Fora da caixa

As aulas essa semana começaram na terça, acordei disposto e ansioso para conhecer essa escola. Eu sabia que minha presença ali talvez não trouxesse tanta excitação quanto foi para a escola informal que me proporcionou um contato direto com pessoas realmente desprivilegiadas. Ao chegar, fui recebido por Chantika e Sabrina, também do programa, elas me acompanhariam nas aulas do dia para a tradução dos temas mais específicos e estabelecer uma melhor conexão entre eu e os alunos. Na bolsa, eu levei meus dois pilotos, Awal tinha todo o resto do material. Logo pela manhãzinha ele me mandou uma mensagem confirmando que não poderia ir a essa aula, por isso estava tentando arrumar um Go Jack (moto) para enviar o material (msg asm7:50am), Fiqih também não pôde ir, então eu tava com duas pessoas que não tinham me acompanhado em muitas aulas, e quando acompanharam foi para fazer registro. Já eram umas 9:50 e faltavam 10 minutos para a primeira aula começar, quando as meninas me disseram que Awal não tava conseguindo o motoqueiro (ele tava “tentando” desde às 7:50), isso me deixou realmente chateado. Entre o material, estavam o mapa, papéis e giz de cera, ou seja, tudo o que eu tinha montado e planejado para dar aula. Essa não é a primeira vez que sou pego de surpresa né? Como outras vezes dei aulas bem mais longas do que pensei em dar ou 2 vezes na mesma turma dois dias seguintes. Era hora de tirar o coelhinho da cartola! Conheci então Ms. Anie, a professora de inglês da escola (é, lá eles tinham até professora de inglês) e ela me perguntou se eu precisava de algum material, então pedi um Dunia (globo, mundo) e eles tinham (surpresa). Depois de pegar o globo, ainda consegui dar uma voltinha pela escola, a estrutura era um pouco parecida com aquela de Paul e de Fiqih que eu já descrevi antes. Para minha surpresa as crianças tavam bem animadas e curiosas, me perseguindo e me olhando escondidas pelos corredores. Ali todo mundo usa farda, usam sapatos, roupas limpas e estão limpos (higienizados), um pouco diferente da outra escola. Essa estrutura oferece bebedouros, sala de música, jardim, quadra. Os professores têm sala, o diretor tem outra, posso reafirmar que as escolas públicas daqui dão uma pisa nas do Brasil (na maioria), não me refiro as escolas de referência para gravar guia eleitoral. Não falta nada! Ia começar uma maratona de aula, eram 3 aulas de 40 minutos seguindo uma da outra. A aula tem uma introdução, mas passa pelos continentes, cores, formatos e números. Consegui tocar tudo isso exatamente no tempo certo. Encaixou! No final da aula Ms. Anie nos chamou para a sala do diretor, para nos conhecermos. Pessoa muito tranquila, muito gente boa e muito agradecido pela minha presença na escola dele. Pediu só um feedback dos alunos. O que falar daqueles alunos depois de passar pela escola informal né? Eram lordes ingleses, que no final das aulas agradeciam em conjunto e se empenhavam nas respostas, tudo isso com um inglês básico que estabeleceu uma conexão sem muita tradução.

Chegando em casa lembrei da promessa de fevereiro (ler Sapiens) e me deparei com o calendário já no dia 6. Como o mês só tem 28 dias, eu já perdi 6, ainda vou perder 27 e 28 (quando vou encontrar Cláudia nas Filipinas) e o livro tem 428 páginas, fiz um cálculo rápido e cheguei no seguinte resultado: to fudido. Então fui correr com a leitura, e escrevi um pouco. Já a noite Awal me manda uma mensagem se desculpando, igualmente aos outros membros que não puderam comparecer (era o primeiro dia), para a mensagem de Awal no privado eu preferi nem dar resposta. Dizer que ele era “enrolão” e meter um “bullshit” tava entalado na ponta dos meus dedos, então preferi responder com o silêncio. Simplesmente o cara poderia ter cagado todo o dia de aula, toda vez ele conta com a minha vasta experiência em ser professor (nunca fui professor antes), para tirar aulas do bolso. Abri a conversa no app LINE (whatsapp daqui) e fechei. Depois de umas meia hora ele veio pelo whatsapp e pediu para eu ver a mensagem no LINE, só respondi assim: Já li. Então ele, muito confortável, veio me falar sobre uma apresentação de uma hora que eu faria numa outra Universidade sobre o brasil e indonésia no final de semana. Ele nem ao menos sabia do que se tratava a apresentação, se eu precisava apresentar dados econômicos, cultura, diferenças e etc. Só disse que eu dividira tempo com um outro voluntário, mas que também não sabia quem seria. Esse cara joga duro para me tirar de sério. Mas pelo menos ele enviou a noite o material para minha casa.

No outro dia a aula começaria as 8:20 (nessa escola eles rezavam mais cedo), e daí partiríamos para guerra de novo. Eu sabia que usaria a mesma aula porque seriam turmas novas, então fui pronto e preparado! No nosso grupo do LINE eu perguntei quem me acompanharia, é importante para mim uma pessoa para traduzir não só para que minha mensagem seja entregue sem restrição, mas também para entender o que eles estão falando para que eu possa ajudar, explicar ou melhorar na aula. Kitan ficou doente e Awal me acompanharia. 8:20 eu já estava na escola me apresentando a Ms. Anie, que rapidamente me perguntou onde estavam meus amigos para ajudar, eu embaraçosamente, disse que começaria sem eles e perguntei se ela podia me ajudar. Awal chegou 40 minutos atrasado de carona com um amigo que nos acompanhou no resto das aulas. Ao entrar na sala, ele olhou para mim, mas não consegui nem o cumprimentar, o diálogo era curto e eu só falei com ele quando realmente precisava, já que Ms. Anie seguiu para as aulas dela. As crianças realmente eram diferenciadas, então graças a deus elas desenrolaram muito bem, e algumas dela aprenderam um inglês bem legal com joguinhos de celular (clash e etc). Cada turma que eu entrava já ia mais ou menos com o texto pronto, com as mesmas brincadeiras e só mudava alguns pequenos detalhes diante da compreensão dos alunos ao decorrer da aula. No final, todas sempre agradecem, se organizam em fila e vem me cumprimentar (testa, bochecha ou boca na minha mão), todas pedem me “autografo” e querem saber meu instagram. Isso quando não me pedem o número do celular (kkk). No recreio das crianças ficamos na sala do diretor na companhia de Ms. Anie, muito atenciosa e bacana, depois nos trouxe donuts, água e balas para nós. Peguei uma água e um Donuts e Awal encheu o bolso de bala, envergonhando até o amigo dele. Eu tava P* da vida já com esse cara, então saí da sala para tirar umas fotos da escola, mesmo sem o mínimo saco. Na volta da aula, passei uma atividade que me deixou um pouco mais tranquilo, sem precisar de muita interação. E nessa hora coincidentemente a “diretora” do programa, Momo, me perguntou como andava a aula. Não me contive e respondi que estava ótima, mas que Awal chegou com 40 minutos de atraso, o que atrapalhou a professora de inglês, e que eu não podia mais depender dele para minhas atividades ou para simplesmente me mandar avisos, não dava. Assim como a grande maioria do povo aqui, ela puxou a responsabilidade para ela e assim colocar panos quentes na situação. Aqui ninguém faz grandes mudanças ou questiona muito, então se resolve só empurrando com a barriga mesmo até onde der. Mas ok, acabei a aula e segui para casa. Aquela lição de “cada um tá fazendo o que pode, o seu melhor” tava perdendo o sentido para mim, eu não achava que ele tava dando o máximo dele, principalmente porque os últimos dois eventos (falta de material e atraso) foi simplesmente relaxamento, e não algo que deu errado. Eu to tendo uma paciência de Buda mesmo, deve ter sido as influencias do final de semana passado. Em casa eu li, li, assisti TV e nem tive tempo de escrever, a semana tava corrida e ainda fui na lavandeira e supermercado para comprar umas coisas. Na volta do mercado, encontrei Ibu lendo o Sapiens que dei a Paul (e Jordan já que os dois estão lendo), aquilo me deixou um pouco preocupado porque não sei como ela reagiria, mas no final de contas não esboçou nem uma forma de raiva nem conversou comigo sobre o assunto demonstrando preocupação. Isso é bom.

O livro fala sobre a evolução da sociedade atual, como nós chegamos a isso que somos hoje. Uma história fundamentada em diversos eventos e provas do passado para explicar a nossa personalidade e forma de pensar. Como ainda tô na Revolução Agrícola, não posso falar tanto sobre o livro, mas até agora tô achando muuuito legal e completo, principalmente porque gosto de história. Só sinto sono as vezes que leio porque o livro não me proporciona o jogo de som e imagens que um filme ou série proporciona (eita que cara aculturado).

Para o terceiro dia de aula, não pude contar nem com a mala sem alça do Awal, todos os membros pediram desculpa e me perguntaram se tinha problema de eu ir dar a aula só. Cheguei na hora certa e Ms. Anie me chamou, graças a deus, eu estaria dando a aula nas salas dela, com a cia dela para me traduzir. O único problema é que seriam aulas um pouco mais longas, o que já não é mais problema para o mágico aqui, desenrolamos. Foram 3 aulas de 1 hora superprodutivas, ela me jurou que eles adoraram e ela achou muito dinâmica (ótimo).

Cheguei em casa por volta da hora do almoço e, de novo, só encontro Jordan. Perguntei se ele queria fazer algo e ele prontamente se dispôs. Não demorou muito e ele já tava tomado banho e vestido me esperando para sairmos. Pegamos o carro e fomos em direção a Jakarta, ele me disse que sempre prefere sair por lá, pelos lugares e por ter mais amigos na cidade. Mas o negócio dele mesmo é coffeeshop, esse macho ta em coffeeshop todo dia. Não podia ser diferente e ele me levou em um que ele adorava, o Dua. Cheio de gente descoladinha no meio da tarde, reuniões e lazer (aparentemente), ambiente legal. Show de bola! Batemos papo para cacete, ele pergunta muito sobre o Brasil, gosta de ver vídeo de festas daí, ver as roupas, ar nega se agarrando com os rapaze, auhhmm Pabblo Vitar e Anitta, entre outros cantores daqui claro! É tudo muuuito diferente para ele. Eu to marcando uma viagem a Bandung, uma cidade há umas 3 horas daqui, e ele já se escalou. Eu não sei se é pela diversão ou porque a ex dele mora lá (ainda to descobrindo), para mim vai ser um prazer! Bandung tá cheio de brasileiros, e coincidentemente outros voluntários daqui vão tá lá nessa mesma época, então inserir ele em um contexto diferente da realidade dele, pode dar um gászinho ainda mais na cabeça do mo minino. Conversa vai, conversa vem, ele me disse que um amigo dele tava chegando para se juntar a nós (Boa! curto mto conhecer gente nova!). O cara não demorou 30 minutos e já tava lá, aparentemente o cara todo descoladão pra frente, não muito usual em Depok, mas ele era de Jakarta. Entre uma conversa e outra, ele me disse que era muçulmano. Mas pera aê, esse muçulmano aí tá diferente. Ele é um muçulmano javanês, aparentemente existem várias linhas de pensamento como existe no cristianismo. O muçulmano javanês, apesar de acreditar em alá e etc, mantem muitas tradições do povo antigo dali. As oferendas são para plantas, animais e natureza em geral, era mais sobre fazer o bem do que seguir regras.

Começando por esse papo, fomos um pouco mais a fundo. Como não tenho tanta liberdade ou pro atividade pela outra parte de conversar muito sobre questões religiosas e política, encontrar um cara desse é como se fosse uma mina de ouro. Aqui, como eu já falei, existe uma questão entre os indonésios e os chineses, os chineses são melhores trabalhadores (?), são mais ricos (?), ocupam os cargos mais altos da empresa (?), e isso causa um desconforto entre os dois povos. É muito difícil de ter a compreensão dos locais que os chineses não são seus inimigos, afinal por que seriam? Se é acordado que de fato eles são melhores profissionais, vamos expulsá-los do país ou absolver tudo o que podemos dele? Modo de pensar, de agir, aprender tudo que temos que aprender com os melhores. O país cometeu um equivoco claro colocando na cadeia o ex-governador de Jakarta, a simbologia que isso representa é muito grande para qualquer empresário ou cidadão comum que tenha um pensamento um pouco liberal e até capitalista que queira se candidatar a algum cargo. Aqui a diversidade cultural, a progressão econômica, o bem-estar da população e a erradicação da pobreza tem muito menos importância que as tradições e a religião (e a corrupção). Se você quer ser um politico e impactar a vida dos indonésios, tenha cuidado, olhe onde você pode parar.

Para manter a cultura, as tradições e a religião, o governo (democrático, aham) toma várias medidas que causam uma ilusão de liberdade nas pessoas. Logo no terceiro e quarto presidente pós ditadura, instalou-se um grande esquema de corrupção no país, o presidente manda e seus filhos em cargos públicos administravam o lobby com os empresários (mal lobby). A permanência no poder é muito fácil quando você alinha a politica com a religião usufruindo do nome de um deus que retém a devoção de 90% da população. As pessoas pensam que estão informadas, assistem o que quiser e conseguem pensar pra frente, serem modernas. Na verdade, a grande maioria não conhece John Travolta, via Sindy (de bob esponja) com censura ao usar biquíni. As músicas, os filmes e as séries não contém violência, não falam sobre corrupção, não contém sexualidade e nem se quer um beijo na boca. Netflix é para poucos, Blackmirror é para poucos. Alguém consegue imaginar qual o papel de todo esse conteúdo na nossa vida? Para nos fazer pensar fora da caixa (para pequena caixa daqui, já fazia grande diferença), refletir sobre qualquer assunto? Como podemos reclamar de alguma coisa que não sabemos que existe, como podemos sentir falta de algo que não sabemos que existe? É surreal! Mas o papo deu uma amansada e voltou um pouco mais para eventos (kkkk), esse amigo de Jordan seria sócio dele nas festas. Depois disso não demoramos muito no Coffee Shop e fomos encontrar com outro amigo dele em outro coffee shop (kkk), mas ali era pra ser só uma passagem para seguirmos para um bar. Nessa passagem deixamos o amigo de Paul, ele só encontraria a gente depois. O motivo, o muçulmano pra frentex foi paquerar uma menina lá (kkkk). No carro Jordan foi me explicando que esse papo de pegar nem se tocar ou só pegar na mão, casar para transar e etc era furada. As moças mantinham as aparências porque a sociedade julga muito, mas geralmente, meninas e meninos tiram a virgindade mais ou menos aos 17 anos. Isso é um grande segredo entre todos eles, nem comentam muito entre eles nem expõe as relações para ninguém. É verdade apenas que os mais radicais se mantém assim, mas é tão exceção (segundo ele) que ele conta nos dedos os amigos que percorreram o caminho mais sério do islamismo.

Chegamos no bar, pedimos a cerveja da estrela vermelha que eles tanto me falaram. Não é Heineken, é Bitang. Apesar da Heineken ter um preço bom aqui, porque tem produção local. A Bitang é a cerveja mais importante da Indonésia. É gostosa, mas bem suave. O amigo de Paul voltou e ficamos ali por umas 2 horas quase. Tomei 3 cervejas enquanto eles tomaram 1, e infelizmente, fumei um cigarro. Ainda me enganando porque não tinha quebrado a promessa de janeiro (fuoda). Dia legal, produtivo. Zero leitura, muito conhecimento. Voltamos ouvindo vários cantores brasileiros e indonésios. Entre eles o Roberto Carlos (mais para Belchior) e a Ivete Sangalo daqui. É isso aí, fui!

One thought on “Fora da caixa

  1. Claudinha

    Fiquei tensa com ibu lendo sapiens.
    Jordan é interessante ne, massaa a curiosidade dele. A cada texto teu eu fico mais de cara com o poder da religião sobre as pessoas ai.. Mas se bem que pensando bem a galera da igreja universal e etc aqui não é mt diferente nao. 😦
    Beijo lipin

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