Empatia

Depois do final de semana da arrecadação muita coisa aconteceu. Os dias pareceram horas, e esse período em que não escrevi aqui fez uma bola de neve em vários eventos que seriam melhores descritos no calor do momento, e não resfriado depois de tanto tempo. Alguns motivos me fizeram me distanciar do blog como a falta de feedback, outras coisas importantes acontecendo e preguiça (preguiça aquela que eu combati tanto no início), mas na verdade era uma preguiça de exaustão, não de comodismo.

Voltando um pouco aos eventos anteriores, porque esqueci de descrever uma reunião que tivemos após o dia de arrecadação. Nos reunimos em um restaurante de um shopping próximo a rua onde estávamos solicitando ajuda a escola, lá íamos contar o dinheiro e discutir o roteiro da semana seguinte. Como já falei do valor arrecadado nesse dia, vou pular para a conversa. Sentamos na mesa e pedimos a comida, logo após a comida, Awal abriu o laptop para me mostrar quais seriam minhas atividades da semana. Ele e eu, compenetrados na explicação dele do que seria cada atividade e quais eram as minhas responsabilidades dentro de cada uma delas. Logo de cara, me deparei com uma coisinha que me incomodou (to parecendo um velho ranzinza), mas era sobre uma apresentação sobre diversidade cultural em uma escola DIVERGENTE (como tava escrito no computador dele) – wow, divergente de quem?. Mas não vou polemizar essa leitura que eles fazem sobre uma escola cristã não. A minha pergunta a ele foi qual seria realmente a minha função nisso, já que estavam sendo destinados 2 dias para essa escola e 1 dia para voltar a escola do estado que eu passei a última semana. Minha surpresa foi com a resposta. Tratava-se de uma apresentação de 30 minutos por dia nessa escola particular cristã, e a minha volta a escola estadual para a entrega de um certificado. Somando 3 dias de atividades, teríamos uma hora e vinte de conteúdo (?), não deixei ele se quer decorrer do conteúdo das atividades dos dias seguintes, interrompi por ali afirmando que faria tudo isso em um dia só e ainda precisava de mais atividades. De novo, que não tinha vindo de tão longe para ter “freedays”, se eu quisesse férias teria ido para Bali. Isso o colocou contra a parede porque ele não tinha plano B, ele ficou sem jeito mas explicou que era a Universidade deles que tinha voltado as aulas e eles não poderiam me acompanhar durante a semana. Minha intenção não era deixar Awal contra a parede ou sem saber o que responder, então chamei a atenção das meninas que tavam só conversando, participar e pedi que elas o ajudassem. Deixei eles em paz e disse que iria no banheiro, que na verdade preferi deixar eles a vontade para discutir sem a minha presença. Dei uma meia hora e voltei, e tudo já parecia ter sido solucionado. Awal aí já me mostrou um nosso roteiro para semana. Esse novo roteiro contemplava a escola estadual com mais dois dias, o outro faríamos uma longa apresentação na escola privada e por último duas “outside classes” na vila de Fiqih como aparentemente já estava marcado. Dessa forma minha semana estava completa e uma confirmação de Chantika (responsável pelos contatos das escolas), me deixou seguro de que estava tudo certo para seguir.

Acordei cedinho, eles me pediram para chegar às 8h na escola. Achei meio estranho porque tem a hora da reza, mas vamo lá. Tomo meu banho, uma xícara de café, visto minha Batik (é uma escola do estado formal, estão como regra exige a camisa com gola) e peço meu Uber. Cheguei na hora lá, mas já vi que tinha sido o único. Isso não me intimidou porque agora eu já tinha intimidade com a professora e com os alunos. Ms. Annie foi uma das primeiras pessoas que vi quando me aproximava da sala dos professores, e logo sem disfarçar ela já fez uma cara de surpresa. Me perguntou se eu ia dar aula hoje, que ela não tinha sido avisada (hã?), tudo bem ela tava tentando entender. Na sala do diretor, onde geralmente eu passava os intervalos das aulas, ela conseguiu falar com o próprio, que também não tinha sido avisado (por quem né? Ele é quem manda) e não demorou muito para Sabrina e Fiqih chegarem. Logo eu já passei essa informação para eles que tentaram contornar a situação. A primeira solução seria acompanhar Ms. Anie na aula dela na turma mais jovem (nunca tinha ensinado a crianças dessa idade) e teria que ser o assunto que ela tinha planejado (dias da semana e meses), preferi por bom grado não atrapalhar o planejamento dela (claro) então restou uma segunda alternativa. Esperar até às 10h e ensinar em uma outra turma (legal) sem a Cia de Miss Annie. Esperei até às 10h, fui no pátio no recreio fotografar as crianças. Ali todas se vestem bem, tem uma ótima aparência, aula de música, uma farda diferente (estilo diferente mesmo) por dia. Voltei para sala, tomei uma água e deu o meu tempo. No caminho para sala, Sabrina sem jeito me fala que ela e Fiqih não poderiam me acompanhar porque teriam aula as 10:15. Sério. Perguntei para eles como eles esperavam que eu me comunicasse com aquelas crianças. Sem NINGUÉM para traduzir a aula. Que não seria possível fazer aquilo. Isso não comoveu eles, ela só me perguntou se tinha algum problema de eu ir para casa (haha), respondi que claro que sim. Mas que mesmo assim iria.

Cheguei em casa possesso, emputiferado, soltando fogo pelas venta. Queria explodir com alguém, mas não existia alguém. Jordan tava na sala, mas com vergonha desse acontecimento nem com ele eu dividi esse acontecimento. A melhor solução aparente para mim, foi relaxar. Vim para o meu quarto, liguei o ventilador, comecei a ler (que me dá sono), e consegui descansar 1 hora. Acordei mais calmo, mesmo assim querendo dividir isso com alguém da AIESEC. Já recorri a Awal, a Momo, quem mais? Então Rafif me suou como um bom nome. Esse é o cara que eu tive o primeiro contato quando ainda estava no Brasil, ele me parecia ser de um cargo mais alto, então foi com ele que eu resolvi me abrir. Antes das primeiras palavras, já avisei aos outros dois que teria que falar com ele porque a situação já havia chegado em um limite razoável em que não era possível continuar seguindo pelo mesmo caminho. Tentei uma conversa pessoalmente, mas ele (que tava em casa) me pediu para ir até lá (uma hora e vinte de moto) o que não era possível. Então resolvi falar o que eu achava para ele por ali mesmo.  Comecei falando sobre o estopim da minha explosão que foi o acontecimento do dia, então abri todo o passado de falhas que estavam acontecendo. E para mim um dos problemas mais graves e onde eu foquei minha energia foi nessa questão de alguém para te acompanhar e foi exatamente dessa forma que passei para ele.

“Que porra é essa que o cara aciona um programa no site da Aiesec, pedindo voluntários que podem vir do outro lado do mundo para cá e você não calcula nem quando suas aulas vão começar para saber se vão tá disponíveis para acompanhar o estrangeiro nas atividades? Eu vim aqui com um propósito e estou levando isso muito a sério e foi por isso que desde o inicio eu perguntei para os responsáveis pelo meu programa se eles realmente precisavam de alguém ali. Se não eu poderia facilmente mudar para outro programa, outra cidade, outra província e até outra ilha, sem problemas. Se as pessoas aqui não se importavam em ajudar eu posso me mudar facilmente para algum lugar que eu encontre pessoas com meu mesmo propósito. Eu quero compromisso, vim de muito longe para ser feito de bobo.”

Ele foi competente em dizer que só ficou sabendo dessa situação nesse momento e que iria ver mais de perto, mas que eu ficasse tranquilo que ele iria resolver. Ainda não fiquei tranquilo porque não sabia nem o que faria no dia seguinte, sabido que conversando com Ms. Annie, ela me disse que o colégio estaria fechado para a Olimpiadas de Matemática no outro dia (que acerto em Chantika, parabéns). 3 horas depois, recebi a mensagem de Momo perguntando se ela poderia vir aqui na minha casa com alguns outros depois da aula deles. Claro, queria tudo resolvido. Quando era mais ou menos umas 8 da noite avisei a Paul que o pessoal tava vindo aí, e como das útimas vezes nos reuniríamos na varanda. Expliquei rapidamente o que tava acontecendo para ele e ele explicou para Ibu, que por sua vez achou melhor ele me acompanhar na reunião (kkk medo da minha fúria). Brincadeira, aí eu já tava risonho e de boa, mas mesmo assim eu queria clareza das informações e ser tratado com uma seriedade maior.

Chegou a tropa, todos meio acanhados e sem jeito sentaram em minha volta na varanda. Momo tomou as rédeas e seguiu com o texto. Quis entender melhor o que tinha acontecido, mostrou a importância do trabalho que a gente tava fazendo, falou que todos os outros programas já tinham acabado só o da gente era o que puxava mais forte, que apesar de sozinho eu tinha o roteiro mais cheio entre todos os outros programas. Para mim alguns outros devem ter se acomodado porque desistiram ou porque estão em grupos e as vezes recorrem a outras atividades e se apoiam em fazer uma outra coisa quando não tem solução. Eu tô só e quero cumprir minhas atividades ou ir além durante todo o período em que eu tiver aqui. Então pedi para que ela não me comparasse com os piores, com as falhas ou com os erros. Viemos para trabalhar, não para enrolar.

O mais engraçado é que eu as vezes me vejo neles quando posterguei alguma atividade no trabalho ou esqueci de fazer algo. É como se eu fosse meu próprio chefe agora e tivesse me vendo na terceira pessoa cometendo aqueles erros. Quando se tem um propósito é muito mais fácil manter o foco e talvez a falta de maturidade deles ou a compreensão plena do que eles estão fazendo ali os deixem mais relapsos do que eu em toda essa atividade.

Segui bem firme na reunião, e em meio a algumas falas de Momo ela se mostrou preocupada com a minha desistência. Ela achava que eu já tinha jogado a toalha e até citou outros casos como o de um cara que não gostou da família, outro que não gostou do quarto/casa/bairro. Mas de cara já disse para ela que isso não era eu, que eu não desistiria. Mas foi para aquilo que eles estavam ali, para me fazerem não desistir. Confesso que isso me trouxe mais ânimo, principalmente porque somado a isso ela reabriu o laptop e mostrou o roteiro do dia. Fiquei muito confiante para seguir a semana.

O dia seguinte foi show de bola, muito tranquilo. Conheci uma escola enorme e ainda melhor que a do estado que eu já tinha ido. Era a escola privada cristã, mas a diversidade de alunos era muito mais ampla. Tinham alunos indianos, do Timor Leste, professoras hindus, católicos, protestante e muçulmanos, aquele ambiente parecia muito “open mind” do que o dos colégios muçulmanos (to me contradizendo né?). Pude descorrer pela primeira vez de uma apresentação mais profunda sobre as outras religiões, indagando perguntas como quais eram as diferenças entre católicos e protestantes já que os dois seguem o mesmo livro e acreditam no mesmo deus. E quem era buda para hindus e para os budistas, por que eles eram diferentes? Tive a ajuda de Awal e Rohkma, além de uma professora Hindú. Isso ajudou bastante no debate das diferenças e a maior compreensão e respeito das crianças. Nesse dia eu saí leve, bem demais. Dali fui no Margocity (o shopping mais legal aqui de Depok). Comi na Hut (sds) e fui num café ali do lado, ambiente bem legal, mas o que fez eu me apaixonar ali foi a música. Quem diria que tão longe eu ia encontrar um lugar que só tocasse bossa nova né? Nesse dia eu não me demorei, tinha marcado com os outros de ir num Rooftopo em Jakarta. Ficava com 56º andar de um prédio empresarial que fazia parte de um complexo do maior shopping daqui. Que vista.

20180213_213304.jpg

mas no outro depois da aula no colégio do estado de novo, fiquei um tempão, levei o PC para escrever e foi lá que fiz o último post. Na segunda vez eu não ia só, combinei com outros voluntários de nos encontrarmos lá e de lá seguirmos para um restaurante perto que seria a despedida de duas chinesas (não conhecia muito), mas era do programa do povo lá então eu fui só para acompanhar. No tempo em que tava no café escrevendo, Ayush (um indiano), ficou comigo. Eu só tinha o conhecido na global village lá atrás, então foi ótimo porque nos aproximamos mais, depois que todos foram embora ainda fomos no BK matar a lara (quem dera) e conversamos bastante. Vimos os horários dos filmes e marcamos para ver o tão esperado (pelo menos para mim) Black Panther (Pantera Negra) da Marvel. Semana passou a fluir, problemas resolvidos. No outro dia eu daria uma “outside class” mas a chuva tava surreal, então não deu ninguém lá, e antes que eu fosse, Sabrina que já tinha chegado foi informando e não tinha nenhuma criança. Então fiquei em casa com Jordan acertando algumas coisas de uma viagem que faria com ele e alguns voluntários para Bandung no final de semana, ainda precisávamos comprar as passagens de trem.

Sobre a campanha, eu só tinha feito uma postagem. O dinheiro que tínhamos juntado até então era irrisório, até que (surpresa) apareceram 500 mil RPS na conta KITABISA (daqui). Foi Leticia que fez a primeira doação online, que desencadeou outras com os compartilhamentos dela, e os meus (compartilhando as pessoas que estavam doando), a felicidade do nosso grupo estava reestabelecida. Todos muito felizes e gratos, só com aquela doação já tínhamos quase o dobro do que arrecadamos off-line (hehe).

Ainda em casa fiquei por mais umas horinhas e fui para o shopping bem antes do filme. Para o filme estariam 9 presentes, quase todos voluntários. Como cheguei bem antes fui devagar, comprei meus ingressos, almocei, desci pro café, li Sapiens para CA RA LHO (meta de fevereiro) até o povo chegar. Sobre o filme só posso dizer uma coisa, QUE FILME. Parabéns a todos os envolvidos e ao meu dia e semana, como tinha melhorado!!

A sexta era feriado, ano novo chinês. Pela forte presença dos chineses aqui e em outros lugares do sudeste asiático, alguns países param tudo nesse dia como forma de respeito a cultura deles. Mesmo assim, como a minha aula seria na vila e informal, permaneçamos com a agenda. Chegamos cedinho para aula ir só até às 11:30 para os meninos seguirem para a Jumah Pray. Aula na vila é sempre muito legal, cheio de crianças de diferentes idades e muito interessadas já que nada os obrigade estarem ali né? Era uma semana sendo fechada com chave de ouro e ainda não era tudo. Como só ia para Bandung no sábado de manhã, combinei com Paul de ir para Bogor (que foi abordado de última hora), mudando nossos planos para Kota Tua (que tá lá nos primeiros dias de viagem), no centro de Jakarta, uma parte com bastante influência holandesa. Íamos no museu nacional, mas que não lembramos que estava fechado. Só depois de 1 hora e meia de trem e uma andadinha considerável. Deu para mostrar a Paul então o Café Batavia (bem holândes e cheio de gringo), que ele ainda não conhecia. Mas só o ambiente já fala pelo preço, acabou assustando um pouco o rapaz. E o pior de tudo é que eu fico pirangando dinheiro miúdo demais aqui também (tipo 4 reais, 10 reais) que nem to me dando conta que to pirangando porque não converto demais, só adaptei minha cabeça ao que eles acham caro e barato. Me adaptei mais ou menos ao o que eles acham desperdício de se fazer com o dinheiro deles. Então achamos outro café mais barato, conversamos um pouco. Tomamos um café e o engraçado foi que Paul tocou no mesmo assunto que Jordan já tinha me falado. Que Ibu tava interessada em empreender e vender bolo de rolo (ela gostou muito). Só de pensar em fazer um bolo de rolo você já imagina a preguiça né? Mas tentar era o mínimo que eu podia fazer por ela, que tá me acolhendo aqui (marmanjo vei) sem ver cara nem coração. Então levantei minha bunda gorda da cadeira, peguei Paul pelo braço e disse que a gente ia voltar para casa para fazer esse bolo. Pegamos o trem de volta, a moto dele, saí para comprar a goiaba. 20 goiabas, água, açúcar, liquidificador e peneira. A receita de Leticia da Casa dos Frios tinha umas 15 linhas em texto corrido, e só duas palavras dedicadas a parte de “peneirar”. Foi um total de 4 horas fazendo essa cobertura de goiaba, onde 90% do tempo foi dedicado a essas duas palavras sendo uma delas “peneirar”. Peneirar 20 goiabas em uma peneira minúscula deu um trabalho SUR RE AL. Teve até mobilização na casa onde ficou eu, Paul e Ibu assistindo Nadini (novela indiana dublada em Bahasa) e peneirando. P Q P. Mas enfim ficou pronto! Uma delicia! Mas nada de bolo na madrugada, deixa para volta de Bandung, porque já era 1:30 da manhã e eu tinha que tá no terminal de trem às 5 para me encontrar com os outros.

20180216_101058

20180216_173848

 

 

 

 

 

 

 

 

 

One thought on “Empatia

  1. Claudinha

    Achei esse parágrafo sensacional: “O mais engraçado é que eu as vezes me vejo neles quando posterguei alguma atividade no trabalho ou esqueci de fazer algo. É como se eu fosse meu próprio chefe agora e tivesse me vendo na terceira pessoa cometendo aqueles erros. Quando se tem um propósito é muito mais fácil manter o foco e talvez a falta de maturidade deles ou a compreensão plena do que eles estão fazendo ali os deixem mais relapsos do que eu em toda essa atividade.”
    Parabéns de verdade por pelo seu foco lipinho. Não dá nem pra imaginar a diferença que todo esse aprendizado ai diante de todas essas situações vão trazer pra tu tanto na vida pessoal quanto profissional.
    E achei o máximo a ideia de ibu 💙 ela é demais!! Depois quer saber o desenrolar… bjs

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s