Vida que segue

 

Um dia muito calmo e legal em Jakarta, infelizmente não tive tanto a presença da amiga Leticia que estava de cama. Passei o dia lendo e escrevendo e a noite tinha marcado com um amigo de infância para encontra-lo em um bar em Jakarta. Tomás morava na mesma “vila” em que alguns primos meu de Recife, quando era criança ia muito lá mas depois nos distanciamos com o tempo. Assim que cheguei em Jakarta, o face me mostrou os “amigos” e “amigos de amigos” que moravam lá e foi assim que eu entrei em contato com ele pela primeira vez.

Um mês depois da minha chegada por aqui, Tomás, que na verdade não morava em Jakarta, estava vindo de Papua e passaria a noite por aqui, então marcamos uma cerveja para bater um papo sobre o país e como andam as coisas. O cara é piloto comercial de uma linha aérea local que faz transporte de tudo (alimento, pessoas e até bichos) em avião pequeno dentro da Papua, mas antes disso passou por outras ilhas da Indonésia, já tá há um ano e meio aqui. Fomos em um rooftop perto do centro. Aesar da distância e não nos falarmos por muito tempo, pareceu que tínhamos muita coisa para contar, então o papo fluiu. Principalmente sobre as experiências dele ao decorrer de todo esse tempo pilotando em um extremo com pistas em condições precárias com controladores que só falavam em Bahasa Indonésia, condições só comparadas a pilotar na Sibéria ou nos árticos, por exemplo. Além disso muita reflexão sobre as coisas que deixamos de lado para evoluir um pouco, o que vale a pena manter e o que não vale. Que “sacrifícios” devemos fazer para evoluirmos como pessoa, seja profissionalmente ou pessoalmente. No final das contas não são sacrifícios, afinal as desafio e circunstâncias que uma sociedade diferente nos impõe soam são rapidamente compensados todos os dias ao serem cumprido. A importância de manter a sinceridade na cabeça e saber para que veio, ajuda em qualquer missão. No final das contas trata-se de uma evolução pessoal, por mais que seja voluntariado ou pilotando para pessoas humildes em lugares precários no “fim do mundo”. Um sorriso de uma criança, uma bela vista de cima de lugares praticamente intocáveis, entregar arroz numa comunidade isolada, uma conversa que mude o futuro de alguém aqui, tudo isso é muito gratificante, mas sabemos que no fim da conta queremos nos encontrar, evoluir e até ter mais horas de voo para alçar novos desafios.

No face hoje li um texto legal que um amigo compartilhou de um outro intercambista por aí pelo mundo. É verdade que pode parecer muito impactante, mas é possível extrair várias ideias que correspondem ao sentimento de quase todos em que estão desfrutando dessa viagem assim como eu, então resolvi colar aqui:

“Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.
Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria:

Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.”
Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.
Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.
Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.
É preciso ir embora.
Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.
É preciso ir embora.
Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…”com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música”ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.
Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.
As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.
_____________
Por: Antônia no Divã

 

 

Tem muito a ver com sinceridade, com desprendimento, maturidade, aceitação e a impermanência que já conversamos aqui. Se esse realmente for o caminho certo, essa forma de pensamento nos aproxima da estrada. Eu não gosto muito de radicalizar tanto nas palavras e principalmente quando são sobre sentimento, qual nunca tive tanto tato ou jeito de expor, certamente esse rapaz do depoimento se desfez de algumas amizades que o fizeram ter a frieza e ao mesmo tempo a consciência de escolher as palavras dessa forma. Mas no final de contas é o bom e velho “vida que segue” que está sempre presente nas nossas vidas.

Voltando a noite, saímos de lá para o Beergarden que eu já tinha ido com Gunnar, Leticia e o outro brasileiro lá atrás porque fechava um pouco mais tarde (às 2) e ainda arriscamos uma “balada” que não nos permitiram a entrada porque estávamos de bermuda de havaianas (hehe) então cada um tomou seu rumo para casa. No outro dia acordei umas 10h na casa do casal nota mil, tomei banho e não demorei muito para partir. Era segunda, Leticia tava melhor e tinha ido trabalhar, Gunnar ficou em casa porque adoeceu e no outro dia eu voltava as aulas. Perguntei a Sukini (secretária da casa) qual era o terminal mais próximo dali, e fiquei de cara depois de 20 minutos de moto chegar num terminal que já me era familiar (Pasar Minggu Station), então “easy game”, consegui carregar meu cartão de transporte e acertar no metrô em direção a Depok, de lá peguei outra moto e em 1 hora já tava em casa (me achando o desenrolado fazendo isso pela primeira vez sozinho).

Cheguei em casa, todos tavam no trabalho, faculdade ou colégio. A não ser por Jordan que não conseguiu renovar o contrato com a empresa e tava em casa de bobeira. Cheguei um pouco cansado (sei nem de que) e falei pra ele que ia dar uma deitada, mas que precisava ir no shopping mais tarde, se ele quisesse me acompanhar seria bem-vindo. Então saímos de casa depois de uma hora e seguimos. Lá no shopping troquei dinheiro (jaja to liso), coloquei mais credito no celular (liso de verdade) e fomos no BK para pegar uma promo maravilhosa que tava rolando. Para minha infelicidade, acabei descobrindo que o “Muslin Friendly”, na verdade era uma obrigação na cidade de Depok, e que por aqui não existe bacon (kkk pqp), no beer, no bacon (querem me fuder). No BK encontrei outros voluntários e pessoas da AIESEC, sentamos muito e batemos papo. Manoel (o mexicano) me parecia meio incomodado, tava curto e grosso com a turma lá, então perguntei pra ele se ele tava tendo problemas. E a respota foi clara: sim. E os mesmos que eu. O que se confirma aquela teoria de Cecilia (que eu falei em um dos primeiros posts) sobre a boa vontade mas falta de habilidade das pessoas da AIESEC em administrar os programas. Não é só Awal, ele também tava sem saber qual seria o Schedule dele do dia seguinte (whaaaat), e isso tava irritando muito ele (óbvio), principalmente pq não era a primeira vez.

Passamos ali ainda uns 40 minutos, mas seguimos porque eu ainda ia tentar passar na lavandeira para pegar as roupas que eu deixei antes de ir para Jogja. No carro mesmo vi no papel da lavandeira que já estava fechada, então Jordan me perguntou se eu não queria ir num Coffee Shop, assim como no brasil, Coffee Shop e barbearia é febre. Até a arquitetura “industrial” tá na moda (é mundial eu acho). Mas o café que ele queria me levar tava fechado e terminamos na Starbucks mesmo. Pedimos o café e em 3 minutos já tava na mão, sem lugar para sentar (tudo cheio) sentamos do lado de fora na calçada que aí ele podia fumar. Esse cafezinho aí durou mais ou menos uma hora. A conversa passou de conselhos amorosos, até viagem e carreira profissional.

Jordan, como eu já disse aqui, não é um cara religioso, mas independente disso é um cara muito legal e como a maioria do povo que eu conheci (por enquanto), bastante inocente. Pulando o assunto da vida amorosa dele, vamos a profissional e viagem. Ele me pediu dicas do que ele devia fazer (eu, logo eu, perdidinho no espaço) mas dar conselhos aqui para pessoas dispostas a enfrentar o novo como ele, é fácil (Jajá eu viro coaching de vida aqui, espero tá dando os conselhos certos). Muito do que eu falei para ele foi parecido com o que disse a Fiqih, mas para ele é muito mais fácil porque ele não tem a “amarra” religiosa para o impedir de crescer, evoluir, conversar sobre qualquer assunto e seguir. Filmes estrangeiros, livros estrangeiros, tudo que o mundo possa proporcionar a ele fora dos sites da Indonésia, das noticias daqui. Ver franquias e modelos de negócios de outros países (ele tem vontade de empreender), e até fazer eventos em um dos nossos mais diversos formatos no brasil (como openbar que não existe aqui), o olho dele brilhava. E ele até me disse que Ayah está se aposentando em julho, e pela primeira vez eles vão todos ter a oportunidade de ir a outro país. A empresa proporciona uma viagem a Israel para os funcionários que vão se aposentar. Se empolgou muito com a questão do evento também e até me ofereci para ajudar se ele quiser fazer algum até o final do mês para os voluntários. Papo vai, papo vem já era hora de voltar para casa, afinal no outro dia era o primeiro dia de aula na nova escola!! A Beji 7, uma escola do estado (formal) e aparentemente totalmente diferente do que eu vi na outra. Beijos e é “vida que segue”.

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