Propósito

E eis que eu me deparo com a última semana na Indonésia. Nesse processo. Nesse ciclo que estava se fechando (ou abrindo). A última semana foi eleita por mim a mais intensa, mais emotiva, onde depositei grandes expectativas e queria superá-las. Desde o inicio do projeto procurei objetivar (apesar de ter uma personalidade bastante subjetiva) o programa. Procurei traduzi-lo a fim de concretizar as conquistas, e a curto prazo ver o resultado da minha breve estadia nesse país. Para atingir esse objetivo não medi esforços, apesar da AIESEC (executive boarding) tentar me convencer a não entrar nessa pilha, relaxar na última semana e até propor “free days” (Eles não iam poder estar comigo porque as aulas deles já haviam começado) eu bati de frente e comprei essa “briga”.
A semana teve inicio com toda a carga, e um planejamento diário de atividades pesadas para concluirmos (discutível o uso do plural) as obras para a escola Master. Quando ainda tratava-se apenas de um dia de caridade, o dinheiro arrecadado era suficiente apenas para comprar novas lixeiras e então as crianças não iriam mais jogar lixo ou resto de comida na sala, trazendo um melhor ambiente, mais respeitado e mais digno para elas. Mas depois da semana anterior, onde foi possível arrecadar um montante de mais ou menos 1500 doláres através de doações de pessoas FODÁSTICAS, que confiaram 100% em depositar seu dinheiro em um projeto que estaria ajudando crianças do outro lado do mundo. Foi possível arrojar esse planejamento e sonhar num ambiente ainda melhor para elas. A cada centavo desse que entrava, ou até mesmo das pessoas que estavam se esforçando para tentar doar, eu via como existe muita possibilidade de mudança, não só daqui mas como em qualquer parte do mundo, só precisamos conectar pessoas interessadas a causas honestas. As vezes as pessoas não tem tempo para se doar fisicamente, mas confiam em pessoas que podem fazer esse trabalho por elas, e isso já é muito mais que suficiente. Principalmente quando você sabe exatamente o que aquele seu investimento se tornou. Algumas outras pessoas, ainda questionam por que ajudar crianças de um país lá na PQP, se o nosso próprio Brasilzão é tão carente e necessitado desses esforços, mas eu prefiro responder a essa questão com uma outra pergunta: Qual a diferença do valor da vida de uma criança no Brasil, Indonésia, Congo ou Russia? Não importa. Nunca o patriotismo/nacionalismo deve ficar a frente das pessoas e das vidas, principalmente quando se trata de crianças.
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Logo no inicio das atividades, já tivemos que fazer grandes mudanças no planejamento. Kintan, a responsável pelo cadastro do site de arrecadação de doações, se enganou. Por mais que eu tivesse a questionado milhares de vezes durante o final de semana sobre o processo de retirada de dinheiro (ela garantia que era muito fácil e no mesmo dia) não era possível passar por cima da burocracia do saque. Imaginando um cenário: Doações feitas, NINGUÉM até então para me ajudar na obra e nem se quer para traduzir o que eu queria falar em armazém de construção. Me vi num beco sem saída, impossibilitado, incapaz e amarrado. Que danado eu fui inventar de, através de amigos, e amigos de amigos, usar da confiança deles para um projeto onde eu estava só, num país de língua e cultura diferente, sem ajuda de locais. Sem nada, mas ainda assim não é motivo para desistir. Com muita insistência consegui que Sabrina viesse comigo a uma reunião na manhã da terça no Master para falar das doações ao HeadMaster (Diretor) da escola. Ele marcou conosco às 8 da manhã, e isso era ótimo porque pretendia ir no armazém já a tarde para orçar o material com o budget estipulado. Acontece que para minha surpresa, ninguém da AIESEC comunicou o cidadão de que estávamos em campanha para doação a escola. O cara é muito marrento e não ficou feliz não, pelo contrário, negou a ajuda, disse que não precisava e ainda disse que ficou sabendo dessa campanha e das doações através das redes, que não era assim que funcionava. Como estávamos usando o nome da escola sem nem sequer ter uma reunião com eles para dizermos nossa intenção? Sabrina muito tímida não rebatia e não tentava mais a fundo, eu tava vendo tudo aquilo acontecer e só podia presumir os fatos pelo balançar negativo da cabeça dele, e pelo pouco inglês que ele as vezes tentava soltar para me dar essa resposta. Eu não larguei o osso e fiquei lá falando Inglês (que na verdade tanto fazia se fosse português já que ele não entendia) insistentemente para ajudar a escola (quem já viu né?), até que vi uma foto num quadro na sala de um cara que era o fundador do Master. Pedi pelo amor de deus uma reunião com esse cidadão para tentar explicar a situação, pedi desculpas de todas as formas possíveis e imaginárias, até que ele concedeu o contato para a conversa. Ufa! um passinho para frente. Sabrina falou na hora com o fundador, que disse que estaria muito ocupado de manhã, mas tinha uma horinha às 9:30, e pediu que nós fossemos até ele. A escola master é muito pobre, mas é um complexo de pequenos “prédios” de contêiner por todo um quarteirão e era do outro lado onde esse cidadão ficava no escritório (e que escritório, ar condicionado, cama, sofá, tv led – doação em dinheiro não ia rolar). Pedi para Sabrina então não ter vergonha e traduzir tudo o que eu precisava falar, e só às 11:30 da manhã acabamos a reunião com sucesso. A Escola Master estava de portas abertas para receber nossa ajuda.
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Já não dava mais para ir ao armazém, a única que pôde me acompanhar de manhã ia ter aula então sem tradução fica muito difícil. Mesmo assim nesse dia mais tarde, através de um grupo que temos no LINE (app de conversas daqui) remontei o plano de atividades, agora de acordo com a nova expectativa de retirada de dinheiro (que só saía na sexta). Com esse novo prazo, se tornava muuuuito dificil a conclusão dos trabalhos, principalmente porque eles deixaram claro que não iam poder ajudar de nenhuma forma durante a semana. Jordan que viu meu desespero em casa, se ofereceu para ir comigo fazer os orçamentos e etc. Se fosse pela intenção deles, íamos pegar o dinheiro na sexta, comprar o material no sábado de manha, trabalhar (tirar foto) no domingo e deixar o resto para o Master resolver. Isso tava me deixando doente, enlouquecido. A falta de interesse deles começou com a “indisponibilidade”, mesmo quando se tratava de atividades no final de semana. Qualquer coisa era mais importante, inclusive tive uma grande briga com Momo porque ela insistia em que eu devia apresentar um seminário no sábado com duração de 4 horas, me impossibilitando de trabalhar. Essa discussão transcorreu para o resto do grupo, que de “indisponível” deve ter passado a ficar envergonhado por não querer ajudar e simplesmente sumiram! Coloquei toda minha indignação em textões no grupo, como eles trabalhavam para uma ONG onde a finalidade é fazer um mundo melhor e não podiam ajudar? O que era caridade para eles? Não existia nenhum esforço, era um absurdo!. Mas era isso, ninguém mais respondia nem dava mais nenhuma satisfação. A não ser por uma ou outra breve conversa com Awal e Kintan atualizando da entrada do dinheiro, agora eu tava só. Só não, com Jordan.
Sem AIESEC para ajudar, sem voluntários para ir comigo (eles já estavam voltando para suas casas ou tinham outros compromissos que julgaram mais importantes), era eu e Jordan e um final de semana para colocar tudo em prática. Então para ajudar, começamos a procurar por pedreiros, e nem contato de pedreiros o pessoal da AIESEC me passou, pelo contrário, Fiqih que havia se responsabilizado porque o pai dele conseguiria facilmente, disse de última hora que não foi possível (só me cobrando fotos de Jogja – da camera), atrapalhando ainda mais todo o planejamento. Fomos ao vizinho pedir esses contatos, paramos em obras que estavam acontecendo na rua pedindo indicação, e nada! Através da internet, Jordan conseguiu dois contatos em um site tipo o “getninjas” do Brasil. E na quinta de manhã marcamos duas reuniões para fazer um orçamento de serviço com eles na escola. Jordan me acompanhou para traduzir, e minunciosamente fomos de local em local vendo tudo o que era possível fazer para melhorar pelo menos os piores ambientes da escola. Demos essa volta duas vezes, cada vez com um grupo de pedreiros diferente até chegarmos a conclusão de qual grupo íamos ficar ($$). Fizemos uma lista gigante que ia se rolo, tinta, azulejo até a massa, cimento, areia, puzzle floor e espatulas. Isso tomou toda a manhã, a tarde fomos ao armazém orçar o material. Agora, com muito esforço, diga-se de passagem, já tínhamos todo o orçamento pronto, com serviço, material e ainda a reserva que sempre fui instruído a deixar para itens de última hora em obras. A noite eu tava cansado, e finalmente o povo da AIESEC ressuscitou o grupo (antes tivesse deixado morto), alegando minha falta de compromisso com o programa porque eu não estaria cumprindo o meu dever indo apresentar o seminário nessa conferência da Universidade onde já tinham sido distribuídos os convites, estava com auditório reservado e etc. A verdade é que eu sabia desse meu compromisso, mas que finalmente encontrei um propósito de verdade, tangível e que ia de fato mudar a vida daquelas pessoas na escola. Então eu fiz a minha escolha, a vida é feita de escolhas. Eu temi por de repente não poder receber o certificado do programa no final do período, mas rapidamente eu lembrei que não tava lá por esse pedaço de papel e sim para impactar a vida de alguém (principalmente a minha). Então F O D A – S E conferência. Meu dever era com a escola. Depois disso nem um “bom dia” mais da AIESEC ou envolvidos no programa. O dia tava pesadíssimo, mas ainda assim precisava retribuir o que a familia fez por mim nesse período. Pensei em cartinha, pensei em presente, mas nada melhor do que dar esforço. Então repeti a dose, e voltei para as panelas. Resolvi fazer um risotto de camarão e parmesão caprichadíssimo, era algo novo que a familia nunca provou e agradava a todos porque não tinha porco ou outra coisa que pudesse ir de contra a religião ou gosto de alguém da casa. Não é possível encontrar os ingredientes em Depok, lá não existe um mercado minimamente “refinado” que pudesse vender alguns itens, e principalmente o vinho branco. Fui com Jordan, e num total de 3 horas (ida e vinda) foi possível chegar em casa com tudo. Todos já estavam lá me esperando para cozinhar (eu tinha avisado a todos que cozinharia na quinta a noite), tomou tempo demais e deu um trabalhinho. Nunca tinha feito comida para 6, mas quis caprichar em todos os detalhes, até a cestinha de parmesão eu fiz, apesar de ter colocado em cheque por dar muito trabalho porque era muita gente, nenhum trabalho seria grande o bastante por agradecer aquela familia que me abraçou, me chamou de filho, me permitiu chamá-los de mãe e pai, se preocupou todos os dias com minha estadia, confiou a casa a mim e permitiu que eu “invadisse” a privacidade deles. Então botei quente e a parada ficou SINISTRA. Eles amaram, de verdade mesmo! Ayah (pai) que é mais tradicionalzão, pensei que não ia curtir, mas ele foi lá fora se deliciar e comeu toda a cestinha com o arroz dentro com a mão. Os outros não paravam de tirar foto e mandar pros amigos e familiares, foi tudo maravilhoso. Mas não foi só, comprei um sorvete de creme e servi com a calda de goiaba que já tinha feito. Foi para fechar com chave de ouro. Chuva de elogios!
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A sexta era o grande dia. Não de começar as obras, mas do dinheiro entrar, afinal alguns pagamentos precisam ser feitos antes do trabalho pronto. Ficamos com uma alta expectativa e nada, cobrei Kintan milhões de vezes até ela ver o que tava acontecendo, e ela percebeu que o dinheiro podia entrar em até 4 dias úteis. Seria então na segunda-feira seguinte. Desespero tomou conta da situação, mas não vamos andar para trás. Fomos atrás do que era necessário para não perder o tempo dos pedreiros no sábado e domingo. As obras de dentro da sala só poderiam ser feitas no final de semana, então já sabíamos que se tratava do material para o piso e tintas das salas. Aquele valor que a gente tinha arrecadado já não imporatava naquele momento, precisamos de dinheiro na hora e um amigo de Ibu que havia se disponibilizado para doação de qualquer valor que precisássemos seria a solução para o nosso problema. Se ele atendesse o telefone né? Então recorri a uma pessoa que foi fundamental por todo esse trabalho da esoola Master, Leticia (do casal de Jakarta, lembra?). Ela quem abraçou a causa desde o primeiro dia, confiou 100% em mim quando compartilhou nas redes sociais dela o pedido de doação, pedindo individualmente a amigas e vizinhas qualquer ajuda dizendo que era para um projeto social importante de um amigo. Leticia foi FODA, não só na arrecadação, mas como nessa hora. Sem nem pensar, quando eu pedi o valor para sustentar as obras do final de semana, ela transferiu em um minuto para Jordan. Esse dinheiro tinha muuuuuuuito mais valor sentimental que material. Acredite! Conheci Leticia há 3 meses atrás quando ela abriu a porta da casa dela para um estranho (eu), me abrigou na minha primeira semana num país estranho, disponibilizou o mundo para que eu pudesse me sentir a vontade, e fechou meu período na indonésia com essa grande ajuda que só uma pessoa com um coração maior do mundo, muita confiança e amizade poderia fazer. Valeu Le! Minha vinda aqui já se tornou válida só por conhecer ela e Gunar. Fora esse valor, Jordan conseguiu um pouco com uma amiga, Ibu também ajudou. Era muita gente confiando, acreditando no projeto, emocionante de verdade.
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Então era só o sábado e domingo para as obras das salas, que correria. Para trabalhar no sábado estávamos lá às 8 da manhã (horário combinado com os pedreiros) Eu, Jordan, um amigo dele e 4 pedreiros (os meus chamados foram em vão), então era mão na massa e pé no acelerador até o canto. Começamos lixando as paredes, enquanto os pedreiros focaram no piso na sala de cima. Demorou bastante até tirarmos todas as fitas adesivas velhas, raspar e lixar, principalmente porque todas as vezes que faltava algum material exigido pelos pedreiros, jordan tinha que ir ao armazem com o amigo para ajudar a segurar (de moto), até o fim dessa atividade era inicio de tarde, a medida que íamos evoluindo e o material novo ia chegando, várias crianças da redondeza entravam para ver ou tentavam ajudar. Era felicidade pura. Ipan, meu pirraia, não largava do meu pé, passava o dia me rondando e brincando, vez ou outra eu tinha que segurar ele porque ele gostava de colocar os gatos dentro de saco e amarrar. Pouco depois que acabamos a etapa de lixar, chegou Ayush, um voluntário Indiano que eu havia conhecido algumas semanas antes. Todo mundo dando raça, até o final do dia a sala estava pintada, todas as paredes estavam brancas, e a do fundo azul. Deixei só o teto para o pedreiros que tinham mais a manha. Ninguém tinha comido nada ainda, achei por bem pagar a comida dos companheiros que estavam ajudando, saímos dali e fomos na Domino’s perto, enchemos o bucho, conversamos muito e partimos, ali já era minha despedida do parceiro Indiano, que tinha intenção de continuar ajudando mas ia partir para bali no outro dia. O dia acabou e certamente eu deveria está exausto, mas não. Eu tava cheio de energia e eu não sei de onde vinha, só sei que nem pregar os olhos era possível, então aproveitei para seguir lendo Sapiens e, quem sabe, bater a meta né?
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No outro dia acordei com tudo, já completamente disposto e pronto guerra. Dei uma grande brochada no café da manhã quando fui surpreendido pela despedida de Ayah. ele tava partindo a trabalho e só voltava depois de 2 dias (depois que eu tivesse partido), essa foi a primeira despedida. Doeu, nós não conversávamos porque ele não fala inglês e eu não falo Bahasa, mas conseguíamos nos entender muito bem com uma brincadeirinha ou outra, dava para ver que tinha afeto, e a prova final foi no abraço emocionado que nos demos logo de manhãzinha cedo. Foda demais. Naquela hora eu já tinha recebido mensagens de Leticia, hoje ela tava vindo lá de Jakarta para colocar a mão na massa! Ela me ajudou muito de manhã na pinta das escadas, Jordan teve que se ausentar várias vezes para comprar material então fora ela só tinham os pedreiros ajudando. Acho que nesse dia, pudemos (eu e master) finalmente retribuir toda a ajuda que ela tem dado para essa causa, a troca dela com as crianças foi incrível. Enquanto trabalha, brincava com eles, conversava. A felicidade era reluzente! Em meio ao trabalho conversamos muito, e no meio dessa conversa toda ela me perguntou se eu tinha achado o que eu vim procurar aqui. Acho que eu não soube responder direito, algumas formas de negócios seriam reaplicáveis no Brasil, e vários deles me interessaram. Mas na verdade, ela me mostrou que acima disso existia um espirito empreendedor, que eu era muito persistente, e consegui manter uma liderança o suficiente para tocar o projeto num país de outra língua e cultura. Cumprindo todos o passo-a-passo da cartilha das startups, desde a identificação de um problema, sugestão para resolução, arrecadação de investidores (doadores) e até tocar o projeto. De fato, não tinha pensado por esse lado. Foi uma análise que me fez pensar muito, e talvez, ir um pouco ainda mais a fundo. Hoje em dia ouço muito falar em trabalhar com algum propósito, mas achei que fosse um termo (ou até sentimento) modinha. Nessa reta final da minha experiência, tive a felicidade de ter a oportunidade de trabalhar com um propósito. Acho que não me lembro na vida de ter me doado tanto a um projeto como esse, é energizante, você se torna incansável e fica obstinado até atingir a sua “meta”, até concluir. Quando é voluntário, as pessoas menos interessadas se afastam, as interessadas em ajudar tem mais força. Cada um tinha a força de 100, simplesmente porque todos estavam acreditando nessa ideia, todos estavam engajados e com o mesmo propósito. Isso era um time. No meio desse percurso escolhas tem que ser feitas, foi uma conferência, mas podia ser uma cerveja, uma farra, mas quando se tem um propósito, um objetivo, você não desfoca. NUNCA! e não precisa ninguém te dizer isso ou te impedir de sair desse foco, é natural.
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Awal apareceu no fim do dia do domingo por conta própria (em CPF não em CNPJ) junto com Paul, me ajudaram a finalizar a pintura da segunda sala. Quando o vi chegando, fiquei feliz. Juro que sem mágoa ou algum rancor. Ele se dispôs (cedo ou tarde tanto faz), com muita humildade pediu desculpas, como sempre fez, tirou a camisa e pegou o rolo. Ele me contou que os outros não viriam ajudar porque eles não acham que esse seja o trabalho deles, muito mesmo que esse tipo de trabalho era digno de pessoas com algum dinheiro (para Awal a maioria na AIESEC eram ricos), então que eles não colocariam a mão na massa.  E esse discurso coincidiu com o que um senhor que estava acompanhando a mulher num seminário sobre redes sociais ali perto nos falou. Esse senhor contou para mim e para Leticia de manhã que os jovens não tem essa prática de fazer esse tipo de serviço, principalmente sem ser remunerado. É inexplicável para eles porque a gente estava fazendo aquilo. Mas a medida que ele nos explicava isso, já arregaçou as mangas e pegou um rolo para ajudar a pintar, e só isso já era o suficiente para servir de exemplo a alguns jovens (17 19 anos) que estavam ao redor da gente só olhando. Ele falou que os jovens dele precisavam do nosso exemplo, mostrar que não tem nada de errado com esse tipo de trabalho, ao contrário, como era enriquecedor. Esse senhor aparentou ter um pensamento muito diferente da maioria por ali, ele era para frente. Pensava de outra forma, e queria fazer a diferença também. É uma pena que os outros integrante do programa não pudessem ter tido aquele contato que eu tive com esse senhor. Uma pena. Fiqih apareceu no finzinho, final suficiente para passar cola no verso de 3 “puzzle flor” e só. O trabalho foi pouco, ao contrário de Awal, ele me decepcionou bastante, talvez tivesse criado grandes expectativas sobre ele, ou de repente ele tem outros motivos para ter se ausentado ou mudado o discurso em relação a algumas coisas.
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Mas enfim, com toda essa força, foi possível perseverar. Até o final do dia as duas salas estavam prontas e as escadas pintadas. Foi um trabalho lindo de se ver, o riso frouxo era conseqüência, a satisfação em entregar e saber que no outro dia bem cedinho iam ter crianças ali, não tinha preço. Mas principalmente, estabelecer um plano, uma ideia, e concretizá-la é extremamente prazeroso. Perto de acabar ainda tinhamos mais um compromisso no dia, Sabrina e os meninos que estavam comigo iam para minha casa. Lá eles iam cumprir uma espécie de ritual de despedida da AIESEC. O resto do pessoal não pôde ir, então fomos só nós mesmo. Para começar Iniciamos com uma atividade onde cada um escreve algo sobre o outros em pequenos pedaços de papel. Comecei por Sabrina, por ter menos intimidade do que eu tinha com os outros 3 (Paul, Fiqih e Awal), disse que apesar da timidez dela, ela tinha uma característica que eu enxergo como uma grande qualidade, curiosidade. Ela gosta de perguntar e de ouvir sobre vários temas, independente de religião. E por mais que a religião possa impedi-la de fazer algo, ela ainda assim quer saber como funciona. Para Fiqih, falei do coração grande que ele tem, e que esse coração era tomado quase todo pela familia. Familia que para ele era mais do que pai, mãe e irmão. Era toda a “ia family” que vai do primo mais distante até os vizinhos. E finalizei com um “quanta sorte de quem conseguir entrar nesse coração”. Awal, o insistente. Para ele eu disse o quanto eu já compartilhei ruins pensamentos por aqui e com outros. Critiquei muito, principalmente os erros que ele cometia. Só me dei conta muito tarde, que apesar de muita porrada na cabeça, ele não desistiu. Ele continuou vindo ao meu encontro, continuou tentando, me ligando ou mandando mensagem. Errou mil vezes, bati mil e duzentas, e as mil e duzentas ele voltou para tentar de novo. No final das contas, era com ele que eu podia contar. Paul é gigante, tem um coração de ouro. A coragem que ele tem em percorrer um caminho religioso diferente dos demais integrantes da familia é inspirador. Ao mesmo tempo que ele tem essa coragem, ele tem a delicadeza e o cuidado de não magoar principalmente Ibu com essa nova vocação. A curiosidade dele para outros assuntos e a maneira como ele devora livros é diferente de tantos os outros que eu vi por aqui. Essas cartinhas eram para ser lidas depois, então coloquei tudo num envelope para ler no avião vindo para as Filipinas, a surpresa era que entre elas, tinha uma carta de Ibu. Entregaram certificados para Fiqih, para Awal, para familia e para mim. Eu deveria entregar o da familia, mas já disse ali mesmo a Ibu que para mim aquilo era só um papel, que eu não tinha palavras para agradecer por ela ter aberto a porta da casa dela para um estranho, não só aberto a casa, como ter me acolhido. Como familia. Foi um falando uma coisa para o outro, estimulado por Awal. Ele disse que não era bom com palavras e pediu que eu lesse a cartinha. Me deram vários presentes de recordação como, dragon fruit (porque eu disse que era muito cara no brasil), cerveja sem alcool (kkk só vende assim em depok), Indomie (miojo daqui, maravilhoso) e mais outras coisas. Ali, tarde da noite do domingo, já era minha despedida de Awal, de Fiqih e de Sabrina. Possivelmente nunca mais volto a encontrá-los. Isso é uma realidade que aprendi a encarar depois que deixei muitos amigos e familia no intercambio do Canadá e nunca mais voltei. Quero tá sempre perto para ajudar, mas infelizmente sabemos que todos temos nossas vidas e dificilmente é provavel que aconteça esse encontro novamente. Seria bom, gostaria de sempre saber o que aconteceu na vida de cada um. Como já tava tarde, todos partiram e quem é da casa foi dormir. Fiquei ainda um pouco na sala esperando Jordan que tava num casamento de um amigo. Agradeci do fundo do meu coração por tudo o que ele fez pelo master. Ele foi fundamental, assim como Leticia, para o projeto dar certo. É como se fossem as pilastras principais de toda aquela estrutura, daquele projeto da Escola Master.
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No outro dia já acordei saudoso, com um nó na garganta. Tudo o que eu fazia já parecia ser a última vez na vida. O lugar que eu acordei, onde eu sentei, o banho, tudo e qualquer detalhe. Cedinho parti em direção ao Master com Jordan, com uma única missão de para no caminho e imprimir várias fotinhas minhas com as crianças para dar de presente a elas, infelizmente boa parte delas larga as 10h, e não pude dar um último adeus. Para as outras não sei se foi muito fácilmente entendivel. Eu já tinha dado um adeus definitivo antes há algum tempo ali, eles podiam pensar que esse adeus agora seria exatamente como o outro. O headmaster durão, o fundador nó cego, a diretora e outra professora me agradeceram bastante. Me viram trabalhar duro ali no final de semana, viram muita ralação e a ótima entrega que fizemos para aquelas crianças. Foi foda! Mas no finalzinho foi o que mais me pegou, me despedir de Ipan, meu pirraia. Que vivia na cola. Foi muuito ruim dizer “dadaa” (tchau) para Ipan, é como se você tivesse abandonando ele, e ele tivesse criado muitas expectativas sobre você. Não profissionais ou financeiras, mas de carinho. E ainda acho que ele vai ser o meu vinculo ou motivo de volta um dia nesse país.
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Já era hora de voltar para casa, no caminho deixei Jordan escolher minha ultima refeição tradicional. Almoçamos, conversamos sobre minha estadia, quero muito ajudar ele e a familia a empreender em algo. Vamos sempre manter o contato, com certeza! Do restaurante para casa, Ibu ainda não tinha chegado, nem Paul ou Quézia. Foi o tempo em que arrumei minhas malas, esvaziei o meu quarto. Tirei foto de tudo, banheiros, comodos, quintal e frente da casa. Andei até a lavandeira tirando foto do caminho que eu fazia. E esse tempo foi o suficiente para todo mundo chegar. Depois que chegaram, não demorou muito e já era tempo de me despedir. Paul e Jordan iam me levar para casa de Leticia e Gunar que me abrigariam na última noite e eu deixaria Ibu e Quézia em casa. A despedida de Ibu foi demais para mim, eu não conseguia falar nada. Minha garganta era um nó gigante, ela chorou muito. E pela primeira vez fez na minha cabeça do mesmo jeito que ela fazia com os filhos, a cada tentativa de partida a gente se dava outro abraço e ela chorava ainda mais. Quézia tentava acalmar ela e eu me segurando. Segurei muito (em intensidade) mas não por muito tempo, assim que entrei no carro desidratei de tanto choro (kkkk), não sou muito de chorar não e até posso sugerir a última vez que deva ter chorado há anos. Mas essa foi em cheia. Me desabou. Mal conseguia falar com os meninos, o caminho todo ouvindo musica e conversando muito pouco. Agradeci muito a Paul o responsável por convencer a familia a aceitar um intercambista e a Jordan por tudo o que ele fez pela escola Master e por mim. Os dois foram gigantes parceiros nessa minha estadia e a familia hoje tem um grande espaço no meu coração. Quero ver falar de desprendimento, de maturidade dessas ocasiões. Um dia ainda aprendo (será?).

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One thought on “Propósito

  1. Claudinha

    Caramba lipinho, que coisa linda, quanto amor, delicadeza e luz em um texto só. Chorei horrores lendo. Quanta coisa incrível e intensa vc viveu lá, quantos laços fortes e verdadeiros vc construiu, quantas pessoas fodas e singulares vc conheceu e quanto esforço e determinação você depositou nesse tempo, que lindo!! Foi emocionante mesmo de ler, meu coração ficou cheio de orgulho e gratidão por vc ser quem é. Parabéns de verdade, pela iniciativa que te levou até ai, por todo esforço e principalmente por toda vontade de dar amor, carinho e alegria a outras pessoas, vc é foda!! Fico MT MT feliz que vc tenha vivido essa experiência tão incrível ai que já deixou e que ainda deixará raízes e frutos tão incríveis. É mt incrível(n consigo encontrar outra palavra essa se aplica a tantas coisas e pessoas nesse contexto) ver sua sabedoria, seu amor, sua força de vontade e persistência! E concordo com Leticia, empreendedor mesmo! O mundo é seu lipinho! Te amo muito muito muito!!!

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