Yogyakarta – Voos mais altos

O terceiro dia de Jogja foi o único que nos demos a liberdade de acordar mais tarde. Não tinham programação longe, e os outros pontos turísticos ficavam todos perto um dos outros. Nesse dia iríamos para 2 dos lugares que aquele motorista enrolão lá não nos levou e ainda uma rua que era uma grande feira. Todo eu tava enrolando umas meia hora, 40 min na cama por conta do banho. Esse dia acho que foi mais de uma hora. Lembra que eu tinha reclamado do “Ice Bucket Chalange”? Pronto. Saudade! O banho nesse hotel tava sendo de chuveirinho de bunda. A privada dividia o espaço com o box, então facilitava um pouco para se molhar. Ainda no banho tinha uma torneira perto do chão, pedi até um balde na recepção (tava fazendo falta), mas nada. Dali saímos quase na hora combinada com os Australianos, com um gapzinho de tempo suficiente para ir no Taman Sari (Water Castle). O Taman Sari foi construído em 1755 para ser o palácio do primeiro Sultão de Jogja, tem esse apelido por ter um grande lago artificial no centro. Não deu para entender direito como ele é formado, tem várias estruturas “espalhadas” que compõem o palácio, dentro dele várias comunidades, isso dificultava entender como era a sua formação. Essa primeira parte do palácio não me chamou muito atenção, ainda mais com a correria que foi porque ia cair uma chuva danada. Em direção a outra parte daquela estrutura, encontramos um café e resolvemos esperar a chuva passar. O café pequeninho mas bem organizado, tratava-se de um coffee shop de Luwak Coffee. Para quem não sabe, o Luwak Kopi (ou Café Luwak), é um café extraído das fezes do civeta. Civeta é um mamífero mais ou menos do tamanho de um gato que tem hábitos noturno. O pessoal que trabalhava ali no Café era muito simpático, me ofereceu até degustação de café depois que resolvi pagar por uma quantidade pequena (75g) para presentear Ibu que adora café. Todo o processo para produção daquele café foi explicado por uma mulher muito gente boa que tava lá, ela disse que o café dela era antigo e ficava na Rua Malioboro (conhecida lá), mas que o a crescente dos impostos, resolveu se mudar para aquele outro lugar. Ela garantiu que o café dela é fornecido por uma comunidade que mora perto de uma floreta e colhe o cocô do da civeta de forma natural, e não sob confinamento como tem acontecido bastante hoje em dia. Funciona assim: A civeta vem num cafezal, faz uma seleção natural dos melhores grãos pelo olfato, engole esses grão, junto com outros alimentos que eles costumam consumir (bem temperados, tipo canela e etc), e defecam por aí. Depois disso o pessoal dessa comunidade, que já faz isso há anos, sabe onde geralmente as civetas fazem o coco e colhem para secar. Os grãos de café verde ficam praticamente intactos, mesmo assim é necessário tirar todo o excesso e secar apenas os grãos para depois tostar. Depois é só moer e tomar. Realmente, eu que não sou degustador de café, sou tomador de café safado mesmo, daquele que tomam os cafés barato de empresa (uns 5 por dia), estando ruim ou bom, mas aquele ali era diferenciado, era mais encorpado e mais forte. Mais gostoso também! Ali eu tomei a primeira xícara, mas a chuva não parava, e como a gente ficou até estiar, eles me deram mais outra e conversamos bastante. Uma hora o cara que parecia ser o dono foi para cozinha e fritou umas fatias de fruta pão com alho sal e pimenta, ficou muito bom! Nunca tinha comido fruta pão. Tentei brincar um pouco com o Civeta de estimação que eles tinham, mas ele deu uma mordidinha de brincadeira que tirou minha confiança. E no final ela me deu um caderno para escrever alguma lembrança, no caderno já tinham coisas escritas de pessoas de vários países diferentes. Então a chuva já valeu! Aproximou pessoas massa e proporcionou uma experiência nova, uma coisa que eu queria provar.

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Pouco antes da chuva parar, os australianos já tinham desistido de paintball e de passear, a chuva tava foda mesmo. Então eles seguiram de volta para o hotel e eu e Fiqih seguimos na nossa caminhada. Passamos por algumas ruínas que faziam parte do palácio e procuramos muito umas escadas que eu tinha visto em foto. Para procurar essas escadas foi um nó cego dentro de uma comunidade lá. Eu pedia a Fiqih para ele perguntar como chegava, e ele não ficava a vontade para isso. O povo aqui tem essa “limitação” de não querer “incomodar” a um ponto de terminar se prejudicando. Uma mulher numa loja tinha oferecido para nos guiar (pagando claro) para lá, e eu tinha negado, mas como cruzamos com ela levando umas turistas num beco por aí, ele rapidamente chamou minha atenção para ficarmos parados e não “seguirmos” ela, para ela não achar que a gente tava se aproveitando. Pelamordideus né? Kkkkk só eu mesmo. Segui mesmo, e fiz ele ir comigo para deixar de queijo. Chegamos lá e realmente, apesar de malconservado era um lugar massa. Mas como tinha bastante turista, atrapalhava um pouco. Eu sabia que aquele não era o dia de ver coisa muito bonita, que inclusive minha cota de surpresas (com o Prambanan e Borobudur) já estava passada.

Então seguimos para o Palácio do Rei, e mais uma vez tivemos a infelicidade de encontra-lo fechado a visita do público. Seguimos para o próximo ponto do nosso roteiro que era a Malioboro Street, uma rua bem famosa talvez pelo comércio informal. Um monte de barraca na rua de comida, roupa e qualquer outra coisa que você imaginar. Eu tava sem muito interesse por essa parte, mas Fiqih comprou coisa para Deus e o mundo. Inclusive me perguntou se no Brasil não existia a tradição de comprar presentes para a família e pessoas próximas em uma viagem. Expliquei para ele que até era, mas que o formato de viagem que eu tava fazendo, com um budget muito baixo não permitia sair comprando coisa, ainda mais porque eu vou ter que carregar tudo na mala até o dia 22 de março. Então daria só amor quando eu voltar mesmo (kkkkk) ele riu para cacete, mas achou uma boa ideia. Para não dizer que eu saí de mãos abanando daquela rua, comprei meu primeiro camisa de Batik, custou apenas 50 mil rps, mas chorei para caceta no preço, to chorando por tudo aqui não sei porque. Depois que eu converto chega da uma vergonha kkkkk.

Ali já tinha dado a hora, passado inclusive. Precisavamos voltar para o hotel para pegar a mala e partir para o aero. Fiqih queria chegar com umas 3 horas de antecedência (falta de experiência traz essa insegurança), mas conseguir convencê-lo e chegamos com 50 minutos (kkkk). Faltando 20 minutos para o vôo deu a hora da reza dele e ele foi tentar fazer numa sala de reza no aero, foi uma correria para ele entrar no avião, mas deu tudo certo. O vôo em si é muito rápido, mas fomos conversando sobre uma viagem que ele vai fazer em Julho. Naquele dia antes de entrar no avião, o pai dele tinha mandando uma mensagem dizendo que conseguiu as pesagens para ele, e que em julho ele tá indo fazer um curso de 1 mês no Japão. Eu já sabia dessa intenção dele, mas não sabia que era para já. E muito ansioso, no avião ele me perguntava para quais países eu já tinha ido, disse que era a primeira vez que ia viajar para tão longe e pediu conselhos sobre como ele deveria se comportar para tirar o melhor proveito dessa viagem. Bem, uma frase que tá ficando meio usual no meu vocabulário quando eles me pedem um conselho é “Open your mind”, não deixe a religião, os seus costumes e as imposições políticas que o seu país impeçam você de crescer, de conhecer e se aprofundar. Procure filmes estrangeiros, leia livros sobre assuntos “nebulosos” para sua cultura e tire todas as suas dúvidas. Simplesmente vá! Não deixe que sua religião ou o que seus pais te disseram um dia, impeça você de conhecer algumas pessoas (australianos) num bar a noite, que seja. Ir para tão longe para estudar numa sala de aula não era o propósito daquela viagem dele, isso ele faria aqui. Lá a viagem é para ter uma troca, viver como eles assim como eu tava fazendo aqui. Se deixasse levar para entender como funciona, mas conhecer e se aproximar do maior número de pessoas possíveis, de repente assim surgiria uma oportunidade. Quem sabe ele não se apaixonasse por lá ou mesmo pelo país e obtivesse na vida uma meta de ir morar lá, juntar dinheiro e encontrar uma boa profissão para seguir a vida longe das limitações daqui? E assim talvez pudesse ajudar ainda mais a comunidade e os pais dele. Quem sabe? Para saber ele tinha que voar mais alto, sair da gaiola e parar de baixar a cabeça tanto. Entender o mundo e aprender como viver. Deu para ver que ele captou a mensagem e que taria disposto a isso, eu realmente espero muito. Fiqih é um menino muito puro e inocente e também limitado ao que os pais e a religião lhe permitem, mas essa faculdade de Japonês me dá um ânimo. Dá uma vontade de investir essa energia nele para que ele saia, que ele viagem e aprenda. Acho sinceramente que não estou desperdiçando tempo, ainda espero ver ele indo além dos outros.

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Chegamos no aero de Jakarta e tínhamos que seguir. Fiqih ia voltar para casa e eu combinei com Leticia para ficar na casa do casal nota mil por uma noite. Então eles pediram para Dani the Driver me pegar no Aero. Foi muito legal vê-lo, deu para ver que ele sentiu o mesmo, foi uma viagem de 1 hora onde ele ria bastante e me perguntava coisas de Depok “be careful, Depok Dangerous dangerous” (kkkkk), ele é cheio das ideias erradas, tava tentando explicar a ele como Depok era mais calmo e mais tranquilo que Jakarta. Mas as opiniões dele já são bem formadas e difíceis de mudar. Então chegamos em um condomínio que não era o de Leticia e Gunar, eu sabia que eles estavam num churrasco e que encontraria eles lá, mas pensei que era na casa de Marcela e Gustavo, o outro casal que fomos na casa no condomínio. Na verdade, dessa vez foi na casa de Alex e Adriana, um outro casal de brasileiros, que estão aqui há 16 anos (fiquei de cara), desde 2002 o pessoal tá em Jakarta, só com uma rápida passagem por Bangkok. Na verdade, não sei o que motiva, mas seja o que for, deve valer muito a pena. Para morar em Jakarta, você abdica de muita coisa, sem falar da família e dos amigos. Mas esses pareciam bastante habituados a viver ali e os filhos bastante confortáveis e tranquilos com essa situação. No problema at all. Ainda quero viver uma experiência dessa, com a família em um lugar diferente, bem longe dos costumes e cada um com seu aprendizado trazendo para mesa de jantar no final do dia. Legal né? Tomamos umas cervejas, e o churrasco tava uma delícia! Fazia tempo que eu não comida algo não frito ou industrializado, não sei nem como mostrar gratidão por isso! Haha. Conversamos bastante sobre quais empreendimentos seriam aplicáveis no brasil, modelos de negócios para copiar (claro que não vou dividir aqui), conversamos sobre como é a minha vida com os locais por aqui, em depok. E sobre os planos do futuro. A noite foi rápida para mim que chegou bem depois, mas foi muito legal! Tava saudade de falar umas palavrinhas em português, não calava a matraca!

Desculpem as fotos, perdi todas desse dia, ficaram só a de celular.

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