Rohkma, além de uma professora Hindú. Isso ajudou bastante no debate das diferenças e a maior compreensão e respeito das crianças. Nesse dia eu saí leve, bem demais. Dali fui no Margocity (o shopping mais legal aqui de Depok). Comi na Hut (sds) e fui num café ali do lado, ambiente bem legal, mas o que fez eu me apaixonar ali foi a música. Quem diria que tão longe eu ia encontrar um lugar que só tocasse bossa nova né? Nesse dia eu não me demorei, tinha marcado com os outros de ir num Rooftopo em Jakarta. Ficava com 56º andar de um prédio empresarial que fazia parte de um complexo do maior shopping daqui. Que vista.

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mas no outro depois da aula no colégio do estado de novo, fiquei um tempão, levei o PC para escrever e foi lá que fiz o último post. Na segunda vez eu não ia só, combinei com outros voluntários de nos encontrarmos lá e de lá seguirmos para um restaurante perto que seria a despedida de duas chinesas (não conhecia muito), mas era do programa do povo lá então eu fui só para acompanhar. No tempo em que tava no café escrevendo, Ayush (um indiano), ficou comigo. Eu só tinha o conhecido na global village lá atrás, então foi ótimo porque nos aproximamos mais, depois que todos foram embora ainda fomos no BK matar a lara (quem dera) e conversamos bastante. Vimos os horários dos filmes e marcamos para ver o tão esperado (pelo menos para mim) Black Panther (Pantera Negra) da Marvel. Semana passou a fluir, problemas resolvidos. No outro dia eu daria uma “outside class” mas a chuva tava surreal, então não deu ninguém lá, e antes que eu fosse, Sabrina que já tinha chegado foi informando e não tinha nenhuma criança. Então fiquei em casa com Jordan acertando algumas coisas de uma viagem que faria com ele e alguns voluntários para Bandung no final de semana, ainda precisávamos comprar as passagens de trem.

Sobre a campanha, eu só tinha feito uma postagem. O dinheiro que tínhamos juntado até então era irrisório, até que (surpresa) apareceram 500 mil RPS na conta KITABISA (daqui). Foi Leticia que fez a primeira doação online, que desencadeou outras com os compartilhamentos dela, e os meus (compartilhando as pessoas que estavam doando), a felicidade do nosso grupo estava reestabelecida. Todos muito felizes e gratos, só com aquela doação já tínhamos quase o dobro do que arrecadamos off-line (hehe).

Ainda em casa fiquei por mais umas horinhas e fui para o shopping bem antes do filme. Para o filme estariam 9 presentes, quase todos voluntários. Como cheguei bem antes fui devagar, comprei meus ingressos, almocei, desci pro café, li Sapiens para CA RA LHO (meta de fevereiro) até o povo chegar. Sobre o filme só posso dizer uma coisa, QUE FILME. Parabéns a todos os envolvidos e ao meu dia e semana, como tinha melhorado!!

A sexta era feriado, ano novo chinês. Pela forte presença dos chineses aqui e em outros lugares do sudeste asiático, alguns países param tudo nesse dia como forma de respeito a cultura deles. Mesmo assim, como a minha aula seria na vila e informal, permaneçamos com a agenda. Chegamos cedinho para aula ir só até às 11:30 para os meninos seguirem para a Jumah Pray. Aula na vila é sempre muito legal, cheio de crianças de diferentes idades e muito interessadas já que nada os obrigade estarem ali né? Era uma semana sendo fechada com chave de ouro e ainda não era tudo. Como só ia para Bandung no sábado de manhã, combinei com Paul de ir para Bogor (que foi abordado de última hora), mudando nossos planos para Kota Tua (que tá lá nos primeiros dias de viagem), no centro de Jakarta, uma parte com bastante influência holandesa. Íamos no museu nacional, mas que não lembramos que estava fechado. Só depois de 1 hora e meia de trem e uma andadinha considerável. Deu para mostrar a Paul então o Café Batavia (bem holândes e cheio de gringo), que ele ainda não conhecia. Mas só o ambiente já fala pelo preço, acabou assustando um pouco o rapaz. E o pior de tudo é que eu fico pirangando dinheiro miúdo demais aqui também (tipo 4 reais, 10 reais) que nem to me dando conta que to pirangando porque não converto demais, só adaptei minha cabeça ao que eles acham caro e barato. Me adaptei mais ou menos ao o que eles acham desperdício de se fazer com o dinheiro deles. Então achamos outro café mais barato, conversamos um pouco. Tomamos um café e o engraçado foi que Paul tocou no mesmo assunto que Jordan já tinha me falado. Que Ibu tava interessada em empreender e vender bolo de rolo (ela gostou muito). Só de pensar em fazer um bolo de rolo você já imagina a preguiça né? Mas tentar era o mínimo que eu podia fazer por ela, que tá me acolhendo aqui (marmanjo vei) sem ver cara nem coração. Então levantei minha bunda gorda da cadeira, peguei Paul pelo braço e disse que a gente ia voltar para casa para fazer esse bolo. Pegamos o trem de volta, a moto dele, saí para comprar a goiaba. 20 goiabas, água, açúcar, liquidificador e peneira. A receita de Leticia da Casa dos Frios tinha umas 15 linhas em texto corrido, e só duas palavras dedicadas a parte de “peneirar”. Foi um total de 4 horas fazendo essa cobertura de goiaba, onde 90% do tempo foi dedicado a essas duas palavras sendo uma delas “peneirar”. Peneirar 20 goiabas em uma peneira minúscula deu um trabalho SUR RE AL. Teve até mobilização na casa onde ficou eu, Paul e Ibu assistindo Nadini (novela indiana dublada em Bahasa) e peneirando. P Q P. Mas enfim ficou pronto! Uma delicia! Mas nada de bolo na madrugada, deixa para volta de Bandung, porque já era 1:30 da manhã e eu tinha que tá no terminal de trem às 5 para me encontrar com os outros.

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Fora da caixa

As aulas essa semana começaram na terça, acordei disposto e ansioso para conhecer essa escola. Eu sabia que minha presença ali talvez não trouxesse tanta excitação quanto foi para a escola informal que me proporcionou um contato direto com pessoas realmente desprivilegiadas. Ao chegar, fui recebido por Chantika e Sabrina, também do programa, elas me acompanhariam nas aulas do dia para a tradução dos temas mais específicos e estabelecer uma melhor conexão entre eu e os alunos. Na bolsa, eu levei meus dois pilotos, Awal tinha todo o resto do material. Logo pela manhãzinha ele me mandou uma mensagem confirmando que não poderia ir a essa aula, por isso estava tentando arrumar um Go Jack (moto) para enviar o material (msg asm7:50am), Fiqih também não pôde ir, então eu tava com duas pessoas que não tinham me acompanhado em muitas aulas, e quando acompanharam foi para fazer registro. Já eram umas 9:50 e faltavam 10 minutos para a primeira aula começar, quando as meninas me disseram que Awal não tava conseguindo o motoqueiro (ele tava “tentando” desde às 7:50), isso me deixou realmente chateado. Entre o material, estavam o mapa, papéis e giz de cera, ou seja, tudo o que eu tinha montado e planejado para dar aula. Essa não é a primeira vez que sou pego de surpresa né? Como outras vezes dei aulas bem mais longas do que pensei em dar ou 2 vezes na mesma turma dois dias seguintes. Era hora de tirar o coelhinho da cartola! Conheci então Ms. Anie, a professora de inglês da escola (é, lá eles tinham até professora de inglês) e ela me perguntou se eu precisava de algum material, então pedi um Dunia (globo, mundo) e eles tinham (surpresa). Depois de pegar o globo, ainda consegui dar uma voltinha pela escola, a estrutura era um pouco parecida com aquela de Paul e de Fiqih que eu já descrevi antes. Para minha surpresa as crianças tavam bem animadas e curiosas, me perseguindo e me olhando escondidas pelos corredores. Ali todo mundo usa farda, usam sapatos, roupas limpas e estão limpos (higienizados), um pouco diferente da outra escola. Essa estrutura oferece bebedouros, sala de música, jardim, quadra. Os professores têm sala, o diretor tem outra, posso reafirmar que as escolas públicas daqui dão uma pisa nas do Brasil (na maioria), não me refiro as escolas de referência para gravar guia eleitoral. Não falta nada! Ia começar uma maratona de aula, eram 3 aulas de 40 minutos seguindo uma da outra. A aula tem uma introdução, mas passa pelos continentes, cores, formatos e números. Consegui tocar tudo isso exatamente no tempo certo. Encaixou! No final da aula Ms. Anie nos chamou para a sala do diretor, para nos conhecermos. Pessoa muito tranquila, muito gente boa e muito agradecido pela minha presença na escola dele. Pediu só um feedback dos alunos. O que falar daqueles alunos depois de passar pela escola informal né? Eram lordes ingleses, que no final das aulas agradeciam em conjunto e se empenhavam nas respostas, tudo isso com um inglês básico que estabeleceu uma conexão sem muita tradução.

Chegando em casa lembrei da promessa de fevereiro (ler Sapiens) e me deparei com o calendário já no dia 6. Como o mês só tem 28 dias, eu já perdi 6, ainda vou perder 27 e 28 (quando vou encontrar Cláudia nas Filipinas) e o livro tem 428 páginas, fiz um cálculo rápido e cheguei no seguinte resultado: to fudido. Então fui correr com a leitura, e escrevi um pouco. Já a noite Awal me manda uma mensagem se desculpando, igualmente aos outros membros que não puderam comparecer (era o primeiro dia), para a mensagem de Awal no privado eu preferi nem dar resposta. Dizer que ele era “enrolão” e meter um “bullshit” tava entalado na ponta dos meus dedos, então preferi responder com o silêncio. Simplesmente o cara poderia ter cagado todo o dia de aula, toda vez ele conta com a minha vasta experiência em ser professor (nunca fui professor antes), para tirar aulas do bolso. Abri a conversa no app LINE (whatsapp daqui) e fechei. Depois de umas meia hora ele veio pelo whatsapp e pediu para eu ver a mensagem no LINE, só respondi assim: Já li. Então ele, muito confortável, veio me falar sobre uma apresentação de uma hora que eu faria numa outra Universidade sobre o brasil e indonésia no final de semana. Ele nem ao menos sabia do que se tratava a apresentação, se eu precisava apresentar dados econômicos, cultura, diferenças e etc. Só disse que eu dividira tempo com um outro voluntário, mas que também não sabia quem seria. Esse cara joga duro para me tirar de sério. Mas pelo menos ele enviou a noite o material para minha casa.

No outro dia a aula começaria as 8:20 (nessa escola eles rezavam mais cedo), e daí partiríamos para guerra de novo. Eu sabia que usaria a mesma aula porque seriam turmas novas, então fui pronto e preparado! No nosso grupo do LINE eu perguntei quem me acompanharia, é importante para mim uma pessoa para traduzir não só para que minha mensagem seja entregue sem restrição, mas também para entender o que eles estão falando para que eu possa ajudar, explicar ou melhorar na aula. Kitan ficou doente e Awal me acompanharia. 8:20 eu já estava na escola me apresentando a Ms. Anie, que rapidamente me perguntou onde estavam meus amigos para ajudar, eu embaraçosamente, disse que começaria sem eles e perguntei se ela podia me ajudar. Awal chegou 40 minutos atrasado de carona com um amigo que nos acompanhou no resto das aulas. Ao entrar na sala, ele olhou para mim, mas não consegui nem o cumprimentar, o diálogo era curto e eu só falei com ele quando realmente precisava, já que Ms. Anie seguiu para as aulas dela. As crianças realmente eram diferenciadas, então graças a deus elas desenrolaram muito bem, e algumas dela aprenderam um inglês bem legal com joguinhos de celular (clash e etc). Cada turma que eu entrava já ia mais ou menos com o texto pronto, com as mesmas brincadeiras e só mudava alguns pequenos detalhes diante da compreensão dos alunos ao decorrer da aula. No final, todas sempre agradecem, se organizam em fila e vem me cumprimentar (testa, bochecha ou boca na minha mão), todas pedem me “autografo” e querem saber meu instagram. Isso quando não me pedem o número do celular (kkk). No recreio das crianças ficamos na sala do diretor na companhia de Ms. Anie, muito atenciosa e bacana, depois nos trouxe donuts, água e balas para nós. Peguei uma água e um Donuts e Awal encheu o bolso de bala, envergonhando até o amigo dele. Eu tava P* da vida já com esse cara, então saí da sala para tirar umas fotos da escola, mesmo sem o mínimo saco. Na volta da aula, passei uma atividade que me deixou um pouco mais tranquilo, sem precisar de muita interação. E nessa hora coincidentemente a “diretora” do programa, Momo, me perguntou como andava a aula. Não me contive e respondi que estava ótima, mas que Awal chegou com 40 minutos de atraso, o que atrapalhou a professora de inglês, e que eu não podia mais depender dele para minhas atividades ou para simplesmente me mandar avisos, não dava. Assim como a grande maioria do povo aqui, ela puxou a responsabilidade para ela e assim colocar panos quentes na situação. Aqui ninguém faz grandes mudanças ou questiona muito, então se resolve só empurrando com a barriga mesmo até onde der. Mas ok, acabei a aula e segui para casa. Aquela lição de “cada um tá fazendo o que pode, o seu melhor” tava perdendo o sentido para mim, eu não achava que ele tava dando o máximo dele, principalmente porque os últimos dois eventos (falta de material e atraso) foi simplesmente relaxamento, e não algo que deu errado. Eu to tendo uma paciência de Buda mesmo, deve ter sido as influencias do final de semana passado. Em casa eu li, li, assisti TV e nem tive tempo de escrever, a semana tava corrida e ainda fui na lavandeira e supermercado para comprar umas coisas. Na volta do mercado, encontrei Ibu lendo o Sapiens que dei a Paul (e Jordan já que os dois estão lendo), aquilo me deixou um pouco preocupado porque não sei como ela reagiria, mas no final de contas não esboçou nem uma forma de raiva nem conversou comigo sobre o assunto demonstrando preocupação. Isso é bom.

O livro fala sobre a evolução da sociedade atual, como nós chegamos a isso que somos hoje. Uma história fundamentada em diversos eventos e provas do passado para explicar a nossa personalidade e forma de pensar. Como ainda tô na Revolução Agrícola, não posso falar tanto sobre o livro, mas até agora tô achando muuuito legal e completo, principalmente porque gosto de história. Só sinto sono as vezes que leio porque o livro não me proporciona o jogo de som e imagens que um filme ou série proporciona (eita que cara aculturado).

Para o terceiro dia de aula, não pude contar nem com a mala sem alça do Awal, todos os membros pediram desculpa e me perguntaram se tinha problema de eu ir dar a aula só. Cheguei na hora certa e Ms. Anie me chamou, graças a deus, eu estaria dando a aula nas salas dela, com a cia dela para me traduzir. O único problema é que seriam aulas um pouco mais longas, o que já não é mais problema para o mágico aqui, desenrolamos. Foram 3 aulas de 1 hora superprodutivas, ela me jurou que eles adoraram e ela achou muito dinâmica (ótimo).

Cheguei em casa por volta da hora do almoço e, de novo, só encontro Jordan. Perguntei se ele queria fazer algo e ele prontamente se dispôs. Não demorou muito e ele já tava tomado banho e vestido me esperando para sairmos. Pegamos o carro e fomos em direção a Jakarta, ele me disse que sempre prefere sair por lá, pelos lugares e por ter mais amigos na cidade. Mas o negócio dele mesmo é coffeeshop, esse macho ta em coffeeshop todo dia. Não podia ser diferente e ele me levou em um que ele adorava, o Dua. Cheio de gente descoladinha no meio da tarde, reuniões e lazer (aparentemente), ambiente legal. Show de bola! Batemos papo para cacete, ele pergunta muito sobre o Brasil, gosta de ver vídeo de festas daí, ver as roupas, ar nega se agarrando com os rapaze, auhhmm Pabblo Vitar e Anitta, entre outros cantores daqui claro! É tudo muuuito diferente para ele. Eu to marcando uma viagem a Bandung, uma cidade há umas 3 horas daqui, e ele já se escalou. Eu não sei se é pela diversão ou porque a ex dele mora lá (ainda to descobrindo), para mim vai ser um prazer! Bandung tá cheio de brasileiros, e coincidentemente outros voluntários daqui vão tá lá nessa mesma época, então inserir ele em um contexto diferente da realidade dele, pode dar um gászinho ainda mais na cabeça do mo minino. Conversa vai, conversa vem, ele me disse que um amigo dele tava chegando para se juntar a nós (Boa! curto mto conhecer gente nova!). O cara não demorou 30 minutos e já tava lá, aparentemente o cara todo descoladão pra frente, não muito usual em Depok, mas ele era de Jakarta. Entre uma conversa e outra, ele me disse que era muçulmano. Mas pera aê, esse muçulmano aí tá diferente. Ele é um muçulmano javanês, aparentemente existem várias linhas de pensamento como existe no cristianismo. O muçulmano javanês, apesar de acreditar em alá e etc, mantem muitas tradições do povo antigo dali. As oferendas são para plantas, animais e natureza em geral, era mais sobre fazer o bem do que seguir regras.

Começando por esse papo, fomos um pouco mais a fundo. Como não tenho tanta liberdade ou pro atividade pela outra parte de conversar muito sobre questões religiosas e política, encontrar um cara desse é como se fosse uma mina de ouro. Aqui, como eu já falei, existe uma questão entre os indonésios e os chineses, os chineses são melhores trabalhadores (?), são mais ricos (?), ocupam os cargos mais altos da empresa (?), e isso causa um desconforto entre os dois povos. É muito difícil de ter a compreensão dos locais que os chineses não são seus inimigos, afinal por que seriam? Se é acordado que de fato eles são melhores profissionais, vamos expulsá-los do país ou absolver tudo o que podemos dele? Modo de pensar, de agir, aprender tudo que temos que aprender com os melhores. O país cometeu um equivoco claro colocando na cadeia o ex-governador de Jakarta, a simbologia que isso representa é muito grande para qualquer empresário ou cidadão comum que tenha um pensamento um pouco liberal e até capitalista que queira se candidatar a algum cargo. Aqui a diversidade cultural, a progressão econômica, o bem-estar da população e a erradicação da pobreza tem muito menos importância que as tradições e a religião (e a corrupção). Se você quer ser um politico e impactar a vida dos indonésios, tenha cuidado, olhe onde você pode parar.

Para manter a cultura, as tradições e a religião, o governo (democrático, aham) toma várias medidas que causam uma ilusão de liberdade nas pessoas. Logo no terceiro e quarto presidente pós ditadura, instalou-se um grande esquema de corrupção no país, o presidente manda e seus filhos em cargos públicos administravam o lobby com os empresários (mal lobby). A permanência no poder é muito fácil quando você alinha a politica com a religião usufruindo do nome de um deus que retém a devoção de 90% da população. As pessoas pensam que estão informadas, assistem o que quiser e conseguem pensar pra frente, serem modernas. Na verdade, a grande maioria não conhece John Travolta, via Sindy (de bob esponja) com censura ao usar biquíni. As músicas, os filmes e as séries não contém violência, não falam sobre corrupção, não contém sexualidade e nem se quer um beijo na boca. Netflix é para poucos, Blackmirror é para poucos. Alguém consegue imaginar qual o papel de todo esse conteúdo na nossa vida? Para nos fazer pensar fora da caixa (para pequena caixa daqui, já fazia grande diferença), refletir sobre qualquer assunto? Como podemos reclamar de alguma coisa que não sabemos que existe, como podemos sentir falta de algo que não sabemos que existe? É surreal! Mas o papo deu uma amansada e voltou um pouco mais para eventos (kkkk), esse amigo de Jordan seria sócio dele nas festas. Depois disso não demoramos muito no Coffee Shop e fomos encontrar com outro amigo dele em outro coffee shop (kkk), mas ali era pra ser só uma passagem para seguirmos para um bar. Nessa passagem deixamos o amigo de Paul, ele só encontraria a gente depois. O motivo, o muçulmano pra frentex foi paquerar uma menina lá (kkkk). No carro Jordan foi me explicando que esse papo de pegar nem se tocar ou só pegar na mão, casar para transar e etc era furada. As moças mantinham as aparências porque a sociedade julga muito, mas geralmente, meninas e meninos tiram a virgindade mais ou menos aos 17 anos. Isso é um grande segredo entre todos eles, nem comentam muito entre eles nem expõe as relações para ninguém. É verdade apenas que os mais radicais se mantém assim, mas é tão exceção (segundo ele) que ele conta nos dedos os amigos que percorreram o caminho mais sério do islamismo.

Chegamos no bar, pedimos a cerveja da estrela vermelha que eles tanto me falaram. Não é Heineken, é Bitang. Apesar da Heineken ter um preço bom aqui, porque tem produção local. A Bitang é a cerveja mais importante da Indonésia. É gostosa, mas bem suave. O amigo de Paul voltou e ficamos ali por umas 2 horas quase. Tomei 3 cervejas enquanto eles tomaram 1, e infelizmente, fumei um cigarro. Ainda me enganando porque não tinha quebrado a promessa de janeiro (fuoda). Dia legal, produtivo. Zero leitura, muito conhecimento. Voltamos ouvindo vários cantores brasileiros e indonésios. Entre eles o Roberto Carlos (mais para Belchior) e a Ivete Sangalo daqui. É isso aí, fui!

Vida que segue

 

Um dia muito calmo e legal em Jakarta, infelizmente não tive tanto a presença da amiga Leticia que estava de cama. Passei o dia lendo e escrevendo e a noite tinha marcado com um amigo de infância para encontra-lo em um bar em Jakarta. Tomás morava na mesma “vila” em que alguns primos meu de Recife, quando era criança ia muito lá mas depois nos distanciamos com o tempo. Assim que cheguei em Jakarta, o face me mostrou os “amigos” e “amigos de amigos” que moravam lá e foi assim que eu entrei em contato com ele pela primeira vez.

Um mês depois da minha chegada por aqui, Tomás, que na verdade não morava em Jakarta, estava vindo de Papua e passaria a noite por aqui, então marcamos uma cerveja para bater um papo sobre o país e como andam as coisas. O cara é piloto comercial de uma linha aérea local que faz transporte de tudo (alimento, pessoas e até bichos) em avião pequeno dentro da Papua, mas antes disso passou por outras ilhas da Indonésia, já tá há um ano e meio aqui. Fomos em um rooftop perto do centro. Aesar da distância e não nos falarmos por muito tempo, pareceu que tínhamos muita coisa para contar, então o papo fluiu. Principalmente sobre as experiências dele ao decorrer de todo esse tempo pilotando em um extremo com pistas em condições precárias com controladores que só falavam em Bahasa Indonésia, condições só comparadas a pilotar na Sibéria ou nos árticos, por exemplo. Além disso muita reflexão sobre as coisas que deixamos de lado para evoluir um pouco, o que vale a pena manter e o que não vale. Que “sacrifícios” devemos fazer para evoluirmos como pessoa, seja profissionalmente ou pessoalmente. No final das contas não são sacrifícios, afinal as desafio e circunstâncias que uma sociedade diferente nos impõe soam são rapidamente compensados todos os dias ao serem cumprido. A importância de manter a sinceridade na cabeça e saber para que veio, ajuda em qualquer missão. No final das contas trata-se de uma evolução pessoal, por mais que seja voluntariado ou pilotando para pessoas humildes em lugares precários no “fim do mundo”. Um sorriso de uma criança, uma bela vista de cima de lugares praticamente intocáveis, entregar arroz numa comunidade isolada, uma conversa que mude o futuro de alguém aqui, tudo isso é muito gratificante, mas sabemos que no fim da conta queremos nos encontrar, evoluir e até ter mais horas de voo para alçar novos desafios.

No face hoje li um texto legal que um amigo compartilhou de um outro intercambista por aí pelo mundo. É verdade que pode parecer muito impactante, mas é possível extrair várias ideias que correspondem ao sentimento de quase todos em que estão desfrutando dessa viagem assim como eu, então resolvi colar aqui:

“Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.
Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria:

Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.”
Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.
Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.
Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.
É preciso ir embora.
Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.
É preciso ir embora.
Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…”com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música”ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.
Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.
As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.
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Por: Antônia no Divã

 

 

Tem muito a ver com sinceridade, com desprendimento, maturidade, aceitação e a impermanência que já conversamos aqui. Se esse realmente for o caminho certo, essa forma de pensamento nos aproxima da estrada. Eu não gosto muito de radicalizar tanto nas palavras e principalmente quando são sobre sentimento, qual nunca tive tanto tato ou jeito de expor, certamente esse rapaz do depoimento se desfez de algumas amizades que o fizeram ter a frieza e ao mesmo tempo a consciência de escolher as palavras dessa forma. Mas no final de contas é o bom e velho “vida que segue” que está sempre presente nas nossas vidas.

Voltando a noite, saímos de lá para o Beergarden que eu já tinha ido com Gunnar, Leticia e o outro brasileiro lá atrás porque fechava um pouco mais tarde (às 2) e ainda arriscamos uma “balada” que não nos permitiram a entrada porque estávamos de bermuda de havaianas (hehe) então cada um tomou seu rumo para casa. No outro dia acordei umas 10h na casa do casal nota mil, tomei banho e não demorei muito para partir. Era segunda, Leticia tava melhor e tinha ido trabalhar, Gunnar ficou em casa porque adoeceu e no outro dia eu voltava as aulas. Perguntei a Sukini (secretária da casa) qual era o terminal mais próximo dali, e fiquei de cara depois de 20 minutos de moto chegar num terminal que já me era familiar (Pasar Minggu Station), então “easy game”, consegui carregar meu cartão de transporte e acertar no metrô em direção a Depok, de lá peguei outra moto e em 1 hora já tava em casa (me achando o desenrolado fazendo isso pela primeira vez sozinho).

Cheguei em casa, todos tavam no trabalho, faculdade ou colégio. A não ser por Jordan que não conseguiu renovar o contrato com a empresa e tava em casa de bobeira. Cheguei um pouco cansado (sei nem de que) e falei pra ele que ia dar uma deitada, mas que precisava ir no shopping mais tarde, se ele quisesse me acompanhar seria bem-vindo. Então saímos de casa depois de uma hora e seguimos. Lá no shopping troquei dinheiro (jaja to liso), coloquei mais credito no celular (liso de verdade) e fomos no BK para pegar uma promo maravilhosa que tava rolando. Para minha infelicidade, acabei descobrindo que o “Muslin Friendly”, na verdade era uma obrigação na cidade de Depok, e que por aqui não existe bacon (kkk pqp), no beer, no bacon (querem me fuder). No BK encontrei outros voluntários e pessoas da AIESEC, sentamos muito e batemos papo. Manoel (o mexicano) me parecia meio incomodado, tava curto e grosso com a turma lá, então perguntei pra ele se ele tava tendo problemas. E a respota foi clara: sim. E os mesmos que eu. O que se confirma aquela teoria de Cecilia (que eu falei em um dos primeiros posts) sobre a boa vontade mas falta de habilidade das pessoas da AIESEC em administrar os programas. Não é só Awal, ele também tava sem saber qual seria o Schedule dele do dia seguinte (whaaaat), e isso tava irritando muito ele (óbvio), principalmente pq não era a primeira vez.

Passamos ali ainda uns 40 minutos, mas seguimos porque eu ainda ia tentar passar na lavandeira para pegar as roupas que eu deixei antes de ir para Jogja. No carro mesmo vi no papel da lavandeira que já estava fechada, então Jordan me perguntou se eu não queria ir num Coffee Shop, assim como no brasil, Coffee Shop e barbearia é febre. Até a arquitetura “industrial” tá na moda (é mundial eu acho). Mas o café que ele queria me levar tava fechado e terminamos na Starbucks mesmo. Pedimos o café e em 3 minutos já tava na mão, sem lugar para sentar (tudo cheio) sentamos do lado de fora na calçada que aí ele podia fumar. Esse cafezinho aí durou mais ou menos uma hora. A conversa passou de conselhos amorosos, até viagem e carreira profissional.

Jordan, como eu já disse aqui, não é um cara religioso, mas independente disso é um cara muito legal e como a maioria do povo que eu conheci (por enquanto), bastante inocente. Pulando o assunto da vida amorosa dele, vamos a profissional e viagem. Ele me pediu dicas do que ele devia fazer (eu, logo eu, perdidinho no espaço) mas dar conselhos aqui para pessoas dispostas a enfrentar o novo como ele, é fácil (Jajá eu viro coaching de vida aqui, espero tá dando os conselhos certos). Muito do que eu falei para ele foi parecido com o que disse a Fiqih, mas para ele é muito mais fácil porque ele não tem a “amarra” religiosa para o impedir de crescer, evoluir, conversar sobre qualquer assunto e seguir. Filmes estrangeiros, livros estrangeiros, tudo que o mundo possa proporcionar a ele fora dos sites da Indonésia, das noticias daqui. Ver franquias e modelos de negócios de outros países (ele tem vontade de empreender), e até fazer eventos em um dos nossos mais diversos formatos no brasil (como openbar que não existe aqui), o olho dele brilhava. E ele até me disse que Ayah está se aposentando em julho, e pela primeira vez eles vão todos ter a oportunidade de ir a outro país. A empresa proporciona uma viagem a Israel para os funcionários que vão se aposentar. Se empolgou muito com a questão do evento também e até me ofereci para ajudar se ele quiser fazer algum até o final do mês para os voluntários. Papo vai, papo vem já era hora de voltar para casa, afinal no outro dia era o primeiro dia de aula na nova escola!! A Beji 7, uma escola do estado (formal) e aparentemente totalmente diferente do que eu vi na outra. Beijos e é “vida que segue”.

Yogyakarta – Voos mais altos

O terceiro dia de Jogja foi o único que nos demos a liberdade de acordar mais tarde. Não tinham programação longe, e os outros pontos turísticos ficavam todos perto um dos outros. Nesse dia iríamos para 2 dos lugares que aquele motorista enrolão lá não nos levou e ainda uma rua que era uma grande feira. Todo eu tava enrolando umas meia hora, 40 min na cama por conta do banho. Esse dia acho que foi mais de uma hora. Lembra que eu tinha reclamado do “Ice Bucket Chalange”? Pronto. Saudade! O banho nesse hotel tava sendo de chuveirinho de bunda. A privada dividia o espaço com o box, então facilitava um pouco para se molhar. Ainda no banho tinha uma torneira perto do chão, pedi até um balde na recepção (tava fazendo falta), mas nada. Dali saímos quase na hora combinada com os Australianos, com um gapzinho de tempo suficiente para ir no Taman Sari (Water Castle). O Taman Sari foi construído em 1755 para ser o palácio do primeiro Sultão de Jogja, tem esse apelido por ter um grande lago artificial no centro. Não deu para entender direito como ele é formado, tem várias estruturas “espalhadas” que compõem o palácio, dentro dele várias comunidades, isso dificultava entender como era a sua formação. Essa primeira parte do palácio não me chamou muito atenção, ainda mais com a correria que foi porque ia cair uma chuva danada. Em direção a outra parte daquela estrutura, encontramos um café e resolvemos esperar a chuva passar. O café pequeninho mas bem organizado, tratava-se de um coffee shop de Luwak Coffee. Para quem não sabe, o Luwak Kopi (ou Café Luwak), é um café extraído das fezes do civeta. Civeta é um mamífero mais ou menos do tamanho de um gato que tem hábitos noturno. O pessoal que trabalhava ali no Café era muito simpático, me ofereceu até degustação de café depois que resolvi pagar por uma quantidade pequena (75g) para presentear Ibu que adora café. Todo o processo para produção daquele café foi explicado por uma mulher muito gente boa que tava lá, ela disse que o café dela era antigo e ficava na Rua Malioboro (conhecida lá), mas que o a crescente dos impostos, resolveu se mudar para aquele outro lugar. Ela garantiu que o café dela é fornecido por uma comunidade que mora perto de uma floreta e colhe o cocô do da civeta de forma natural, e não sob confinamento como tem acontecido bastante hoje em dia. Funciona assim: A civeta vem num cafezal, faz uma seleção natural dos melhores grãos pelo olfato, engole esses grão, junto com outros alimentos que eles costumam consumir (bem temperados, tipo canela e etc), e defecam por aí. Depois disso o pessoal dessa comunidade, que já faz isso há anos, sabe onde geralmente as civetas fazem o coco e colhem para secar. Os grãos de café verde ficam praticamente intactos, mesmo assim é necessário tirar todo o excesso e secar apenas os grãos para depois tostar. Depois é só moer e tomar. Realmente, eu que não sou degustador de café, sou tomador de café safado mesmo, daquele que tomam os cafés barato de empresa (uns 5 por dia), estando ruim ou bom, mas aquele ali era diferenciado, era mais encorpado e mais forte. Mais gostoso também! Ali eu tomei a primeira xícara, mas a chuva não parava, e como a gente ficou até estiar, eles me deram mais outra e conversamos bastante. Uma hora o cara que parecia ser o dono foi para cozinha e fritou umas fatias de fruta pão com alho sal e pimenta, ficou muito bom! Nunca tinha comido fruta pão. Tentei brincar um pouco com o Civeta de estimação que eles tinham, mas ele deu uma mordidinha de brincadeira que tirou minha confiança. E no final ela me deu um caderno para escrever alguma lembrança, no caderno já tinham coisas escritas de pessoas de vários países diferentes. Então a chuva já valeu! Aproximou pessoas massa e proporcionou uma experiência nova, uma coisa que eu queria provar.

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Pouco antes da chuva parar, os australianos já tinham desistido de paintball e de passear, a chuva tava foda mesmo. Então eles seguiram de volta para o hotel e eu e Fiqih seguimos na nossa caminhada. Passamos por algumas ruínas que faziam parte do palácio e procuramos muito umas escadas que eu tinha visto em foto. Para procurar essas escadas foi um nó cego dentro de uma comunidade lá. Eu pedia a Fiqih para ele perguntar como chegava, e ele não ficava a vontade para isso. O povo aqui tem essa “limitação” de não querer “incomodar” a um ponto de terminar se prejudicando. Uma mulher numa loja tinha oferecido para nos guiar (pagando claro) para lá, e eu tinha negado, mas como cruzamos com ela levando umas turistas num beco por aí, ele rapidamente chamou minha atenção para ficarmos parados e não “seguirmos” ela, para ela não achar que a gente tava se aproveitando. Pelamordideus né? Kkkkk só eu mesmo. Segui mesmo, e fiz ele ir comigo para deixar de queijo. Chegamos lá e realmente, apesar de malconservado era um lugar massa. Mas como tinha bastante turista, atrapalhava um pouco. Eu sabia que aquele não era o dia de ver coisa muito bonita, que inclusive minha cota de surpresas (com o Prambanan e Borobudur) já estava passada.

Então seguimos para o Palácio do Rei, e mais uma vez tivemos a infelicidade de encontra-lo fechado a visita do público. Seguimos para o próximo ponto do nosso roteiro que era a Malioboro Street, uma rua bem famosa talvez pelo comércio informal. Um monte de barraca na rua de comida, roupa e qualquer outra coisa que você imaginar. Eu tava sem muito interesse por essa parte, mas Fiqih comprou coisa para Deus e o mundo. Inclusive me perguntou se no Brasil não existia a tradição de comprar presentes para a família e pessoas próximas em uma viagem. Expliquei para ele que até era, mas que o formato de viagem que eu tava fazendo, com um budget muito baixo não permitia sair comprando coisa, ainda mais porque eu vou ter que carregar tudo na mala até o dia 22 de março. Então daria só amor quando eu voltar mesmo (kkkkk) ele riu para cacete, mas achou uma boa ideia. Para não dizer que eu saí de mãos abanando daquela rua, comprei meu primeiro camisa de Batik, custou apenas 50 mil rps, mas chorei para caceta no preço, to chorando por tudo aqui não sei porque. Depois que eu converto chega da uma vergonha kkkkk.

Ali já tinha dado a hora, passado inclusive. Precisavamos voltar para o hotel para pegar a mala e partir para o aero. Fiqih queria chegar com umas 3 horas de antecedência (falta de experiência traz essa insegurança), mas conseguir convencê-lo e chegamos com 50 minutos (kkkk). Faltando 20 minutos para o vôo deu a hora da reza dele e ele foi tentar fazer numa sala de reza no aero, foi uma correria para ele entrar no avião, mas deu tudo certo. O vôo em si é muito rápido, mas fomos conversando sobre uma viagem que ele vai fazer em Julho. Naquele dia antes de entrar no avião, o pai dele tinha mandando uma mensagem dizendo que conseguiu as pesagens para ele, e que em julho ele tá indo fazer um curso de 1 mês no Japão. Eu já sabia dessa intenção dele, mas não sabia que era para já. E muito ansioso, no avião ele me perguntava para quais países eu já tinha ido, disse que era a primeira vez que ia viajar para tão longe e pediu conselhos sobre como ele deveria se comportar para tirar o melhor proveito dessa viagem. Bem, uma frase que tá ficando meio usual no meu vocabulário quando eles me pedem um conselho é “Open your mind”, não deixe a religião, os seus costumes e as imposições políticas que o seu país impeçam você de crescer, de conhecer e se aprofundar. Procure filmes estrangeiros, leia livros sobre assuntos “nebulosos” para sua cultura e tire todas as suas dúvidas. Simplesmente vá! Não deixe que sua religião ou o que seus pais te disseram um dia, impeça você de conhecer algumas pessoas (australianos) num bar a noite, que seja. Ir para tão longe para estudar numa sala de aula não era o propósito daquela viagem dele, isso ele faria aqui. Lá a viagem é para ter uma troca, viver como eles assim como eu tava fazendo aqui. Se deixasse levar para entender como funciona, mas conhecer e se aproximar do maior número de pessoas possíveis, de repente assim surgiria uma oportunidade. Quem sabe ele não se apaixonasse por lá ou mesmo pelo país e obtivesse na vida uma meta de ir morar lá, juntar dinheiro e encontrar uma boa profissão para seguir a vida longe das limitações daqui? E assim talvez pudesse ajudar ainda mais a comunidade e os pais dele. Quem sabe? Para saber ele tinha que voar mais alto, sair da gaiola e parar de baixar a cabeça tanto. Entender o mundo e aprender como viver. Deu para ver que ele captou a mensagem e que taria disposto a isso, eu realmente espero muito. Fiqih é um menino muito puro e inocente e também limitado ao que os pais e a religião lhe permitem, mas essa faculdade de Japonês me dá um ânimo. Dá uma vontade de investir essa energia nele para que ele saia, que ele viagem e aprenda. Acho sinceramente que não estou desperdiçando tempo, ainda espero ver ele indo além dos outros.

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Chegamos no aero de Jakarta e tínhamos que seguir. Fiqih ia voltar para casa e eu combinei com Leticia para ficar na casa do casal nota mil por uma noite. Então eles pediram para Dani the Driver me pegar no Aero. Foi muito legal vê-lo, deu para ver que ele sentiu o mesmo, foi uma viagem de 1 hora onde ele ria bastante e me perguntava coisas de Depok “be careful, Depok Dangerous dangerous” (kkkkk), ele é cheio das ideias erradas, tava tentando explicar a ele como Depok era mais calmo e mais tranquilo que Jakarta. Mas as opiniões dele já são bem formadas e difíceis de mudar. Então chegamos em um condomínio que não era o de Leticia e Gunar, eu sabia que eles estavam num churrasco e que encontraria eles lá, mas pensei que era na casa de Marcela e Gustavo, o outro casal que fomos na casa no condomínio. Na verdade, dessa vez foi na casa de Alex e Adriana, um outro casal de brasileiros, que estão aqui há 16 anos (fiquei de cara), desde 2002 o pessoal tá em Jakarta, só com uma rápida passagem por Bangkok. Na verdade, não sei o que motiva, mas seja o que for, deve valer muito a pena. Para morar em Jakarta, você abdica de muita coisa, sem falar da família e dos amigos. Mas esses pareciam bastante habituados a viver ali e os filhos bastante confortáveis e tranquilos com essa situação. No problema at all. Ainda quero viver uma experiência dessa, com a família em um lugar diferente, bem longe dos costumes e cada um com seu aprendizado trazendo para mesa de jantar no final do dia. Legal né? Tomamos umas cervejas, e o churrasco tava uma delícia! Fazia tempo que eu não comida algo não frito ou industrializado, não sei nem como mostrar gratidão por isso! Haha. Conversamos bastante sobre quais empreendimentos seriam aplicáveis no brasil, modelos de negócios para copiar (claro que não vou dividir aqui), conversamos sobre como é a minha vida com os locais por aqui, em depok. E sobre os planos do futuro. A noite foi rápida para mim que chegou bem depois, mas foi muito legal! Tava saudade de falar umas palavrinhas em português, não calava a matraca!

Desculpem as fotos, perdi todas desse dia, ficaram só a de celular.

Yogyakarta – Prambanan

Começando o dia bem cedo em Jogja e dessa vez nem notei quando Fiqih levantou para rezar as 4 e pouca. A noite passada dormimos cedo para acordar e tentar pegar o por do sol no templo Prambanan, mas assim que vimos que tava meio nublado, fomos na nossa hora de manhã normal mesmo (umas 8h, 9h). Esse complexo, que tinham o Prambanan + 3 outros templos (ou ruínas), ficava bem mais perto que o outro, então com apenas meia horinha, já chegamos lá. Assim que você chega, da de cara com um jardim gigante, é tudo muito bem cuidado dentro dos dois complexos, neste especificamente era ainda mais caprichado, grama verdinha e cortada, tudo funcionando direitinho e bem sinalizado. A medida que eu ia entrando pude ver lá no fundo umas torres bem altas, aquilo naturalmente já causa uma excitação. Tipo quando você vê uma montanha-russa muito boa em Orlando, vai se empolgando e acelerando o passo. Logo na entrada para a área onde as torres que compunham o templo Prambanan tinha uma placa contendo mais informações, mas para minha infelicidade (e de todos os turistas) não tem tradução para inglês.

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Então, vendo a minha falta de informação naquela hora, Fiqih me perguntou se eu queria saber a história do templo. Aqui compartilho a versão mais legal: Existe uma lenda local em que uma princesa muito cortejada, fez um pedido um tanto exigente para um pretendente indesejado. Ela pediu que ele construísse 1000 templos durante uma noite e que só desta forma seria possível eles se casarem. Com a ajuda de “demônios”, quando o homem estava no 999º templo, soube que a mulher não teria intensão de casar com ele. Então, com um feitiço, ele transformou ela em estatua e colocou na câmara do prédio central (principal), do templo. Fiqih só sabia da lenda, e não da história verdadeira. A verdadeira é que o templo foi construído no século 9 para comemorar o fim de uma guerra que decidiu a nova localização da capital de Java. Não só a localização geográfica, mas também religiosa, que deixava de ser budista para ser hinduísta. Na verdade, eu ainda não conseguia entender direito a diferença entre as duas religiões, principalmente porque em ambos os templos estão cheios de figuras do Buda, então para entender melhor, dei aquele velho Google. As duas religiões, budista e hinduísta, de fato tem  a mesma fundação derivada de outra religião, Védica (vedas eram tribos antigas da índia) no hinduísmo eles acreditam em diferentes Deuses que são responsáveis por diferentes papéis na nossa vida, um destrói, outro cria e outro protege (Shiva, Brahma e Vishnu, respectivamente), fora isso tem a questão das castas (basta ter assistido “Caminho das Indias” para entender que não é nada legal).

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Já os Budistas não acreditam nesses Deuses Hindus, mas sim na própria consciência, na busca espiritual de cada indivíduo. Uma filosofia, um modo de vida onde existe a causa e o efeito. Que diferente das outras religiões, foi criada por uma pessoa (Sidarta Gautama), que não era nada mais nada menos que um Príncipe que teve acesso a um mundo fora das paredes e proteção do seu castelo, conhecendo a miséria e procurou um estado mental que pudesse ajudar as pessoas a resolver aquilo, com mais compaixão e sem muito deslumbramento a fim de evitar frustrações ou sofrimento.

Ficamos bastante tempo no primeiro templo subindo e descendo os degraus daqueles 8 edifícios, tanto tempo que já ia dar meio dia e era a hora de Fiqih sair para rezar (Sexta, Jummah pray, lembra?) todo lugar tem mesquita, até dentro de complexos religiosos de outra religião. O lugar pode ser rico, pobre, de qualquer jeito. É tipo a Igreja Universal, uma mesquita em cada quarteirão. Quando não tem mesquita, tem sala de reza. Isso em estação de metrô, aeroporto, qualquer lugar! Então Fiqih foi e eu continuei perambulando por ali, enrolado em minha bandeira do Brasil, jurando que também era necessário o uso de Sarung lá (só descobri depois que não quando vi uma série de meninas de shortinho e regata), tirando umas fotos, e fui andando e andando, até chegar num enorme jardim verde, passando debaixo das arvores, sobrinha, bem ventilado e resolvi dar uma paradinha. Estendi a canga (do brasil), peguei minha água, tirei meu sapato e tive a brilhante ideia de fazer a respiração. Geralmente quando faço em casa, em uns 20 25min eu acabo, nesse lugar eu respirei e deitei, só despertei exatos 43 minutos depois com Fiqih me ligando. Fiquei molinho molinho (kkk). Antes de explorar os outros templos no complexo, achei um museu lá, mas preparados que eles são aqui, não disponibilizam as informações em inglês, então só olhei mesmo e fiz aquela cara de entendido. De legal nesse museu, só uma “maquete” desse complexo, e do complexo de Borobudur, vendo de cima é bem interessante.

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De lá, avistamos uma grande chuva chegando, então demos uma pressinha no passo para conseguir ver melhor os outros templos (que segundo Fiqih ouviu no alto falante do complexo, eram budistas, vai entender), o último é bem legal, o resto estão meio em ruínas. Na volta passamos por um “zológicozinho” que tinham umas espécies de animal que eu nunca tinha visto e só. Mais uma grande experiência para conta!

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Na volta fomos direto para o hotel, a fome tava destruindo meu cérebro. Lá matamos cada um 2 Indomies (o miojo daqui), mais uns cheetos e um refrigerante. Descansei uma horinha ou duas e resolvi encara a noite na cidade, já que no outro dia não precisava acordar tão cedo. Fiqih declinou o convite, mesmo com muita insistência minha, fiz umas 35 “last calls” mas a educação que os pais dele passaram sobre não sair depois da reza das 18, 19 (sei lá), falava mais alto. Fora isso tem a questão do bar, que ele não “poderia” entrar (todos os bares q fui tem muçulmanos, mais liberais). Então resolvi ir só mesmo. Várias pessoas locais, me falavam pra ir numa rua que é bastante turista (para noite) com vários bares e etc, inclusive o motoqueiro me levou diretamente para lá. Assim que cheguei, não vi uma alma viva a não ser por uns 2 ou 3 gringo coroazão tomando uma cerveja em um dos bares, o lugar era legal, mas vazio do jeito que tava, não rolava. Encostei num bar daquele ali, e com muito esforço para ser entendido, uma mulher que estava servindo bebida me disse que era melhor eu ir no “Liqui”, eu que tinha acabado de pegar umas meia hora de moto, nem relutei em chamar outro uber para me locomover para essa nova dica, confesso que com o pé muito atrás. A rua desse Liqui não parecia ser turística, e a faixada não era tão legal. Entrei no bar e não vi ninguém, uma mesa no máximo ocupada, mas um garçom se aproximou e me puxou para uma porta dupla nos fundos que levava a um espaço GIGANTE, na moral mesmo, muito grande, pé direito lá em cima, várias mesas tipo de PIC NIC, palco para banda, iluminação massa, 2 bares. O único problema era que tava vazio, único não, o outro problema era que nenhum garçom falava inglês. Então saber se ia chegar gente ou se ia ficar daquele jeito, era uma surpresa. Notei que tinham duas mesas ocupadas (apenas), uma com um povo local, e outra com 7 pessoas. Depois de uns 20 minutos sentado tomando minha segunda cerveja (depois de 20 dias zerado), pude ver na visão periférica que um rapaz e duas meninas estavam em pé meio que vindo (naquela, meio com vergonha), então olhei para eles para facilitar o contato (haha), eles vieram, perguntaram se eu tava só e se eu queria me juntar a mesa deles (os 7). Me perguntaram bastante coisa sobre a minha passagem, estadia, de onde eu vim e etc. Assim como eu perguntei também. Eram 7 australianos(as) universitários(as) que vieram através de um programa de voluntariado que a universidade de Melbourne proporcionava. Estavam em uma vila de verdade, com vista para o Vulcão Merapi (que ficava ali perto) fazendo um trabalho de conscientização contra a poluição para a população local. E sempre iam naquele bar para relaxar, disseram q era o melhor. A noite foi muito divertida, alguns deles era muito difícil de entender por conta do sotaque, mas não faltou boa vontade deles em repetir quantas vezes fossem necessárias. Repetir principalmente porque jogamos Presidente e Assassino nas cartas e como eu não me lembrava como eram os jogos, precisei ser ensinado. Tomamos ali um Long Island (muito bom, inclusive) e umas 5 ou 6 cervejas. Muita conversa e até que dois deles se juntaram na mesa de uns locais, que não muito tempo depois, chamou o resto para se juntar aos locais. Eram dois “coroas” e 2 mulheres. Um deles mexia muito no nariz e não demorou muito para eles começarem com esse papo, o outro que falava inglês muito bem, rapidamente já introduziu o assunto de drogas na mesa, mas dizendo que o que mexia no nariz era o melhor advogado de Jogja (os dois pareciam ricos mesmo) e ele não apresento a profissão, mas fez uma bela descrição das cadeias de Amsterdam, Melbourn e Jakarta, por onde ele disse que já teve passagem por uso de maconha (sei), eu já não tava gostando muito daquela conversinha, mas ainda bem q era meio fim de noite e eles não demoraram para ir embora, ficando só eu e os australianos de novo. Mais umas cervejas, então era hora de partir. Deixamos marcado um encontro no outro dia para a visita ao Palácio do Sultão, ao castelo das águas e um paintball. Na volta eles pegaram um carro e eu, pra variar, uma moto porque já tava com saudade. Cheguei no hotel e dormi feito um anjo.

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