Empatia

Depois do final de semana da arrecadação muita coisa aconteceu. Os dias pareceram horas, e esse período em que não escrevi aqui fez uma bola de neve em vários eventos que seriam melhores descritos no calor do momento, e não resfriado depois de tanto tempo. Alguns motivos me fizeram me distanciar do blog como a falta de feedback, outras coisas importantes acontecendo e preguiça (preguiça aquela que eu combati tanto no início), mas na verdade era uma preguiça de exaustão, não de comodismo.

Voltando um pouco aos eventos anteriores, porque esqueci de descrever uma reunião que tivemos após o dia de arrecadação. Nos reunimos em um restaurante de um shopping próximo a rua onde estávamos solicitando ajuda a escola, lá íamos contar o dinheiro e discutir o roteiro da semana seguinte. Como já falei do valor arrecadado nesse dia, vou pular para a conversa. Sentamos na mesa e pedimos a comida, logo após a comida, Awal abriu o laptop para me mostrar quais seriam minhas atividades da semana. Ele e eu, compenetrados na explicação dele do que seria cada atividade e quais eram as minhas responsabilidades dentro de cada uma delas. Logo de cara, me deparei com uma coisinha que me incomodou (to parecendo um velho ranzinza), mas era sobre uma apresentação sobre diversidade cultural em uma escola DIVERGENTE (como tava escrito no computador dele) – wow, divergente de quem?. Mas não vou polemizar essa leitura que eles fazem sobre uma escola cristã não. A minha pergunta a ele foi qual seria realmente a minha função nisso, já que estavam sendo destinados 2 dias para essa escola e 1 dia para voltar a escola do estado que eu passei a última semana. Minha surpresa foi com a resposta. Tratava-se de uma apresentação de 30 minutos por dia nessa escola particular cristã, e a minha volta a escola estadual para a entrega de um certificado. Somando 3 dias de atividades, teríamos uma hora e vinte de conteúdo (?), não deixei ele se quer decorrer do conteúdo das atividades dos dias seguintes, interrompi por ali afirmando que faria tudo isso em um dia só e ainda precisava de mais atividades. De novo, que não tinha vindo de tão longe para ter “freedays”, se eu quisesse férias teria ido para Bali. Isso o colocou contra a parede porque ele não tinha plano B, ele ficou sem jeito mas explicou que era a Universidade deles que tinha voltado as aulas e eles não poderiam me acompanhar durante a semana. Minha intenção não era deixar Awal contra a parede ou sem saber o que responder, então chamei a atenção das meninas que tavam só conversando, participar e pedi que elas o ajudassem. Deixei eles em paz e disse que iria no banheiro, que na verdade preferi deixar eles a vontade para discutir sem a minha presença. Dei uma meia hora e voltei, e tudo já parecia ter sido solucionado. Awal aí já me mostrou um nosso roteiro para semana. Esse novo roteiro contemplava a escola estadual com mais dois dias, o outro faríamos uma longa apresentação na escola privada e por último duas “outside classes” na vila de Fiqih como aparentemente já estava marcado. Dessa forma minha semana estava completa e uma confirmação de Chantika (responsável pelos contatos das escolas), me deixou seguro de que estava tudo certo para seguir.

Acordei cedinho, eles me pediram para chegar às 8h na escola. Achei meio estranho porque tem a hora da reza, mas vamo lá. Tomo meu banho, uma xícara de café, visto minha Batik (é uma escola do estado formal, estão como regra exige a camisa com gola) e peço meu Uber. Cheguei na hora lá, mas já vi que tinha sido o único. Isso não me intimidou porque agora eu já tinha intimidade com a professora e com os alunos. Ms. Annie foi uma das primeiras pessoas que vi quando me aproximava da sala dos professores, e logo sem disfarçar ela já fez uma cara de surpresa. Me perguntou se eu ia dar aula hoje, que ela não tinha sido avisada (hã?), tudo bem ela tava tentando entender. Na sala do diretor, onde geralmente eu passava os intervalos das aulas, ela conseguiu falar com o próprio, que também não tinha sido avisado (por quem né? Ele é quem manda) e não demorou muito para Sabrina e Fiqih chegarem. Logo eu já passei essa informação para eles que tentaram contornar a situação. A primeira solução seria acompanhar Ms. Anie na aula dela na turma mais jovem (nunca tinha ensinado a crianças dessa idade) e teria que ser o assunto que ela tinha planejado (dias da semana e meses), preferi por bom grado não atrapalhar o planejamento dela (claro) então restou uma segunda alternativa. Esperar até às 10h e ensinar em uma outra turma (legal) sem a Cia de Miss Annie. Esperei até às 10h, fui no pátio no recreio fotografar as crianças. Ali todas se vestem bem, tem uma ótima aparência, aula de música, uma farda diferente (estilo diferente mesmo) por dia. Voltei para sala, tomei uma água e deu o meu tempo. No caminho para sala, Sabrina sem jeito me fala que ela e Fiqih não poderiam me acompanhar porque teriam aula as 10:15. Sério. Perguntei para eles como eles esperavam que eu me comunicasse com aquelas crianças. Sem NINGUÉM para traduzir a aula. Que não seria possível fazer aquilo. Isso não comoveu eles, ela só me perguntou se tinha algum problema de eu ir para casa (haha), respondi que claro que sim. Mas que mesmo assim iria.

Cheguei em casa possesso, emputiferado, soltando fogo pelas venta. Queria explodir com alguém, mas não existia alguém. Jordan tava na sala, mas com vergonha desse acontecimento nem com ele eu dividi esse acontecimento. A melhor solução aparente para mim, foi relaxar. Vim para o meu quarto, liguei o ventilador, comecei a ler (que me dá sono), e consegui descansar 1 hora. Acordei mais calmo, mesmo assim querendo dividir isso com alguém da AIESEC. Já recorri a Awal, a Momo, quem mais? Então Rafif me suou como um bom nome. Esse é o cara que eu tive o primeiro contato quando ainda estava no Brasil, ele me parecia ser de um cargo mais alto, então foi com ele que eu resolvi me abrir. Antes das primeiras palavras, já avisei aos outros dois que teria que falar com ele porque a situação já havia chegado em um limite razoável em que não era possível continuar seguindo pelo mesmo caminho. Tentei uma conversa pessoalmente, mas ele (que tava em casa) me pediu para ir até lá (uma hora e vinte de moto) o que não era possível. Então resolvi falar o que eu achava para ele por ali mesmo.  Comecei falando sobre o estopim da minha explosão que foi o acontecimento do dia, então abri todo o passado de falhas que estavam acontecendo. E para mim um dos problemas mais graves e onde eu foquei minha energia foi nessa questão de alguém para te acompanhar e foi exatamente dessa forma que passei para ele.

“Que porra é essa que o cara aciona um programa no site da Aiesec, pedindo voluntários que podem vir do outro lado do mundo para cá e você não calcula nem quando suas aulas vão começar para saber se vão tá disponíveis para acompanhar o estrangeiro nas atividades? Eu vim aqui com um propósito e estou levando isso muito a sério e foi por isso que desde o inicio eu perguntei para os responsáveis pelo meu programa se eles realmente precisavam de alguém ali. Se não eu poderia facilmente mudar para outro programa, outra cidade, outra província e até outra ilha, sem problemas. Se as pessoas aqui não se importavam em ajudar eu posso me mudar facilmente para algum lugar que eu encontre pessoas com meu mesmo propósito. Eu quero compromisso, vim de muito longe para ser feito de bobo.”

Ele foi competente em dizer que só ficou sabendo dessa situação nesse momento e que iria ver mais de perto, mas que eu ficasse tranquilo que ele iria resolver. Ainda não fiquei tranquilo porque não sabia nem o que faria no dia seguinte, sabido que conversando com Ms. Annie, ela me disse que o colégio estaria fechado para a Olimpiadas de Matemática no outro dia (que acerto em Chantika, parabéns). 3 horas depois, recebi a mensagem de Momo perguntando se ela poderia vir aqui na minha casa com alguns outros depois da aula deles. Claro, queria tudo resolvido. Quando era mais ou menos umas 8 da noite avisei a Paul que o pessoal tava vindo aí, e como das útimas vezes nos reuniríamos na varanda. Expliquei rapidamente o que tava acontecendo para ele e ele explicou para Ibu, que por sua vez achou melhor ele me acompanhar na reunião (kkk medo da minha fúria). Brincadeira, aí eu já tava risonho e de boa, mas mesmo assim eu queria clareza das informações e ser tratado com uma seriedade maior.

Chegou a tropa, todos meio acanhados e sem jeito sentaram em minha volta na varanda. Momo tomou as rédeas e seguiu com o texto. Quis entender melhor o que tinha acontecido, mostrou a importância do trabalho que a gente tava fazendo, falou que todos os outros programas já tinham acabado só o da gente era o que puxava mais forte, que apesar de sozinho eu tinha o roteiro mais cheio entre todos os outros programas. Para mim alguns outros devem ter se acomodado porque desistiram ou porque estão em grupos e as vezes recorrem a outras atividades e se apoiam em fazer uma outra coisa quando não tem solução. Eu tô só e quero cumprir minhas atividades ou ir além durante todo o período em que eu tiver aqui. Então pedi para que ela não me comparasse com os piores, com as falhas ou com os erros. Viemos para trabalhar, não para enrolar.

O mais engraçado é que eu as vezes me vejo neles quando posterguei alguma atividade no trabalho ou esqueci de fazer algo. É como se eu fosse meu próprio chefe agora e tivesse me vendo na terceira pessoa cometendo aqueles erros. Quando se tem um propósito é muito mais fácil manter o foco e talvez a falta de maturidade deles ou a compreensão plena do que eles estão fazendo ali os deixem mais relapsos do que eu em toda essa atividade.

Segui bem firme na reunião, e em meio a algumas falas de Momo ela se mostrou preocupada com a minha desistência. Ela achava que eu já tinha jogado a toalha e até citou outros casos como o de um cara que não gostou da família, outro que não gostou do quarto/casa/bairro. Mas de cara já disse para ela que isso não era eu, que eu não desistiria. Mas foi para aquilo que eles estavam ali, para me fazerem não desistir. Confesso que isso me trouxe mais ânimo, principalmente porque somado a isso ela reabriu o laptop e mostrou o roteiro do dia. Fiquei muito confiante para seguir a semana.

O dia seguinte foi show de bola, muito tranquilo. Conheci uma escola enorme e ainda melhor que a do estado que eu já tinha ido. Era a escola privada cristã, mas a diversidade de alunos era muito mais ampla. Tinham alunos indianos, do Timor Leste, professoras hindus, católicos, protestante e muçulmanos, aquele ambiente parecia muito “open mind” do que o dos colégios muçulmanos (to me contradizendo né?). Pude descorrer pela primeira vez de uma apresentação mais profunda sobre as outras religiões, indagando perguntas como quais eram as diferenças entre católicos e protestantes já que os dois seguem o mesmo livro e acreditam no mesmo deus. E quem era buda para hindus e para os budistas, por que eles eram diferentes? Tive a ajuda de Awal e Rohkma, além de uma professora Hindú. Isso ajudou bastante no debate das diferenças e a maior compreensão e respeito das crianças. Nesse dia eu saí leve, bem demais. Dali fui no Margocity (o shopping mais legal aqui de Depok). Comi na Hut (sds) e fui num café ali do lado, ambiente bem legal, mas o que fez eu me apaixonar ali foi a música. Quem diria que tão longe eu ia encontrar um lugar que só tocasse bossa nova né? Nesse dia eu não me demorei, tinha marcado com os outros de ir num Rooftopo em Jakarta. Ficava com 56º andar de um prédio empresarial que fazia parte de um complexo do maior shopping daqui. Que vista.

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mas no outro depois da aula no colégio do estado de novo, fiquei um tempão, levei o PC para escrever e foi lá que fiz o último post. Na segunda vez eu não ia só, combinei com outros voluntários de nos encontrarmos lá e de lá seguirmos para um restaurante perto que seria a despedida de duas chinesas (não conhecia muito), mas era do programa do povo lá então eu fui só para acompanhar. No tempo em que tava no café escrevendo, Ayush (um indiano), ficou comigo. Eu só tinha o conhecido na global village lá atrás, então foi ótimo porque nos aproximamos mais, depois que todos foram embora ainda fomos no BK matar a lara (quem dera) e conversamos bastante. Vimos os horários dos filmes e marcamos para ver o tão esperado (pelo menos para mim) Black Panther (Pantera Negra) da Marvel. Semana passou a fluir, problemas resolvidos. No outro dia eu daria uma “outside class” mas a chuva tava surreal, então não deu ninguém lá, e antes que eu fosse, Sabrina que já tinha chegado foi informando e não tinha nenhuma criança. Então fiquei em casa com Jordan acertando algumas coisas de uma viagem que faria com ele e alguns voluntários para Bandung no final de semana, ainda precisávamos comprar as passagens de trem.

Sobre a campanha, eu só tinha feito uma postagem. O dinheiro que tínhamos juntado até então era irrisório, até que (surpresa) apareceram 500 mil RPS na conta KITABISA (daqui). Foi Leticia que fez a primeira doação online, que desencadeou outras com os compartilhamentos dela, e os meus (compartilhando as pessoas que estavam doando), a felicidade do nosso grupo estava reestabelecida. Todos muito felizes e gratos, só com aquela doação já tínhamos quase o dobro do que arrecadamos off-line (hehe).

Ainda em casa fiquei por mais umas horinhas e fui para o shopping bem antes do filme. Para o filme estariam 9 presentes, quase todos voluntários. Como cheguei bem antes fui devagar, comprei meus ingressos, almocei, desci pro café, li Sapiens para CA RA LHO (meta de fevereiro) até o povo chegar. Sobre o filme só posso dizer uma coisa, QUE FILME. Parabéns a todos os envolvidos e ao meu dia e semana, como tinha melhorado!!

A sexta era feriado, ano novo chinês. Pela forte presença dos chineses aqui e em outros lugares do sudeste asiático, alguns países param tudo nesse dia como forma de respeito a cultura deles. Mesmo assim, como a minha aula seria na vila e informal, permaneçamos com a agenda. Chegamos cedinho para aula ir só até às 11:30 para os meninos seguirem para a Jumah Pray. Aula na vila é sempre muito legal, cheio de crianças de diferentes idades e muito interessadas já que nada os obrigade estarem ali né? Era uma semana sendo fechada com chave de ouro e ainda não era tudo. Como só ia para Bandung no sábado de manhã, combinei com Paul de ir para Bogor (que foi abordado de última hora), mudando nossos planos para Kota Tua (que tá lá nos primeiros dias de viagem), no centro de Jakarta, uma parte com bastante influência holandesa. Íamos no museu nacional, mas que não lembramos que estava fechado. Só depois de 1 hora e meia de trem e uma andadinha considerável. Deu para mostrar a Paul então o Café Batavia (bem holândes e cheio de gringo), que ele ainda não conhecia. Mas só o ambiente já fala pelo preço, acabou assustando um pouco o rapaz. E o pior de tudo é que eu fico pirangando dinheiro miúdo demais aqui também (tipo 4 reais, 10 reais) que nem to me dando conta que to pirangando porque não converto demais, só adaptei minha cabeça ao que eles acham caro e barato. Me adaptei mais ou menos ao o que eles acham desperdício de se fazer com o dinheiro deles. Então achamos outro café mais barato, conversamos um pouco. Tomamos um café e o engraçado foi que Paul tocou no mesmo assunto que Jordan já tinha me falado. Que Ibu tava interessada em empreender e vender bolo de rolo (ela gostou muito). Só de pensar em fazer um bolo de rolo você já imagina a preguiça né? Mas tentar era o mínimo que eu podia fazer por ela, que tá me acolhendo aqui (marmanjo vei) sem ver cara nem coração. Então levantei minha bunda gorda da cadeira, peguei Paul pelo braço e disse que a gente ia voltar para casa para fazer esse bolo. Pegamos o trem de volta, a moto dele, saí para comprar a goiaba. 20 goiabas, água, açúcar, liquidificador e peneira. A receita de Leticia da Casa dos Frios tinha umas 15 linhas em texto corrido, e só duas palavras dedicadas a parte de “peneirar”. Foi um total de 4 horas fazendo essa cobertura de goiaba, onde 90% do tempo foi dedicado a essas duas palavras sendo uma delas “peneirar”. Peneirar 20 goiabas em uma peneira minúscula deu um trabalho SUR RE AL. Teve até mobilização na casa onde ficou eu, Paul e Ibu assistindo Nadini (novela indiana dublada em Bahasa) e peneirando. P Q P. Mas enfim ficou pronto! Uma delicia! Mas nada de bolo na madrugada, deixa para volta de Bandung, porque já era 1:30 da manhã e eu tinha que tá no terminal de trem às 5 para me encontrar com os outros.

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WATCH MASTER!

WATCH MASTER

Sobre o final de semana passado, a sexta-feira, foi o “último” dia de aula na escola Beji 7 (seven ou Tujuh – em bahasa). Aquela escola que eu pensei que teria menos ligação com as crianças no início da semana passada. A verdade é que essas crianças parecem ser um pouco menos necessitadas, então a atenção para elas é diferente, a forma de olhar e de conversar também é diferente. Talvez esses tenham uma excitação muito grande em me ver simplesmente pelo fato de eu ser diferente, enquanto os outros da escola Master eram de fato carentes de contato. Mas isso não me impediu de construiu um elo também por aqui, arriscaria dizer que até similar com a outra escola. Na Beji de fato tem bem mais alunos, uns 40 por turma, e eu passei por várias turmas. Isso me impediu até de assimilar que aulas eu tinha dado em que turmas. Mas me refiro a criação do elo, porque desta vez tivemos menos ponte (entre eu e as crianças), a ausência de companhia de pessoas do programa na quinta feira, também se repetiu na sexta, deixando apenas eu, Ms. Annie (professora de Inglês) e as crianças, que por aqui já arranham algum inglês.

Diferente da escola informal, a do estado (formal) funciona de segunda a sábado das 6:30 da manhã até meio dia e meio e as vezes até mais tarde. No sábado as aulas são só para atividades física, e o engraçado é que todos os professores (não importa a matéria) também participam. Os alunos são mais desenvolvidos, obviamente, já que tem uma maior assistência, essa “fácil” compreensão deles fez com que minhas aulas fossem mais completas. Dando sequencia a aquele conteúdo que tenho dado nos últimos dias, me deparei até com uma situação interessante… Começando a aula de cores com a boa e velha forca, é uma ótima forma de adquirir a atenção deles. Primeiro divido as crianças em dois grupos misturados de meninos e meninas (que não é muito comum e estimulado pelos professores por aqui) e depois a competição por si só já os envolve na matéria. Seguindo para um ditado onde assimilo na mesma “frase” um objeto e sua cor, e as crianças tem que desenhar e colorir. Todos colocam seus nomes e me entregam no final para correção, e os melhores ganham um chocolate. A situação interessante é que dentre todas as atividades vi uma que todos os objetos condiziam com o do ditado, mas as cores estavam quase todas trocadas. Na hora já deixei o papel de lado para no fim da aula dar uma pesquisada no google. E né que essa criança tem daltonismo? Haha. Fiz aquele testezinho de internet com ele e é isso! Engraçado como foi fácil descobrir, e por acaso.

As aulas do dia foram 10, muito boas mesmo. Mas uma coisa tava me aborrecendo e eu já não sabia mais se era implicância ou de fato correspondia com a verdade. Na quinta-feira ninguém pôde me acompanhar na escola. Isso quer dizer que a professora tem que deixar a aula dela para me fazer cia e traduzir algumas coisas para mim. Tudo bem, Kintan tinha ficado doente de última hora e não pôde comparecer, a professora foi avisada e tudo correu legal.. Na sexta-feira foi um pouco diferente, eles não me deram nenhuma satisfação, simplesmente ninguém foi e nem falou nada com a professora. Ela teve que fazer um arranjado de última hora onde eu daria as aulas dela da sexta (claro que isso me incomodou, não queria atrapalhar o planejamento de aulas dela), mas eu guardei. E assim como na quinta, minha única resposta no grupo que temos do programa a pergunta deles de “como foi a aula” foi: great!. Ainda não conseguia identificar se tava feliz ou puto. O dia passou, escrevi e li bastante para conseguir bater a meta do mês (apesar de muito bom o livro to achando que vai ser difícil kkk), no final do dia no grupo, o pessoal me “lembrou” de um seminário que eu teria de apresentar no dia seguinte. Ninguém sabe explicar como é o formato e mais detalhes dessa atividade. Toda vez a pessoa é tratada com gênio ou um animal de circo (depende da sua interpretação), que eles esquecem de falar com você, e passam uma atividade super difícil uma noite antes de acontecer. Então nosso amigo Awal me mandou um mensagem no privado me falando mais do seminário e algumas perguntas que poderiam me guiar ao decorrer da minha fala. E terminou com um irritante “Keep the espirito”, WHAAAT (kkk esse cara tá de onda! Sério) tudo que eu tinha engolido, não consegui segurar mais, se era implicância ou falta de atenção eu não sei, mas na minha cabeça defini que foi irresponsabilidade deles. A resposta foi imediata. “como você vem me falar de espirito se você nem mandou o material na terça, chegou muito atrasado na quarta e nem deu sinal de vida nos outros dois dias? – Sério eu não precisava tá falando isso para você, mas toda semana são novas desculpas por esquecimento, leve a sério para nós fazermos um bom trabalho juntos”, bem ele acha que tá fazendo o melhor dele, eu já não acho mais. Ele acha que faz parte da atividade eu “me virar só para melhorar como professor”, mas eu não sou professor nem tenho como melhorar se eu não entendo o que as crianças falam né? E disse que estava muito ocupado com as coisas do Carefree Day (domingo) e meu desabafo ainda se estendeu mais um pouco. Mas de novo, “vida que segue”.

Já era tarde da noite e os outros poucos voluntários que fariam apresentações no seminário também não sabiam que conteúdo exatamente explorar. Quem seria o publico e o que eles esperavam de nós. Talvez se o pessoal dos programas dissesse para nós o título do seminário já ajudasse bastante (kkk). Mas é isso aí, cara e coragem! Alguns acharam que era para falar sobre seus países, outros para fazer comparações e assimilações. Eu só sabia que no outro dia as 7h da manhã deveriam tá na estação de trem. Assim acordei no outro dia, meio perdido sem saber exatamente o que falaria para as pessoas (e quem eram ou quantas pessoas seriam), ao invés do trem, optei pela moto. Mas o campus dessa universidade onde aconteceria o seminário era muito mais distante do que haviam me dito (Jakarta), então levou algum tempo, e por sorte cheguei antes de começar. O formato do seminário era intimidador, uma sala com umas 120 pessoas (talvez), uma mesa na frente em cima de um palco, um púlpito para o seminarista falar, tela para apresentação no power point (whaaat), introdução feita por uma poetiza local, reitora da universidade, professora para assuntos internacionais, bastante gente (FU DEU). Eu que tava com uma fala bestinha em mente, assim como foi pro Global Village duas semanas atrás, mandei uma mensagem as pressas para Paul, para ele acessar meu computador e me enviar uma apresentação que eu já tinha feito para outra situação. Ela serviria nem que fosse para introduzir o assunto e o resto eu fui vendo de acordo com o termômetro das outras apresentações. Alguns falaram dos seus países (apenas), outros das suas vidas e outros das suas experiências aqui na Indonésia.

Vou entrar um pouco no assunto, porque algumas pessoas me perguntam como a decisão foi tomada, especialmente Guilherme (um grande amigo meu), me falou que seria interessante dividir o pensamento da tomada de decisão e planejamento (ou falta de planejamento, né Rod?) para vir para Indonésia. Depois de 8 anos de trabalho em diferentes setores mas na maioria voltado para comunicação e pessoas, me deparei com um pensamento em que não sabia ao certo o que queria da vida. Não sabia mais se aqueles 8 anos traçando aquele caminho era de fato o que eu queria. Então pela primeira vez, aconselhado pelo meu Coach, psicoterapeuta (ou que títulos você quiser mais dar), Jacob Goldberg, resolvi parar de pular de galho em galho, e pular de uma oportunidade para outra, para de querer encontrar um objetivo e pensar um pouco. Cuidar da minha cabeça e corpo para depois voltar a realizar. Me inscrevi na academia, fiz curso, e me manteria fazendo essas atividades, todas com o acompanhamento dele, Dr. Jacob. Meu pedido de demissão, me permitiu um gap de tempo onde eu poderia ficar sem trabalhar com um dinheirinho da rescisão. Mas em reflexão (rápida reflexão), vi que não era a melhor opção ficar em SP gastando esse dinheiro e fazendo quase as mesmas coisas que eu fazia antes. Então viajar era preciso, me distanciar um pouco da minha realidade para refletir, conhecer pessoas e adentrar em culturas (como foi aconselhado), resolvi ir ao pé da letra e sair daqui para viver isso. Não em um mochilão que não me permitiria conviver em comunidade e ter mais conhecimento sobre outras sociedades, me afastando da minha realidade e conhecendo outra. Tão longe de casa, em uma cultura tão diferente, não é difícil de você se pegar refletindo a vida. Você não precisa ir no parque ou no interior sentir a natureza e ouvir os pássaros, isso acontece naturalmente numa mesa de café, em cima da moto ou num intervalo de aula. Mesmo durante conversas (principalmente) é natural você se pegar refletindo sobre questões essências nossa e era isso o que eu precisava, refletir o que era essencial para uma pessoa, e isso veio logo depois de um intensivão de 2 anos respirando negócio e como achar dinheiro em SP.

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Então na minha fala eu mostrei que minha passagem por aqui não era sobre me tornar um melhor professor, ou profissional, mas um melhor ser humano. Me compreender melhor um pouco longe dos negócios e mais perto das pessoas. Aqui na indonésia é fácil, já que as pessoas da comunidade são gentis e fazem questão de me ajudar com tudo. A comparação que preferi fazer entre os dois países não foi sobre as nossas riquezas e as coisas boas dos nossos países. Mas sobre nossas deficiências e nossa positividade em levar a vida. Tentei sintetizar minha estadia em 3 etapas: primeiro tentando achar coisas em comum entre os dois países e fazer comparações, não achando essas similaridades e me definindo como minoria e finalmente vendo que similaridades não vem de aparência nem de religião e sim de propósitos. No inicio quando tudo é novo em um país muito diferente, acho que é natural (principalmente para o brasileiro) comparar tudo. “Se fosse no brasil”, “mas no brasil é assim”, “no brasil é pior ou melhor”. Isso é uma maneira de o cérebro meio que se enganar para mostrar que você já tem essa vivência e pode tirar isso de letra. Mas na realidade é muito chocante quando você se dá conta que na realidade você faz parte de uma minúscula minoria. Já estive em alguns países antes onde sempre foi fácil se encontrar. Se não é pela língua, é pelas características físicas, costumes ou até mesmo culinária. Aqui eu não tenho nenhuma dessas características em comum com eles, mas o fato é que tudo isso é ignorado e colocado a parte quando duas pessoas de culturas totalmente diferentes se envolvem em um mesmo proposito ou concordam nem que seja em algum fator da vida. Isso quebra barreiras e aproxima as pessoas.

Seguindo a apresentação, tentei mostrar para eles que tento criar essas ligações entre as pessoas nas crianças. Seja através do inglês, seja tentando não transformar a religião delas em uma parede ou abrindo a mente delas para o novo. Isso aproximaria aqueles pequenos seres ao mundo exterior no futuro (quem sabe). Mas que além de tudo, é muito importante as pessoas conhecerem os países visitados além dos pontos turísticos. Ir além de bali e entrar na cabeça do povo, saber o que acontece. Nem a indonésia nem o brasil são feitos só de belas paisagens, de pessoas gentis e mulheres bonitas.

No final das contas, acho que consegui fazer uma bela apresentação e bem diferente do que já tinha sido falado ali. Porque aproximou mais a audiência dos “seminaristas”, levantando outras questões (culturais) e não turísticas como estavam sendo as perguntas anteriores.

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Manhã de sucesso, aquele seminário foi das 8 até às 14h. Eu pensei que seria um pé no saco, mas no fim das contas foi legal. No fim, o pessoal do programa se juntou porque iriam todos ver a apresentação de dança de uma menina da AIESEC local no teatro da Universitas Indonesia. Eu tava animado porque não tive ainda a oportunidade de ver a dança local né? E talvez finalmente sair com as pessoas dos outros programas, mas assim que disse aos integrantes do meu programa. Eles me pediram para não ir, porque eles tinham planejado uma reunião para “discutirmos” alguns assuntos do dia da caridade (dia seguinte). Eu tinha dado todas as ideias de como seria, como faríamos, TUDO. E Awal se disse muito ocupado ao decorrer da semana tomando conta desses assuntos. Mas na verdade eles não tinham feito NADA. Então dispensei a turma e fui para Universitas Indonesia, não para apresentação de dança, mas para me reunir com eles no dormitório de Awal para produzir o material para o dia seguinte. Minha ideia tinha sido levarmos 3 VR (óculos de realidade virtual), passando um vídeo mostrando a escola com depoimentos de crianças para as ruas neste domingo, segurando um cartaz e uma caixa. Os 3 se comunicariam porque teriam as mesmas cores e a mesma linguagem e ao mesmo tempo serviriam de teaser porque ninguém saberia do que se tratava. Queria que com essa curiosidade as pessoas quisessem ver o vídeo e se sentirem tocadas e pudessem doar. O cartaz dizia “watch Master”, o óculos “play Master” e a caixa “help Master”. A pergunta seria “O que danado é Master”. A ideia foi curtida, mas só curtida mesmo. Meu grupo não me ajudou em nada na produção das coisas, eu até parava as vezes para ver se alguém fazia algo. Mas não. Tudo que eu pedia: cola, papel, tesoura. Era um queijinho, mas se mexer de verdade ninguém se mexia. Então aquilo ali durou até a noite. No final era um trabalho simples e mas com conteúdo e estratégia.

 

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No domingo tivemos que acordar as 5 horas da manhã, o combinado era as 6 no terminal de trem. Existe um “domingo na paulista” aqui também. Uma avenida principal fica interditada para as pessoas se exercitarem, tem apresentações e etc. Chegamos lá na hora certa e junto de algumas pessoas de outros programas, cada programa pediria dinheiro para suas causas. A nossa inicialmente era para resolver o problema racial das crianças de alguma forma, mas como achei muito subjetivo, sugeri melhorarmos de alguma forma o ambiente da escola Master. Saímos pelas ruas, 2 deles segurando um grande banner (falando do programa), 3 segurando os óculos, eu a placa e uma a caixa. Me confirma aquela sensação de que eles naõ querem incomodar nunca, então eles não pedem, nem correm muito atrás. Então tive que fazer esse papel, e com um Bahasa safado, metia um “Paggi, Mau nonton vídeo? Satu manut” dando bom dia, perguntando se as pessoas tinham interesse de ver um vídeo e que durava só 1 minuto. Acho que 98% das pessoas que tiveram interesse de assistir, fizeram alguma doação. Foi muuuuuita correria das 7 e pouca da manhã até meio de e pouco. No final dessa manhã, nos reunimos em um restaurante no Grand Indonesia Mall (ali do lado), maior shopping daqui para concluir e dia e contar o dinheiro e só assim resolver o que fazer com ele. Juntamos um total de 350 mil rupias, mais ou menos 35 doláres. É verdade que não é muito, mas por aqui nunca conseguiram juntar isso antes nesse dia da caridade. Entre todos os programas fomos o teve mais sucesso, além de muitos elogios da direção da AIESEC local. Mas na verdade é o que podemos fazer com esse dinheirinho nessa escola de uns 70 alunos né? Fiquei num disputa grande com Momo porque ela queria algumas fardas (2 ou 3) achei péssima ideia, queria alguma coisa que melhorasse o ambiente em que eles estudavam, e acho que com esse dinheiro era possível comprar uns 3 lixeiros para as portas das salas. Dessa forma era possível educar as crianças a respeitar aquele ambiente, não comer na sala e deixando aquele lugar mais propício e menos sujo para estudar. A ideia foi aprovada pela maioria, mais foi sucedida por outras como: pintar algumas salas entre outras. Ficamos aberto para sugestões e doações até o dia 21, quando pretendemos implantar na escola Master todas as ações discutidas.

Se você quiser ajudar, disponibilizamos esse link para doações:

kitabisa.com/masterdonationBR2018 e clica em DONASI SEKARANG.v

Tive sucesso com um cartão internacional, mas você encontrar qualquer dificuldade, fala comigo que tento um novo caminho!

Obrigado!!

Fora da caixa

As aulas essa semana começaram na terça, acordei disposto e ansioso para conhecer essa escola. Eu sabia que minha presença ali talvez não trouxesse tanta excitação quanto foi para a escola informal que me proporcionou um contato direto com pessoas realmente desprivilegiadas. Ao chegar, fui recebido por Chantika e Sabrina, também do programa, elas me acompanhariam nas aulas do dia para a tradução dos temas mais específicos e estabelecer uma melhor conexão entre eu e os alunos. Na bolsa, eu levei meus dois pilotos, Awal tinha todo o resto do material. Logo pela manhãzinha ele me mandou uma mensagem confirmando que não poderia ir a essa aula, por isso estava tentando arrumar um Go Jack (moto) para enviar o material (msg asm7:50am), Fiqih também não pôde ir, então eu tava com duas pessoas que não tinham me acompanhado em muitas aulas, e quando acompanharam foi para fazer registro. Já eram umas 9:50 e faltavam 10 minutos para a primeira aula começar, quando as meninas me disseram que Awal não tava conseguindo o motoqueiro (ele tava “tentando” desde às 7:50), isso me deixou realmente chateado. Entre o material, estavam o mapa, papéis e giz de cera, ou seja, tudo o que eu tinha montado e planejado para dar aula. Essa não é a primeira vez que sou pego de surpresa né? Como outras vezes dei aulas bem mais longas do que pensei em dar ou 2 vezes na mesma turma dois dias seguintes. Era hora de tirar o coelhinho da cartola! Conheci então Ms. Anie, a professora de inglês da escola (é, lá eles tinham até professora de inglês) e ela me perguntou se eu precisava de algum material, então pedi um Dunia (globo, mundo) e eles tinham (surpresa). Depois de pegar o globo, ainda consegui dar uma voltinha pela escola, a estrutura era um pouco parecida com aquela de Paul e de Fiqih que eu já descrevi antes. Para minha surpresa as crianças tavam bem animadas e curiosas, me perseguindo e me olhando escondidas pelos corredores. Ali todo mundo usa farda, usam sapatos, roupas limpas e estão limpos (higienizados), um pouco diferente da outra escola. Essa estrutura oferece bebedouros, sala de música, jardim, quadra. Os professores têm sala, o diretor tem outra, posso reafirmar que as escolas públicas daqui dão uma pisa nas do Brasil (na maioria), não me refiro as escolas de referência para gravar guia eleitoral. Não falta nada! Ia começar uma maratona de aula, eram 3 aulas de 40 minutos seguindo uma da outra. A aula tem uma introdução, mas passa pelos continentes, cores, formatos e números. Consegui tocar tudo isso exatamente no tempo certo. Encaixou! No final da aula Ms. Anie nos chamou para a sala do diretor, para nos conhecermos. Pessoa muito tranquila, muito gente boa e muito agradecido pela minha presença na escola dele. Pediu só um feedback dos alunos. O que falar daqueles alunos depois de passar pela escola informal né? Eram lordes ingleses, que no final das aulas agradeciam em conjunto e se empenhavam nas respostas, tudo isso com um inglês básico que estabeleceu uma conexão sem muita tradução.

Chegando em casa lembrei da promessa de fevereiro (ler Sapiens) e me deparei com o calendário já no dia 6. Como o mês só tem 28 dias, eu já perdi 6, ainda vou perder 27 e 28 (quando vou encontrar Cláudia nas Filipinas) e o livro tem 428 páginas, fiz um cálculo rápido e cheguei no seguinte resultado: to fudido. Então fui correr com a leitura, e escrevi um pouco. Já a noite Awal me manda uma mensagem se desculpando, igualmente aos outros membros que não puderam comparecer (era o primeiro dia), para a mensagem de Awal no privado eu preferi nem dar resposta. Dizer que ele era “enrolão” e meter um “bullshit” tava entalado na ponta dos meus dedos, então preferi responder com o silêncio. Simplesmente o cara poderia ter cagado todo o dia de aula, toda vez ele conta com a minha vasta experiência em ser professor (nunca fui professor antes), para tirar aulas do bolso. Abri a conversa no app LINE (whatsapp daqui) e fechei. Depois de umas meia hora ele veio pelo whatsapp e pediu para eu ver a mensagem no LINE, só respondi assim: Já li. Então ele, muito confortável, veio me falar sobre uma apresentação de uma hora que eu faria numa outra Universidade sobre o brasil e indonésia no final de semana. Ele nem ao menos sabia do que se tratava a apresentação, se eu precisava apresentar dados econômicos, cultura, diferenças e etc. Só disse que eu dividira tempo com um outro voluntário, mas que também não sabia quem seria. Esse cara joga duro para me tirar de sério. Mas pelo menos ele enviou a noite o material para minha casa.

No outro dia a aula começaria as 8:20 (nessa escola eles rezavam mais cedo), e daí partiríamos para guerra de novo. Eu sabia que usaria a mesma aula porque seriam turmas novas, então fui pronto e preparado! No nosso grupo do LINE eu perguntei quem me acompanharia, é importante para mim uma pessoa para traduzir não só para que minha mensagem seja entregue sem restrição, mas também para entender o que eles estão falando para que eu possa ajudar, explicar ou melhorar na aula. Kitan ficou doente e Awal me acompanharia. 8:20 eu já estava na escola me apresentando a Ms. Anie, que rapidamente me perguntou onde estavam meus amigos para ajudar, eu embaraçosamente, disse que começaria sem eles e perguntei se ela podia me ajudar. Awal chegou 40 minutos atrasado de carona com um amigo que nos acompanhou no resto das aulas. Ao entrar na sala, ele olhou para mim, mas não consegui nem o cumprimentar, o diálogo era curto e eu só falei com ele quando realmente precisava, já que Ms. Anie seguiu para as aulas dela. As crianças realmente eram diferenciadas, então graças a deus elas desenrolaram muito bem, e algumas dela aprenderam um inglês bem legal com joguinhos de celular (clash e etc). Cada turma que eu entrava já ia mais ou menos com o texto pronto, com as mesmas brincadeiras e só mudava alguns pequenos detalhes diante da compreensão dos alunos ao decorrer da aula. No final, todas sempre agradecem, se organizam em fila e vem me cumprimentar (testa, bochecha ou boca na minha mão), todas pedem me “autografo” e querem saber meu instagram. Isso quando não me pedem o número do celular (kkk). No recreio das crianças ficamos na sala do diretor na companhia de Ms. Anie, muito atenciosa e bacana, depois nos trouxe donuts, água e balas para nós. Peguei uma água e um Donuts e Awal encheu o bolso de bala, envergonhando até o amigo dele. Eu tava P* da vida já com esse cara, então saí da sala para tirar umas fotos da escola, mesmo sem o mínimo saco. Na volta da aula, passei uma atividade que me deixou um pouco mais tranquilo, sem precisar de muita interação. E nessa hora coincidentemente a “diretora” do programa, Momo, me perguntou como andava a aula. Não me contive e respondi que estava ótima, mas que Awal chegou com 40 minutos de atraso, o que atrapalhou a professora de inglês, e que eu não podia mais depender dele para minhas atividades ou para simplesmente me mandar avisos, não dava. Assim como a grande maioria do povo aqui, ela puxou a responsabilidade para ela e assim colocar panos quentes na situação. Aqui ninguém faz grandes mudanças ou questiona muito, então se resolve só empurrando com a barriga mesmo até onde der. Mas ok, acabei a aula e segui para casa. Aquela lição de “cada um tá fazendo o que pode, o seu melhor” tava perdendo o sentido para mim, eu não achava que ele tava dando o máximo dele, principalmente porque os últimos dois eventos (falta de material e atraso) foi simplesmente relaxamento, e não algo que deu errado. Eu to tendo uma paciência de Buda mesmo, deve ter sido as influencias do final de semana passado. Em casa eu li, li, assisti TV e nem tive tempo de escrever, a semana tava corrida e ainda fui na lavandeira e supermercado para comprar umas coisas. Na volta do mercado, encontrei Ibu lendo o Sapiens que dei a Paul (e Jordan já que os dois estão lendo), aquilo me deixou um pouco preocupado porque não sei como ela reagiria, mas no final de contas não esboçou nem uma forma de raiva nem conversou comigo sobre o assunto demonstrando preocupação. Isso é bom.

O livro fala sobre a evolução da sociedade atual, como nós chegamos a isso que somos hoje. Uma história fundamentada em diversos eventos e provas do passado para explicar a nossa personalidade e forma de pensar. Como ainda tô na Revolução Agrícola, não posso falar tanto sobre o livro, mas até agora tô achando muuuito legal e completo, principalmente porque gosto de história. Só sinto sono as vezes que leio porque o livro não me proporciona o jogo de som e imagens que um filme ou série proporciona (eita que cara aculturado).

Para o terceiro dia de aula, não pude contar nem com a mala sem alça do Awal, todos os membros pediram desculpa e me perguntaram se tinha problema de eu ir dar a aula só. Cheguei na hora certa e Ms. Anie me chamou, graças a deus, eu estaria dando a aula nas salas dela, com a cia dela para me traduzir. O único problema é que seriam aulas um pouco mais longas, o que já não é mais problema para o mágico aqui, desenrolamos. Foram 3 aulas de 1 hora superprodutivas, ela me jurou que eles adoraram e ela achou muito dinâmica (ótimo).

Cheguei em casa por volta da hora do almoço e, de novo, só encontro Jordan. Perguntei se ele queria fazer algo e ele prontamente se dispôs. Não demorou muito e ele já tava tomado banho e vestido me esperando para sairmos. Pegamos o carro e fomos em direção a Jakarta, ele me disse que sempre prefere sair por lá, pelos lugares e por ter mais amigos na cidade. Mas o negócio dele mesmo é coffeeshop, esse macho ta em coffeeshop todo dia. Não podia ser diferente e ele me levou em um que ele adorava, o Dua. Cheio de gente descoladinha no meio da tarde, reuniões e lazer (aparentemente), ambiente legal. Show de bola! Batemos papo para cacete, ele pergunta muito sobre o Brasil, gosta de ver vídeo de festas daí, ver as roupas, ar nega se agarrando com os rapaze, auhhmm Pabblo Vitar e Anitta, entre outros cantores daqui claro! É tudo muuuito diferente para ele. Eu to marcando uma viagem a Bandung, uma cidade há umas 3 horas daqui, e ele já se escalou. Eu não sei se é pela diversão ou porque a ex dele mora lá (ainda to descobrindo), para mim vai ser um prazer! Bandung tá cheio de brasileiros, e coincidentemente outros voluntários daqui vão tá lá nessa mesma época, então inserir ele em um contexto diferente da realidade dele, pode dar um gászinho ainda mais na cabeça do mo minino. Conversa vai, conversa vem, ele me disse que um amigo dele tava chegando para se juntar a nós (Boa! curto mto conhecer gente nova!). O cara não demorou 30 minutos e já tava lá, aparentemente o cara todo descoladão pra frente, não muito usual em Depok, mas ele era de Jakarta. Entre uma conversa e outra, ele me disse que era muçulmano. Mas pera aê, esse muçulmano aí tá diferente. Ele é um muçulmano javanês, aparentemente existem várias linhas de pensamento como existe no cristianismo. O muçulmano javanês, apesar de acreditar em alá e etc, mantem muitas tradições do povo antigo dali. As oferendas são para plantas, animais e natureza em geral, era mais sobre fazer o bem do que seguir regras.

Começando por esse papo, fomos um pouco mais a fundo. Como não tenho tanta liberdade ou pro atividade pela outra parte de conversar muito sobre questões religiosas e política, encontrar um cara desse é como se fosse uma mina de ouro. Aqui, como eu já falei, existe uma questão entre os indonésios e os chineses, os chineses são melhores trabalhadores (?), são mais ricos (?), ocupam os cargos mais altos da empresa (?), e isso causa um desconforto entre os dois povos. É muito difícil de ter a compreensão dos locais que os chineses não são seus inimigos, afinal por que seriam? Se é acordado que de fato eles são melhores profissionais, vamos expulsá-los do país ou absolver tudo o que podemos dele? Modo de pensar, de agir, aprender tudo que temos que aprender com os melhores. O país cometeu um equivoco claro colocando na cadeia o ex-governador de Jakarta, a simbologia que isso representa é muito grande para qualquer empresário ou cidadão comum que tenha um pensamento um pouco liberal e até capitalista que queira se candidatar a algum cargo. Aqui a diversidade cultural, a progressão econômica, o bem-estar da população e a erradicação da pobreza tem muito menos importância que as tradições e a religião (e a corrupção). Se você quer ser um politico e impactar a vida dos indonésios, tenha cuidado, olhe onde você pode parar.

Para manter a cultura, as tradições e a religião, o governo (democrático, aham) toma várias medidas que causam uma ilusão de liberdade nas pessoas. Logo no terceiro e quarto presidente pós ditadura, instalou-se um grande esquema de corrupção no país, o presidente manda e seus filhos em cargos públicos administravam o lobby com os empresários (mal lobby). A permanência no poder é muito fácil quando você alinha a politica com a religião usufruindo do nome de um deus que retém a devoção de 90% da população. As pessoas pensam que estão informadas, assistem o que quiser e conseguem pensar pra frente, serem modernas. Na verdade, a grande maioria não conhece John Travolta, via Sindy (de bob esponja) com censura ao usar biquíni. As músicas, os filmes e as séries não contém violência, não falam sobre corrupção, não contém sexualidade e nem se quer um beijo na boca. Netflix é para poucos, Blackmirror é para poucos. Alguém consegue imaginar qual o papel de todo esse conteúdo na nossa vida? Para nos fazer pensar fora da caixa (para pequena caixa daqui, já fazia grande diferença), refletir sobre qualquer assunto? Como podemos reclamar de alguma coisa que não sabemos que existe, como podemos sentir falta de algo que não sabemos que existe? É surreal! Mas o papo deu uma amansada e voltou um pouco mais para eventos (kkkk), esse amigo de Jordan seria sócio dele nas festas. Depois disso não demoramos muito no Coffee Shop e fomos encontrar com outro amigo dele em outro coffee shop (kkk), mas ali era pra ser só uma passagem para seguirmos para um bar. Nessa passagem deixamos o amigo de Paul, ele só encontraria a gente depois. O motivo, o muçulmano pra frentex foi paquerar uma menina lá (kkkk). No carro Jordan foi me explicando que esse papo de pegar nem se tocar ou só pegar na mão, casar para transar e etc era furada. As moças mantinham as aparências porque a sociedade julga muito, mas geralmente, meninas e meninos tiram a virgindade mais ou menos aos 17 anos. Isso é um grande segredo entre todos eles, nem comentam muito entre eles nem expõe as relações para ninguém. É verdade apenas que os mais radicais se mantém assim, mas é tão exceção (segundo ele) que ele conta nos dedos os amigos que percorreram o caminho mais sério do islamismo.

Chegamos no bar, pedimos a cerveja da estrela vermelha que eles tanto me falaram. Não é Heineken, é Bitang. Apesar da Heineken ter um preço bom aqui, porque tem produção local. A Bitang é a cerveja mais importante da Indonésia. É gostosa, mas bem suave. O amigo de Paul voltou e ficamos ali por umas 2 horas quase. Tomei 3 cervejas enquanto eles tomaram 1, e infelizmente, fumei um cigarro. Ainda me enganando porque não tinha quebrado a promessa de janeiro (fuoda). Dia legal, produtivo. Zero leitura, muito conhecimento. Voltamos ouvindo vários cantores brasileiros e indonésios. Entre eles o Roberto Carlos (mais para Belchior) e a Ivete Sangalo daqui. É isso aí, fui!

Vida que segue

 

Um dia muito calmo e legal em Jakarta, infelizmente não tive tanto a presença da amiga Leticia que estava de cama. Passei o dia lendo e escrevendo e a noite tinha marcado com um amigo de infância para encontra-lo em um bar em Jakarta. Tomás morava na mesma “vila” em que alguns primos meu de Recife, quando era criança ia muito lá mas depois nos distanciamos com o tempo. Assim que cheguei em Jakarta, o face me mostrou os “amigos” e “amigos de amigos” que moravam lá e foi assim que eu entrei em contato com ele pela primeira vez.

Um mês depois da minha chegada por aqui, Tomás, que na verdade não morava em Jakarta, estava vindo de Papua e passaria a noite por aqui, então marcamos uma cerveja para bater um papo sobre o país e como andam as coisas. O cara é piloto comercial de uma linha aérea local que faz transporte de tudo (alimento, pessoas e até bichos) em avião pequeno dentro da Papua, mas antes disso passou por outras ilhas da Indonésia, já tá há um ano e meio aqui. Fomos em um rooftop perto do centro. Aesar da distância e não nos falarmos por muito tempo, pareceu que tínhamos muita coisa para contar, então o papo fluiu. Principalmente sobre as experiências dele ao decorrer de todo esse tempo pilotando em um extremo com pistas em condições precárias com controladores que só falavam em Bahasa Indonésia, condições só comparadas a pilotar na Sibéria ou nos árticos, por exemplo. Além disso muita reflexão sobre as coisas que deixamos de lado para evoluir um pouco, o que vale a pena manter e o que não vale. Que “sacrifícios” devemos fazer para evoluirmos como pessoa, seja profissionalmente ou pessoalmente. No final das contas não são sacrifícios, afinal as desafio e circunstâncias que uma sociedade diferente nos impõe soam são rapidamente compensados todos os dias ao serem cumprido. A importância de manter a sinceridade na cabeça e saber para que veio, ajuda em qualquer missão. No final das contas trata-se de uma evolução pessoal, por mais que seja voluntariado ou pilotando para pessoas humildes em lugares precários no “fim do mundo”. Um sorriso de uma criança, uma bela vista de cima de lugares praticamente intocáveis, entregar arroz numa comunidade isolada, uma conversa que mude o futuro de alguém aqui, tudo isso é muito gratificante, mas sabemos que no fim da conta queremos nos encontrar, evoluir e até ter mais horas de voo para alçar novos desafios.

No face hoje li um texto legal que um amigo compartilhou de um outro intercambista por aí pelo mundo. É verdade que pode parecer muito impactante, mas é possível extrair várias ideias que correspondem ao sentimento de quase todos em que estão desfrutando dessa viagem assim como eu, então resolvi colar aqui:

“Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.
Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria:

Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.”
Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.
Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.
Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.
É preciso ir embora.
Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.
É preciso ir embora.
Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…”com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música”ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.
Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.
As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.
_____________
Por: Antônia no Divã

 

 

Tem muito a ver com sinceridade, com desprendimento, maturidade, aceitação e a impermanência que já conversamos aqui. Se esse realmente for o caminho certo, essa forma de pensamento nos aproxima da estrada. Eu não gosto muito de radicalizar tanto nas palavras e principalmente quando são sobre sentimento, qual nunca tive tanto tato ou jeito de expor, certamente esse rapaz do depoimento se desfez de algumas amizades que o fizeram ter a frieza e ao mesmo tempo a consciência de escolher as palavras dessa forma. Mas no final de contas é o bom e velho “vida que segue” que está sempre presente nas nossas vidas.

Voltando a noite, saímos de lá para o Beergarden que eu já tinha ido com Gunnar, Leticia e o outro brasileiro lá atrás porque fechava um pouco mais tarde (às 2) e ainda arriscamos uma “balada” que não nos permitiram a entrada porque estávamos de bermuda de havaianas (hehe) então cada um tomou seu rumo para casa. No outro dia acordei umas 10h na casa do casal nota mil, tomei banho e não demorei muito para partir. Era segunda, Leticia tava melhor e tinha ido trabalhar, Gunnar ficou em casa porque adoeceu e no outro dia eu voltava as aulas. Perguntei a Sukini (secretária da casa) qual era o terminal mais próximo dali, e fiquei de cara depois de 20 minutos de moto chegar num terminal que já me era familiar (Pasar Minggu Station), então “easy game”, consegui carregar meu cartão de transporte e acertar no metrô em direção a Depok, de lá peguei outra moto e em 1 hora já tava em casa (me achando o desenrolado fazendo isso pela primeira vez sozinho).

Cheguei em casa, todos tavam no trabalho, faculdade ou colégio. A não ser por Jordan que não conseguiu renovar o contrato com a empresa e tava em casa de bobeira. Cheguei um pouco cansado (sei nem de que) e falei pra ele que ia dar uma deitada, mas que precisava ir no shopping mais tarde, se ele quisesse me acompanhar seria bem-vindo. Então saímos de casa depois de uma hora e seguimos. Lá no shopping troquei dinheiro (jaja to liso), coloquei mais credito no celular (liso de verdade) e fomos no BK para pegar uma promo maravilhosa que tava rolando. Para minha infelicidade, acabei descobrindo que o “Muslin Friendly”, na verdade era uma obrigação na cidade de Depok, e que por aqui não existe bacon (kkk pqp), no beer, no bacon (querem me fuder). No BK encontrei outros voluntários e pessoas da AIESEC, sentamos muito e batemos papo. Manoel (o mexicano) me parecia meio incomodado, tava curto e grosso com a turma lá, então perguntei pra ele se ele tava tendo problemas. E a respota foi clara: sim. E os mesmos que eu. O que se confirma aquela teoria de Cecilia (que eu falei em um dos primeiros posts) sobre a boa vontade mas falta de habilidade das pessoas da AIESEC em administrar os programas. Não é só Awal, ele também tava sem saber qual seria o Schedule dele do dia seguinte (whaaaat), e isso tava irritando muito ele (óbvio), principalmente pq não era a primeira vez.

Passamos ali ainda uns 40 minutos, mas seguimos porque eu ainda ia tentar passar na lavandeira para pegar as roupas que eu deixei antes de ir para Jogja. No carro mesmo vi no papel da lavandeira que já estava fechada, então Jordan me perguntou se eu não queria ir num Coffee Shop, assim como no brasil, Coffee Shop e barbearia é febre. Até a arquitetura “industrial” tá na moda (é mundial eu acho). Mas o café que ele queria me levar tava fechado e terminamos na Starbucks mesmo. Pedimos o café e em 3 minutos já tava na mão, sem lugar para sentar (tudo cheio) sentamos do lado de fora na calçada que aí ele podia fumar. Esse cafezinho aí durou mais ou menos uma hora. A conversa passou de conselhos amorosos, até viagem e carreira profissional.

Jordan, como eu já disse aqui, não é um cara religioso, mas independente disso é um cara muito legal e como a maioria do povo que eu conheci (por enquanto), bastante inocente. Pulando o assunto da vida amorosa dele, vamos a profissional e viagem. Ele me pediu dicas do que ele devia fazer (eu, logo eu, perdidinho no espaço) mas dar conselhos aqui para pessoas dispostas a enfrentar o novo como ele, é fácil (Jajá eu viro coaching de vida aqui, espero tá dando os conselhos certos). Muito do que eu falei para ele foi parecido com o que disse a Fiqih, mas para ele é muito mais fácil porque ele não tem a “amarra” religiosa para o impedir de crescer, evoluir, conversar sobre qualquer assunto e seguir. Filmes estrangeiros, livros estrangeiros, tudo que o mundo possa proporcionar a ele fora dos sites da Indonésia, das noticias daqui. Ver franquias e modelos de negócios de outros países (ele tem vontade de empreender), e até fazer eventos em um dos nossos mais diversos formatos no brasil (como openbar que não existe aqui), o olho dele brilhava. E ele até me disse que Ayah está se aposentando em julho, e pela primeira vez eles vão todos ter a oportunidade de ir a outro país. A empresa proporciona uma viagem a Israel para os funcionários que vão se aposentar. Se empolgou muito com a questão do evento também e até me ofereci para ajudar se ele quiser fazer algum até o final do mês para os voluntários. Papo vai, papo vem já era hora de voltar para casa, afinal no outro dia era o primeiro dia de aula na nova escola!! A Beji 7, uma escola do estado (formal) e aparentemente totalmente diferente do que eu vi na outra. Beijos e é “vida que segue”.

Yogyakarta – Voos mais altos

O terceiro dia de Jogja foi o único que nos demos a liberdade de acordar mais tarde. Não tinham programação longe, e os outros pontos turísticos ficavam todos perto um dos outros. Nesse dia iríamos para 2 dos lugares que aquele motorista enrolão lá não nos levou e ainda uma rua que era uma grande feira. Todo eu tava enrolando umas meia hora, 40 min na cama por conta do banho. Esse dia acho que foi mais de uma hora. Lembra que eu tinha reclamado do “Ice Bucket Chalange”? Pronto. Saudade! O banho nesse hotel tava sendo de chuveirinho de bunda. A privada dividia o espaço com o box, então facilitava um pouco para se molhar. Ainda no banho tinha uma torneira perto do chão, pedi até um balde na recepção (tava fazendo falta), mas nada. Dali saímos quase na hora combinada com os Australianos, com um gapzinho de tempo suficiente para ir no Taman Sari (Water Castle). O Taman Sari foi construído em 1755 para ser o palácio do primeiro Sultão de Jogja, tem esse apelido por ter um grande lago artificial no centro. Não deu para entender direito como ele é formado, tem várias estruturas “espalhadas” que compõem o palácio, dentro dele várias comunidades, isso dificultava entender como era a sua formação. Essa primeira parte do palácio não me chamou muito atenção, ainda mais com a correria que foi porque ia cair uma chuva danada. Em direção a outra parte daquela estrutura, encontramos um café e resolvemos esperar a chuva passar. O café pequeninho mas bem organizado, tratava-se de um coffee shop de Luwak Coffee. Para quem não sabe, o Luwak Kopi (ou Café Luwak), é um café extraído das fezes do civeta. Civeta é um mamífero mais ou menos do tamanho de um gato que tem hábitos noturno. O pessoal que trabalhava ali no Café era muito simpático, me ofereceu até degustação de café depois que resolvi pagar por uma quantidade pequena (75g) para presentear Ibu que adora café. Todo o processo para produção daquele café foi explicado por uma mulher muito gente boa que tava lá, ela disse que o café dela era antigo e ficava na Rua Malioboro (conhecida lá), mas que o a crescente dos impostos, resolveu se mudar para aquele outro lugar. Ela garantiu que o café dela é fornecido por uma comunidade que mora perto de uma floreta e colhe o cocô do da civeta de forma natural, e não sob confinamento como tem acontecido bastante hoje em dia. Funciona assim: A civeta vem num cafezal, faz uma seleção natural dos melhores grãos pelo olfato, engole esses grão, junto com outros alimentos que eles costumam consumir (bem temperados, tipo canela e etc), e defecam por aí. Depois disso o pessoal dessa comunidade, que já faz isso há anos, sabe onde geralmente as civetas fazem o coco e colhem para secar. Os grãos de café verde ficam praticamente intactos, mesmo assim é necessário tirar todo o excesso e secar apenas os grãos para depois tostar. Depois é só moer e tomar. Realmente, eu que não sou degustador de café, sou tomador de café safado mesmo, daquele que tomam os cafés barato de empresa (uns 5 por dia), estando ruim ou bom, mas aquele ali era diferenciado, era mais encorpado e mais forte. Mais gostoso também! Ali eu tomei a primeira xícara, mas a chuva não parava, e como a gente ficou até estiar, eles me deram mais outra e conversamos bastante. Uma hora o cara que parecia ser o dono foi para cozinha e fritou umas fatias de fruta pão com alho sal e pimenta, ficou muito bom! Nunca tinha comido fruta pão. Tentei brincar um pouco com o Civeta de estimação que eles tinham, mas ele deu uma mordidinha de brincadeira que tirou minha confiança. E no final ela me deu um caderno para escrever alguma lembrança, no caderno já tinham coisas escritas de pessoas de vários países diferentes. Então a chuva já valeu! Aproximou pessoas massa e proporcionou uma experiência nova, uma coisa que eu queria provar.

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Pouco antes da chuva parar, os australianos já tinham desistido de paintball e de passear, a chuva tava foda mesmo. Então eles seguiram de volta para o hotel e eu e Fiqih seguimos na nossa caminhada. Passamos por algumas ruínas que faziam parte do palácio e procuramos muito umas escadas que eu tinha visto em foto. Para procurar essas escadas foi um nó cego dentro de uma comunidade lá. Eu pedia a Fiqih para ele perguntar como chegava, e ele não ficava a vontade para isso. O povo aqui tem essa “limitação” de não querer “incomodar” a um ponto de terminar se prejudicando. Uma mulher numa loja tinha oferecido para nos guiar (pagando claro) para lá, e eu tinha negado, mas como cruzamos com ela levando umas turistas num beco por aí, ele rapidamente chamou minha atenção para ficarmos parados e não “seguirmos” ela, para ela não achar que a gente tava se aproveitando. Pelamordideus né? Kkkkk só eu mesmo. Segui mesmo, e fiz ele ir comigo para deixar de queijo. Chegamos lá e realmente, apesar de malconservado era um lugar massa. Mas como tinha bastante turista, atrapalhava um pouco. Eu sabia que aquele não era o dia de ver coisa muito bonita, que inclusive minha cota de surpresas (com o Prambanan e Borobudur) já estava passada.

Então seguimos para o Palácio do Rei, e mais uma vez tivemos a infelicidade de encontra-lo fechado a visita do público. Seguimos para o próximo ponto do nosso roteiro que era a Malioboro Street, uma rua bem famosa talvez pelo comércio informal. Um monte de barraca na rua de comida, roupa e qualquer outra coisa que você imaginar. Eu tava sem muito interesse por essa parte, mas Fiqih comprou coisa para Deus e o mundo. Inclusive me perguntou se no Brasil não existia a tradição de comprar presentes para a família e pessoas próximas em uma viagem. Expliquei para ele que até era, mas que o formato de viagem que eu tava fazendo, com um budget muito baixo não permitia sair comprando coisa, ainda mais porque eu vou ter que carregar tudo na mala até o dia 22 de março. Então daria só amor quando eu voltar mesmo (kkkkk) ele riu para cacete, mas achou uma boa ideia. Para não dizer que eu saí de mãos abanando daquela rua, comprei meu primeiro camisa de Batik, custou apenas 50 mil rps, mas chorei para caceta no preço, to chorando por tudo aqui não sei porque. Depois que eu converto chega da uma vergonha kkkkk.

Ali já tinha dado a hora, passado inclusive. Precisavamos voltar para o hotel para pegar a mala e partir para o aero. Fiqih queria chegar com umas 3 horas de antecedência (falta de experiência traz essa insegurança), mas conseguir convencê-lo e chegamos com 50 minutos (kkkk). Faltando 20 minutos para o vôo deu a hora da reza dele e ele foi tentar fazer numa sala de reza no aero, foi uma correria para ele entrar no avião, mas deu tudo certo. O vôo em si é muito rápido, mas fomos conversando sobre uma viagem que ele vai fazer em Julho. Naquele dia antes de entrar no avião, o pai dele tinha mandando uma mensagem dizendo que conseguiu as pesagens para ele, e que em julho ele tá indo fazer um curso de 1 mês no Japão. Eu já sabia dessa intenção dele, mas não sabia que era para já. E muito ansioso, no avião ele me perguntava para quais países eu já tinha ido, disse que era a primeira vez que ia viajar para tão longe e pediu conselhos sobre como ele deveria se comportar para tirar o melhor proveito dessa viagem. Bem, uma frase que tá ficando meio usual no meu vocabulário quando eles me pedem um conselho é “Open your mind”, não deixe a religião, os seus costumes e as imposições políticas que o seu país impeçam você de crescer, de conhecer e se aprofundar. Procure filmes estrangeiros, leia livros sobre assuntos “nebulosos” para sua cultura e tire todas as suas dúvidas. Simplesmente vá! Não deixe que sua religião ou o que seus pais te disseram um dia, impeça você de conhecer algumas pessoas (australianos) num bar a noite, que seja. Ir para tão longe para estudar numa sala de aula não era o propósito daquela viagem dele, isso ele faria aqui. Lá a viagem é para ter uma troca, viver como eles assim como eu tava fazendo aqui. Se deixasse levar para entender como funciona, mas conhecer e se aproximar do maior número de pessoas possíveis, de repente assim surgiria uma oportunidade. Quem sabe ele não se apaixonasse por lá ou mesmo pelo país e obtivesse na vida uma meta de ir morar lá, juntar dinheiro e encontrar uma boa profissão para seguir a vida longe das limitações daqui? E assim talvez pudesse ajudar ainda mais a comunidade e os pais dele. Quem sabe? Para saber ele tinha que voar mais alto, sair da gaiola e parar de baixar a cabeça tanto. Entender o mundo e aprender como viver. Deu para ver que ele captou a mensagem e que taria disposto a isso, eu realmente espero muito. Fiqih é um menino muito puro e inocente e também limitado ao que os pais e a religião lhe permitem, mas essa faculdade de Japonês me dá um ânimo. Dá uma vontade de investir essa energia nele para que ele saia, que ele viagem e aprenda. Acho sinceramente que não estou desperdiçando tempo, ainda espero ver ele indo além dos outros.

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Chegamos no aero de Jakarta e tínhamos que seguir. Fiqih ia voltar para casa e eu combinei com Leticia para ficar na casa do casal nota mil por uma noite. Então eles pediram para Dani the Driver me pegar no Aero. Foi muito legal vê-lo, deu para ver que ele sentiu o mesmo, foi uma viagem de 1 hora onde ele ria bastante e me perguntava coisas de Depok “be careful, Depok Dangerous dangerous” (kkkkk), ele é cheio das ideias erradas, tava tentando explicar a ele como Depok era mais calmo e mais tranquilo que Jakarta. Mas as opiniões dele já são bem formadas e difíceis de mudar. Então chegamos em um condomínio que não era o de Leticia e Gunar, eu sabia que eles estavam num churrasco e que encontraria eles lá, mas pensei que era na casa de Marcela e Gustavo, o outro casal que fomos na casa no condomínio. Na verdade, dessa vez foi na casa de Alex e Adriana, um outro casal de brasileiros, que estão aqui há 16 anos (fiquei de cara), desde 2002 o pessoal tá em Jakarta, só com uma rápida passagem por Bangkok. Na verdade, não sei o que motiva, mas seja o que for, deve valer muito a pena. Para morar em Jakarta, você abdica de muita coisa, sem falar da família e dos amigos. Mas esses pareciam bastante habituados a viver ali e os filhos bastante confortáveis e tranquilos com essa situação. No problema at all. Ainda quero viver uma experiência dessa, com a família em um lugar diferente, bem longe dos costumes e cada um com seu aprendizado trazendo para mesa de jantar no final do dia. Legal né? Tomamos umas cervejas, e o churrasco tava uma delícia! Fazia tempo que eu não comida algo não frito ou industrializado, não sei nem como mostrar gratidão por isso! Haha. Conversamos bastante sobre quais empreendimentos seriam aplicáveis no brasil, modelos de negócios para copiar (claro que não vou dividir aqui), conversamos sobre como é a minha vida com os locais por aqui, em depok. E sobre os planos do futuro. A noite foi rápida para mim que chegou bem depois, mas foi muito legal! Tava saudade de falar umas palavrinhas em português, não calava a matraca!

Desculpem as fotos, perdi todas desse dia, ficaram só a de celular.

Yogyakarta – Prambanan

Começando o dia bem cedo em Jogja e dessa vez nem notei quando Fiqih levantou para rezar as 4 e pouca. A noite passada dormimos cedo para acordar e tentar pegar o por do sol no templo Prambanan, mas assim que vimos que tava meio nublado, fomos na nossa hora de manhã normal mesmo (umas 8h, 9h). Esse complexo, que tinham o Prambanan + 3 outros templos (ou ruínas), ficava bem mais perto que o outro, então com apenas meia horinha, já chegamos lá. Assim que você chega, da de cara com um jardim gigante, é tudo muito bem cuidado dentro dos dois complexos, neste especificamente era ainda mais caprichado, grama verdinha e cortada, tudo funcionando direitinho e bem sinalizado. A medida que eu ia entrando pude ver lá no fundo umas torres bem altas, aquilo naturalmente já causa uma excitação. Tipo quando você vê uma montanha-russa muito boa em Orlando, vai se empolgando e acelerando o passo. Logo na entrada para a área onde as torres que compunham o templo Prambanan tinha uma placa contendo mais informações, mas para minha infelicidade (e de todos os turistas) não tem tradução para inglês.

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Então, vendo a minha falta de informação naquela hora, Fiqih me perguntou se eu queria saber a história do templo. Aqui compartilho a versão mais legal: Existe uma lenda local em que uma princesa muito cortejada, fez um pedido um tanto exigente para um pretendente indesejado. Ela pediu que ele construísse 1000 templos durante uma noite e que só desta forma seria possível eles se casarem. Com a ajuda de “demônios”, quando o homem estava no 999º templo, soube que a mulher não teria intensão de casar com ele. Então, com um feitiço, ele transformou ela em estatua e colocou na câmara do prédio central (principal), do templo. Fiqih só sabia da lenda, e não da história verdadeira. A verdadeira é que o templo foi construído no século 9 para comemorar o fim de uma guerra que decidiu a nova localização da capital de Java. Não só a localização geográfica, mas também religiosa, que deixava de ser budista para ser hinduísta. Na verdade, eu ainda não conseguia entender direito a diferença entre as duas religiões, principalmente porque em ambos os templos estão cheios de figuras do Buda, então para entender melhor, dei aquele velho Google. As duas religiões, budista e hinduísta, de fato tem  a mesma fundação derivada de outra religião, Védica (vedas eram tribos antigas da índia) no hinduísmo eles acreditam em diferentes Deuses que são responsáveis por diferentes papéis na nossa vida, um destrói, outro cria e outro protege (Shiva, Brahma e Vishnu, respectivamente), fora isso tem a questão das castas (basta ter assistido “Caminho das Indias” para entender que não é nada legal).

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Já os Budistas não acreditam nesses Deuses Hindus, mas sim na própria consciência, na busca espiritual de cada indivíduo. Uma filosofia, um modo de vida onde existe a causa e o efeito. Que diferente das outras religiões, foi criada por uma pessoa (Sidarta Gautama), que não era nada mais nada menos que um Príncipe que teve acesso a um mundo fora das paredes e proteção do seu castelo, conhecendo a miséria e procurou um estado mental que pudesse ajudar as pessoas a resolver aquilo, com mais compaixão e sem muito deslumbramento a fim de evitar frustrações ou sofrimento.

Ficamos bastante tempo no primeiro templo subindo e descendo os degraus daqueles 8 edifícios, tanto tempo que já ia dar meio dia e era a hora de Fiqih sair para rezar (Sexta, Jummah pray, lembra?) todo lugar tem mesquita, até dentro de complexos religiosos de outra religião. O lugar pode ser rico, pobre, de qualquer jeito. É tipo a Igreja Universal, uma mesquita em cada quarteirão. Quando não tem mesquita, tem sala de reza. Isso em estação de metrô, aeroporto, qualquer lugar! Então Fiqih foi e eu continuei perambulando por ali, enrolado em minha bandeira do Brasil, jurando que também era necessário o uso de Sarung lá (só descobri depois que não quando vi uma série de meninas de shortinho e regata), tirando umas fotos, e fui andando e andando, até chegar num enorme jardim verde, passando debaixo das arvores, sobrinha, bem ventilado e resolvi dar uma paradinha. Estendi a canga (do brasil), peguei minha água, tirei meu sapato e tive a brilhante ideia de fazer a respiração. Geralmente quando faço em casa, em uns 20 25min eu acabo, nesse lugar eu respirei e deitei, só despertei exatos 43 minutos depois com Fiqih me ligando. Fiquei molinho molinho (kkk). Antes de explorar os outros templos no complexo, achei um museu lá, mas preparados que eles são aqui, não disponibilizam as informações em inglês, então só olhei mesmo e fiz aquela cara de entendido. De legal nesse museu, só uma “maquete” desse complexo, e do complexo de Borobudur, vendo de cima é bem interessante.

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De lá, avistamos uma grande chuva chegando, então demos uma pressinha no passo para conseguir ver melhor os outros templos (que segundo Fiqih ouviu no alto falante do complexo, eram budistas, vai entender), o último é bem legal, o resto estão meio em ruínas. Na volta passamos por um “zológicozinho” que tinham umas espécies de animal que eu nunca tinha visto e só. Mais uma grande experiência para conta!

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Na volta fomos direto para o hotel, a fome tava destruindo meu cérebro. Lá matamos cada um 2 Indomies (o miojo daqui), mais uns cheetos e um refrigerante. Descansei uma horinha ou duas e resolvi encara a noite na cidade, já que no outro dia não precisava acordar tão cedo. Fiqih declinou o convite, mesmo com muita insistência minha, fiz umas 35 “last calls” mas a educação que os pais dele passaram sobre não sair depois da reza das 18, 19 (sei lá), falava mais alto. Fora isso tem a questão do bar, que ele não “poderia” entrar (todos os bares q fui tem muçulmanos, mais liberais). Então resolvi ir só mesmo. Várias pessoas locais, me falavam pra ir numa rua que é bastante turista (para noite) com vários bares e etc, inclusive o motoqueiro me levou diretamente para lá. Assim que cheguei, não vi uma alma viva a não ser por uns 2 ou 3 gringo coroazão tomando uma cerveja em um dos bares, o lugar era legal, mas vazio do jeito que tava, não rolava. Encostei num bar daquele ali, e com muito esforço para ser entendido, uma mulher que estava servindo bebida me disse que era melhor eu ir no “Liqui”, eu que tinha acabado de pegar umas meia hora de moto, nem relutei em chamar outro uber para me locomover para essa nova dica, confesso que com o pé muito atrás. A rua desse Liqui não parecia ser turística, e a faixada não era tão legal. Entrei no bar e não vi ninguém, uma mesa no máximo ocupada, mas um garçom se aproximou e me puxou para uma porta dupla nos fundos que levava a um espaço GIGANTE, na moral mesmo, muito grande, pé direito lá em cima, várias mesas tipo de PIC NIC, palco para banda, iluminação massa, 2 bares. O único problema era que tava vazio, único não, o outro problema era que nenhum garçom falava inglês. Então saber se ia chegar gente ou se ia ficar daquele jeito, era uma surpresa. Notei que tinham duas mesas ocupadas (apenas), uma com um povo local, e outra com 7 pessoas. Depois de uns 20 minutos sentado tomando minha segunda cerveja (depois de 20 dias zerado), pude ver na visão periférica que um rapaz e duas meninas estavam em pé meio que vindo (naquela, meio com vergonha), então olhei para eles para facilitar o contato (haha), eles vieram, perguntaram se eu tava só e se eu queria me juntar a mesa deles (os 7). Me perguntaram bastante coisa sobre a minha passagem, estadia, de onde eu vim e etc. Assim como eu perguntei também. Eram 7 australianos(as) universitários(as) que vieram através de um programa de voluntariado que a universidade de Melbourne proporcionava. Estavam em uma vila de verdade, com vista para o Vulcão Merapi (que ficava ali perto) fazendo um trabalho de conscientização contra a poluição para a população local. E sempre iam naquele bar para relaxar, disseram q era o melhor. A noite foi muito divertida, alguns deles era muito difícil de entender por conta do sotaque, mas não faltou boa vontade deles em repetir quantas vezes fossem necessárias. Repetir principalmente porque jogamos Presidente e Assassino nas cartas e como eu não me lembrava como eram os jogos, precisei ser ensinado. Tomamos ali um Long Island (muito bom, inclusive) e umas 5 ou 6 cervejas. Muita conversa e até que dois deles se juntaram na mesa de uns locais, que não muito tempo depois, chamou o resto para se juntar aos locais. Eram dois “coroas” e 2 mulheres. Um deles mexia muito no nariz e não demorou muito para eles começarem com esse papo, o outro que falava inglês muito bem, rapidamente já introduziu o assunto de drogas na mesa, mas dizendo que o que mexia no nariz era o melhor advogado de Jogja (os dois pareciam ricos mesmo) e ele não apresento a profissão, mas fez uma bela descrição das cadeias de Amsterdam, Melbourn e Jakarta, por onde ele disse que já teve passagem por uso de maconha (sei), eu já não tava gostando muito daquela conversinha, mas ainda bem q era meio fim de noite e eles não demoraram para ir embora, ficando só eu e os australianos de novo. Mais umas cervejas, então era hora de partir. Deixamos marcado um encontro no outro dia para a visita ao Palácio do Sultão, ao castelo das águas e um paintball. Na volta eles pegaram um carro e eu, pra variar, uma moto porque já tava com saudade. Cheguei no hotel e dormi feito um anjo.

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Borobudur – Yogyakarta

Ou Jogjakarta e até mesmo pelo apelido Jogja. Uma cidade histórica que abriga antigos templos e cultura da Ilha Javenesa, talvez por isso já tenha sido a capital e atualmente ainda tem o título de “Capital Cultural” por aqui. Isso era tudo o que eu sabia antes de ir para Jogja, tinha uma impressão que ia encontrar uma pequena cidade, talvez um vilarejo, meio rústico totalmente diferente dos grandes centros que eu tenho passado ou vivido por aqui. O fato é que já pela janela do avião, antes de pousar, já vi que tinha me enganado. Me surpreendi, negativamente, com o tamanho da cidade (esperava que fosse algo menor mesmo). Não foi uma viagem longa, mas em uma hora e dez de viagem, foi possível me distanciar bastante de Jakarta, chegando ao sul do centro de Java. Já no Aeroporto, eu e Fiqih, fomos abordados por um grande grupo de taxistas que ficam esperando os voos, e como eu já disse antes, também tem problemas com o apps de taxi por aqui, mas não foi nada que pudéssemos contornar. Ao sair do aero, seguimos direto para o hotel, numa “viagem” de 30 35 minutos. Já nessa passagem era possível ver uma cidade grande com quase todos os mesmos problemas que Depok tem, exceto pelo trânsito. Fiqih ficava surpreso ao ver que os motoqueiros não paravam sobre a faixa, e que os carros conseguiam andar a mais de 50 ou 60km/h com um fluxo permanente e as vezes com trechos livres, também era primeira vez dele ali. Chegamos no hotel/pousada, até simpático.

Os quartos ficavam afastados e por estar chovendo, nos ofereceram o carrinho de golf para levar lá. Foi uma viagem longa então estávamos ambos cansados, sem energia nem para sair para comer e do jeito que chegamos, dormimos. No outro dia, combinamos de acordar bem cedo para aproveitar, mas eu não contava com o Fiqih e seu despertador natural da reza às 4h da manhã (tinha esquecido), mas consegui dormir de novo e às 7 estávamos os dois de pé prontos para a exploração.

Felizmente e diferente do que a previsão do tempo apontava em todos os canais e sites, o dia começou sem chuva (sem sol também), isso deu um UP na nossa animação (estávamos meio frustrados com as previsões), e a medida que o dia foi evoluindo o sol foi aparecendo e o céu ficando mais azul. Pedimos um “Grab” (app de carro e moto tipo uber) e o carro não demorou para chegar, no primeiro dia íamos para Borobudur, que ficava a um pouco mais de 1 hora de Jogja. Logo na entrada, tive uma grande decepção, fui na fila com Fiqih e me informaram que aquela fila seria para locais, independente de apresentação de visto e longo tempo de estadia no país, só com documentação comprobatória ou um rostinho indonésio, então me apontaram onde eu deveria ir, que era um hall com ar condicionado e todo maior requinte para os estrangeiros. Minha irritação veio pela comparação, na outra fila o ingresso estava por 30 mil rps e na fila dos turistas, cobravam descaradamente 350 mil rupias sem nenhum motivo aparente. Acho até que se eu não tivesse visto o outro preço, não teria me irratado, mas eu vi. Compartilhei minha indignação com a mulher da recepção, disse que eles estavam me roubando, que não era assim que funcionava e as pessoas já investem para vir de longe. No fim das contas aquela pessoa não está ali para negociar preço ou entender meu problema, só para repassar o custo mesmo. Então desembolsei (puto da vida) 525 mil rupias para comprar os ingressos de entrada para esse templo e o do dia seguinte (comprando os dois, ficava mais barato). Passando da recepção você entrava num complexo, onde tinham outras atrações, mas a partir da entrada da area do templo mesmo (antes de subir umas escadas), você não pode abrir bandeiras ou banners e, como várias religiões, cobrir as pernas e os ombros (sem regata ou shorts), então me deram um Sarung (uma saia típica) na entrada (free graças a deus).

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O Borobudur é o maior templo budista do mundo, sua construção foi concluída no séc. IX. Não existe um significado bem definido para o nome, só hipóteses. Assim como são as hipóteses para justificar o seu abandono 3 ou 4 séculos depois. Uns sugerem a área de risco (entre vulcões), outros sugerem o abandono com a mudança da capital e até mesmo pelos próprios javaneses que foram convertidos ao islamismo com uma maior presença dos indianos no país. O templo é gigante, tem centenas de budas, uns visíveis e outros cobertos por estopas perfuradas. Além de todas as paredes serem compostas por milhares de painéis de desenhos budistas. O grande Templo só foi “redescoberto” em 1814, enquanto a ilha estava sendo administrada pelos britânicos. O presidente da época (inglês) foi informado pelos locais da existência dessas ruínas que estavam encobertas de mato e cinzas vulcânicas, tendo o início das buscas, depois escavações, e restaurações que foram finalizados apenas em 1985 após ajuda de vários países combatendo roubos e retiradas e ajudando a custear a detalhada restauração. Depois de redescoberto e restaurado, o templo já sofreu ataques terroristas com bomba, terremotos e erupções vulcânicas, mas continua hoje em pé e pronto para receber todo mundo e inclusive eventos e migrações budistas que passam por ali.

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A grandeza daquele lugar nos segurou ali por mais umas 3 horas tudo aquilo é muuuito impressionante (também curto bastante história), e após sair dali era possível continuar no complexo que era composto por museu, e “entretenimentos” como passeio de elefantes, zoológico (nada demais), uma grande área verde, bicicletas, cavalos e etc. Fomos no museu e que na verdade não reteve tanto minha atenção. Não tinham muitas peças e estava tudo em Bahasa Indonésia (língua indonésia). Mas uma prática de uma arte (tipo uma dança), conduzida por um homem de idade, com cabelos brancos cumpridos que envolvia mais umas 5 pessoas (gringos) também de idade nos chamou atenção, ficamos ali vendo aquela “dança” que as pessoas de olhos fechados se moviam devagar fazendo o movimento que queriam, tocando as plantas, se tocando, sentando, rolando, levantando os braços, com uma flauta de fundo e tudo isso bem lentamente. Acabou com uma roda que envolvia mais umas 15 pessoas, que aparentavam já serem conhecidas por aquele “mestre”, devia ser um “curso” de relaxamento intensivo, a conversa era uma viagem (pelo menos para mim que tava de fora), então vendo que estávamos sobrando ali, eu e Fiqih saímos de mansinho e fomos em direção ao portal de saída, mas antes encontramos duas piscinas. Na minha cabeça já veio de cara que era daqueles peixinhos e ficam mordendo o pé, e realmente era.  Fiqih disse que aquilo era caríssimo, e para nossa surpresa o cara tava cobrando uma bagatela para ficarmos por 15 minutos com os pés na água. Eram centenas de peixinhos dando mordisquinhos no pé, parece um monte de furinho ou apeles pontinhos que sentimos quando o pé tá melhorando de uma dormência (ou dormida, em sp), o nome desse “tratamento” é Ictioterapia, que é uma limpeza profunda dos pés, por imersão em um tanque cheio de peixes Garra Rufa, também chamados de peixe médico. Estes peixes turcos conseguem eliminar toda a pele morta dos pés, deixando tudo limpo e suave. Dizem que melhora a circulação, chulé e pé de atleta. E até que eles atuam nos mesmos pontos da acupuntura, regularizando o sistema nervoso, relaxando o musculo e reduzindo a fadiga. Eita peixinho milagroso!!

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Essa parte do dia acabou com muitas dúvidas, se seguíamos para conhecer mais coisas ou não. Mas por conta da chuva que tinha começado, resolvemos para para almoçar (tínhamos sobrevividos com um pacote de Oreo das 7h as 15h). Nessa hora, o Grab (taxi) que pegamos sugeriu umas programações para gente neste mesmo dia, disse que ficaria esperando a gente para almoçar e com um custo baixíssimo rodaria para outros pontos da cidade depois do almoço. Almoçamos num restaurante que Fiqih de cara achou muito “chique”, porque tinha uma decoração de cadeia e na verdade era bem “jovem”, mas fora da realidade dele mas o que deixou ele ainda mais feliz foi o preço e a comida, que segundo ele nunca havia provado um prato tão bom daquele na vida (um noodles tradicional daqui), mas aquela proposta do Grab me deixou com uma pulga atrás da orelha. Somado a isso, Fiqih disse que era tradição darmos algum dinheiro a mais ou levar comida por ele ter nos esperado e aquilo (aquela bondade dele), tava me deixando ainda mais desconfiado. Saindo dali, passamos pelo Palácio do Sultão (Rei) de Jogja – é, lá tem um rei, diferente do resto da Indonésia. O palácio já estava fechado então não foi possível entrar. Então o motorista nos levou para um centro de artesanato de Batik, onde eu até fiquei tentado a comprar dois quadros, mas o Budget reduzido da viagem não permitia. Seguimos para uma loja ao lado, onde fique comprou coisa para cacete para a família dele, que estavam pagando a viagem. E depois já não era possível fazer mais nada, só voltar para o hotel. Conclusão: o excesso de bondade de Fiqih, nos deixou ser enrolados pelo taxista, que obviamente sabia que os outros lugares estariam fechados, e ainda comeu mais um dinheirinho por ter esperado a gente almoçar (que sentido fazia a gente segurar o cara ao invés de pedir outro), mas, eu que sabia que tava sendo enrolado, deixei Fiqih encara a realidade do mundo maldoso e sentir na pele que o mundo não é a vila dele. Que as pessoas todas se conhecem, se amam, se ajudam, se respeitam e admiram ele por ser um bom menino. Claro que não fiquei feliz com essa conclusão, ainda esperava me enganar e ter a felicidade de ser presentado pelas boas ações das tradições locais, mas não foi. Foi tiro e queda.

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