Desprendimento

Pois é, ontem eu acordei sabendo que esses seriam os últimos dias de convivência com boa parte das pessoas que conheci aqui, as crianças da Sekolah Master. O projeto segue e eu não posso limitar a minha estadia a passar meu conhecimento, que vem mais em forma de carinho do que de conteúdo, a uma só escola. O cronograma aponta ainda mais 3 escolas e 3 comunidades com as “outside classes”. Eu sempre tive consciência em saber quando serão os últimos encontros com certas pessoas na minha vida. Desde pequeno nas férias que passava longe em alguma viagem em família, até se concretizar com o intercambio quando deixei vários amigos que eram, de fato, a minha vida e rotina por 1 ano de vida. E sabia que nesses próximos dois dias que isso tava se repetindo.

Acordei, assim como todos os dias, tomei meu banho e café e segui. Tava com a cabeça cheia  com alguns problemas pessoais no Brasil, e por mais que eu tentasse combater para ir de coração aberto aproveitar os últimos dias naquela escola, não tava conseguindo. Naquele dia, sem saber, ia dar aula em duas turmas diferentes. Não tinha me preparado para aquilo (Boa Awal) e com o pensamento longe seria ainda mais difícil. Não consigo sequer me lembrar do que passei nos primeiros 30 minutos em sala, mas sei que foi relacionado a família, laços e parentescos. Pessoas próximas da sua convivência e uma atividade de desenho que servia mais para eu ganhar tempo do que para, de fato, repassar algum aprendizado. Essa era uma turma que eu falei com uma certa distância numa certa passagem rápida em um post anterior. Por não conseguir reter muito a atenção das crianças no primeiro encontro, talvez aquilo tivesse me afastado um pouco da maioria, me concentrando em um grupo menor que tinha mais vontade. Mas dessa vez tava sendo diferente, essa atividade descompromissada foi levada a sério, e mesmo sem esforço, tive a atenção de todos ali. Todos fizeram questão de me mostrar suas famílias e por quem eram compostas e aquilo exigiu de mim um mínimo de atenção, que foi me trazendo de volta aquele ambiente e a eles. Emendamos aquela atividade com um jogo que exige foco delas, e todas (sem exceção), participaram com bastante atenção e comprometimento, sem perder a diversão e o carinho. Inclusive alguns ficaram o período que era de intervalo na sala comigo querendo saber mais sobre a localização dos países no mapa e muuuita brincadeira, acabei completamente suado. Meu dia já parecia ter tornado, bateu uma brisa da mudança de humor. Acabei essa aula mais para cima, e em menos de 15 minutos depois, seguimos para o andar de cima onde eu daria aula para as crianças da classe mais velha da escola (grade 6). Com essa galera eu já tenho mais intimidade, mais gingado. Eles me receberam muito bem da primeira vez e não fizeram diferente dessa vez. No final da aula, fui surpreendido por uma carta que duas meninas me fizeram e entregaram junto com um chaveiro de coração (meio feito a mão), o bilhete estava em português, provavelmente traduzido pelo google, com os seguintes dizeres:

“Hy Mister Felipe!

Obrigado Sir Felipe!.

Você veio ao nosso

Pais e escola.

Espero que essa não

Seja sua última visita…

Obrigado por ensinar

E nos ajudar a aprender inglês também.

Temos algumas lembranças

Para você nunca nos

Esqueça, Obrigado…

Saudações a sua família

Também a sociedade brasileira.”.

Bem, se eu tinha a cabeça cheia, a mente pesada eu não lembro. Aquilo ali me desarmou de qualquer pensamento ruim que pudesse tá minimamente passando por aqui. O respeito, a pureza e a gratidão naquele bilhete me fez transbordar em felicidade, numa hora em que eu já cumprimentava todos os alunos, receber aquilo chega me desmontou. Voltei para casa com o coração preenchido, queria mesmo é manter o programa só naquela escola. Foca num só lugar, talvez com mais tempo conseguisse fazer a diferença, fiquei pensando.

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Exaurido de força, não dava nem para andar, cheguei em casa e dei aquele velho chilo. Acordando, li um pouco do Sapiens depois fiquei na sala reunido com a família enquanto assistíamos “Nadine”, produção Bollywoodiana dublada em bahasa indonésia. Eu não entendo, mas assisto todo dia, eles se empolgam demais então parece bom, estendendo e ficando até mais tarde só com Paul e Jordan vendo “A Ilha do Medo” para fechar porque no outro dia seria mesmo o último dia.

Para hoje, eu acho que já tinha ido forte (Depois daquela de ontem né?). A aula se repetiria na mesma sala, já ia ser a terceira vez enquanto tive 2 em cada uma das outras. Mas pela primeira vez ia ser uma aula das 8:30 as 12h. Admito ter lido algumas dicas no Pinterest no caminho para a escola, e foi dessa olhada rápida que consegui desenvolver todo o restante do dia praticamente (obrigado pela dica Kerol!!). Já comecei meu dia bem na escola, quando vi Ipan, um menininho cabeçudinho de 2 anos que mora na vila ali do lado da escola e vem me cumprimentar todo dia muito alegre (é muito engraçado, para quem me tem no insta é o “popó” de um story que fiz uma vez no insta). E da lá já sabia qual seria a sala que ia seguir. Chegando na sala dou meu “Paaggi” (diaa) para turma e já recebo um “moorning” caloroso de todo mundo (do mais bagunceiro a mais cdfinha haha), e já pra ir direto ao ponto, disse para ele que hoje seria o último dia, então que eles poderiam escolher o que queriam fazer (jogos, desenho e etc), obviamente pediram jogo. E eu tinha planejado fazer o dia sobre vocabulário e cores (que ainda não tinha tocado no assunto), começamos com uma forca dividida por 2 times (sem lições de moral sobre racismo e etc) e tive muito êxito! Cada ponto era dado para o grupo que acertasse a palavra e trouxesse um objeto com a cor da palavra acertada. Usando o gancho dessa forca, parti para um ditado… Papel na mão de todo mundo, eu ia escrever 10 palvras (coisas) com sua cor, e eles tinham que desenhar e pintar o que eu tinha escrito no quadro (tipo, yellow sun, blue cloud, red car e etc) e para fechar o ditado dificultei um pouco resgatando a bandeira do Brasil que tinha mostrado para eles, no final como todas as atividades, eles gostam que o professor olhe, assine o nome e dê uma nota. Diferente de todos os 100 que tinha dado antes por pedido de Fiqih e Awal, dei as notas reais, mas explicando os erros para serem corrigidos, de um a um. E não teve contrariação, foi tudo show de bola.

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Acredite que cada atividade toma muito tempo, eles demoram e se empolgam demais com cada ponto e coisa falada então já deviam ser umas 10h e eles teriam intervalo. Ficamos ali na sala, com a presença do meu mini fotografo (que tá sempre na cola) e mais algumas meninas de outra turma que estavam visitando. Fiqih trouxe várias fotos diferentes impressas das crianças com a gente para distribuir entre elas, e aquele intervalo passou rapidinho. Quando as crianças voltaram ficamos ainda umas meia hora em clima de descontração (distração) só conversando besteira. Com intimidade eles já perguntam minhas redes sociais, minhas intimidades, cada coisa favorita e me pediram para desenhar no quadro. Adoraram haha. Seguindo a brincadeira (a aula), fui para o jogo do 7, mais uma vez tive o envolvimento de todo mundo, a brincadeira foi sem freio, muito dinâmica, mas ainda travava quando eu fazia perguntas sobre geografia. Dei um intervalo para mostrar o Dunia (Mundo) para eles melhor, os “5 continentes” e vários países que compunham cada continente. Voltando, a brincadeira corria muito melhor. Capacidade de assimilação deles é boa, afinal eles arranham muita coisa em inglês com um mínimo de educação voltado para isso. Bem, chegamos ao fim da aula, tiramos fotos juntos. Os meninos menos compromissados do primeiro dia, já não queriam mais sair da sala, as meninas desenharam para mim, me presentearam com uma pulseira e um pedido para eu usar sempre. Mas desse dia, o que foi mais fundo foi um bilhete que dizia: I love your smile, please keep smiling because you are talented with it. PQP, danousse! De onde essas crianças tiram inspiração para escrever coisas que vão tão fundo assim? Haha. Fica cada vez mais difícil deixar aquele ambiente, olhar para aquelas carinhas pela última vez. Uma pessoa evoluída, desprendida, consegue tirar aquilo de letra. É necessária muita maturidade para ter a nobreza de seguir a jornada, deixando aquilo no capitulo anterior. Desprendimento não é uma forma de pensamento superficial, indiferente. Na verdade, você precisa de muita consciência para se desprender, ter maturidade para seguir. Como isso não sou eu (por enquanto), já marquei minha volta lá na escola pro final de fevereiro (kkkk).

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Saindo de lá, tinha combinado de ir com outros voluntários de Jakarta de sairmos para um restaurante espanhol e finalmente tomar umas cervejinhas. Mas Awal me pediu para me juntar a ele, Kitan, Sabrina e Fiqih no alojamento da universidade para montarmos os VR de papelão para o dia da doação (lá pra 11 de fevereiro), engoli minha sede (de cerveja e vontade de sair para um ambiente descontraído), e fui meio de cara amarrada até o alojamento (não dava para ver minha cara mesmo, tava atrás na moto). Chegamos na PQP, almoçamos e íamos começar, quando Awal anuncia que não tem nada do material lá, consegue umas caixas de pizza de papelão safado e sujo, sem cola, sem elástico nada era possível fazer. Na primeira busca na internet, já achamos o dito cujo por 11 mil rps (1,1 dolar) disponível a venda para pronta entrega. Acompanhando de um pedido de desculpa por ter me feito ido até lá, ele disse que pelo menos eu provei um noodles apimentado indonésio. Como não perder a paciência né? Acho que vou ser canonizado, não por ter vindo fazer voluntariado. Mas por tá relevando o menino Awal, tá merecendo um prêmio. Vida, que segue! Amanhã é aula numa comunidade de pessoas que vieram de Papoa Nova Guiné e em seguida vou pro aeroporto para viajar para Yogyjakarta com Fiqih! Olhem a janela (não para me ver passando de avião), é Blood Blue Super Moon (eita lua da mizera deve ser essa), espero que eu consiga ver do avião! Bjs!

One thought on “Desprendimento

  1. Claudinha

    Que lindas as mensagens! Quanto amor lipe! Muito incrível.
    E conversa com awal poxa, numa boa falando direitinho, seila.. ele tá demais..

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