Vai lá e faz

Nesse dia eu acordei mais cedo, não sei por que, mas a minha cama inclinada (ela tem uma inclinação para um dos lados) tava me incomodando, então antes do alarme eu já tava de pé. Dessa vez a aula começaria mais tarde, então tive que esperar mais tempo aqui em casa. Como se a espera já não fosse grande, Momo ainda me manda uma mensagem dizendo que só deveríamos ir às 9h da manhã, então resolvi sair um pouco mais cedo e já ir em direção a escola. Cheguei umas 8:45 mas pedi para parar a moto um pouco antes, dessa forma não chamaria atenção se tivesse tendo aula na parte externa das salas, mesmo assim, encostado quase fora da escola, tava atraindo bastante criança. A diretora que tava na primeira sala na minha direita (assim que você “entra” na escola) – to usando entra, entre aspas porque não tem porta. Perguntou se eu não ia entrar para dar aula, mas eu sabia que aquela não ia ser a minha turma no dia, mais uma vez já achei que tivesse sido Awal que tinha feito confusão, mas antes de reclamar, questionei e ele garantiu que era outra turma. Então pedí desculpas a diretora e me direcionei para sala dos professores para não chamar muita atenção. 20 minutos depois Momo chega com Rokhma (não sei pronunciar), e me diz que a aula só vai começar as 10h, que as crianças pediram um “break” para descanso. Ok, 10 pras 10 já fomos na sala para irmos nos organizando. Essa era a turma com os alunos mais velhos da escola (grade 6), achei que a aula ia ser meio porre, porque se os pré-adolescentes de uma turma inferior já não ficaram tão focados, imagina esses. As crianças foram voltando para sala, já fui vendo alguns rostos conhecidos (de algumas que já tinham vindo conversar comigo nos outros dias), foram se sentando e quando eu vi, a sala já estava cheia (acho que essa era a maior turma), então resolvi começar. Dessa vez seríamos eu e Rokhma, Fiqih tinha uma questão do visto para o japão que ele queria resolver, e Awal tava com dor de barriga. As crianças pareciam calmas, atenciosas e curiosas (perfeito), a aula tava começando a fluir, mas ainda na apresentação alguns começaram a fazer barulho (tavam começando mesmo), rapidamente Rokhma puxou a rédea e começou a falar em Bahasa Indonésio. Até agora eu não sei o que ela falou, mas ouvi meu nome numa cominação de “dari brasil” algumas vezes, então presumo que ela tenha falado que eu vim do Brasil que era longe e etc para ajudar (tudo chute), mas o fato é que as crianças se doaram completamente a partir dali. A aula começou com o Nama Saya Felipe (meu nome é Felipe), indo para o Brasil, com um mapa peço para eles me mostrarem onde fica, qual continente e me falar o que eles sabem sobe o país. Depois pergunto como eu vim (avião), e que chutem quanto tempo dura a viagem (começamos com os números), Peço que um voluntário desenhe a bandeira (geralmente chegam perto), e destrincho para dar nomes aos formatos (circulo, losango e retângulo) e suas respectivas cores (blue, yellow e green), só para depois sacar a bandeira (que tá sempre na bolsa) que interessa muito as crianças. Então, depois de uma contagem das estrelas em bahasa (pra eles terem a certeza da quantidade e pensarem que estão me ensinando também), vamos para a contagem em inglês. Temos 26 estrelas na parte inferior da faixa e uma na parte superior (não cito os dizeres “ordem e progresso” porque a única tradução que consegui fazer foi “dicipline and progress”, e achei meio ditadorial), depois de falarem os números um a um, coloco de 1 a 20 no quadro e peço para cada pessoa escrever o número (one, two…), vamos a fundo para não deixar nada errado e dou uma dica dos número entre 13 e 19, a idade dos teenagers que terminam com “teen” (sempre quis que os professores fizessem assimilações para facilitar o processo de aprendizado, então tento assimilar TUDO). Vamos para o “Seven Game”, então apaguei os números do 8 até o 20 e disse que só precisaríamos usar aqueles que sobraram no quadro. O jogo é simples, mas necessita um foco e raciocínio rápido. Sentadas em círculo, a primeira criança fala o número “one” e toca em um de seus ombros, dando o comando para que direção ela quer que a brincadeira continue tendo assim que seguir com a ordem até o Seven, esse já não toca no ombro, e sim na cabeça. Quem perde senta no meio, e através de uma pergunta pode voltar ou não pra roda (crianças vão se acumulando no meio e todas tem a oportunidade de voltar toda rodada), as perguntas são sobre geográfica: capitais, culturas e países. A brincadeira correu sensacionalmente bem, foi surpreendente. Tanto que fiquei sem querer mudar o jogo. Mas tinha uma “forca” na manga, então na hora me bateu uma luz e deu pra introduzir nossa “beyonde race” naquela brincadeira. Falei para cada criança um número (1 ou 2), e elas se separariam dessa forma, no meio da sala coloquei as bolsas e para nomear os grupos usei os termos (White group e black group), ao decorrer do jogo só dei dicas ao “White group”, que obviamente levou a brincadeira. A palavra era “Skin Color”, o que me deu uma abertura para iniciar um raciocínio que era simultaneamente traduzido por Rokhma. Primeiro perguntei se elas gostaram de ser divididas em grupos definidos por mim e não por elas (longe dos amigos mais próximos ou misturado menino com menina), em seguida perguntei se elas gostaram do privilégio do grupo branco. A resposta para as duas perguntas obviamente foi “Não”, então tiramos as bolsas que dividiam eles e pedi que acabássemos com as diferenças. De cor, de tratamento e de todo o resto. Acho que a mensagem foi captada e acho que, finalmente, cheguei num formato legal de aula. A aula teve duração de 1:30 (não muita coisa), mas acredite que 1:30 com essas crianças entretidas é muita coisa.

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Acabado a aula, dessa vez nem ficamos muito de papo, pedi logo o uber. No caminho para cá, tava percebendo o quanto toda essa fumaça daqui incomoda, e finalmente achei justificável o uso da máscara (sim, muita gente anda de máscara aqui). Algumas pessoas usam por estética (já tinha sido informado) mas muitas (como eu) porque usam muita moto e ficam horas no trânsito sufocando com aquela fumaça de 40 motos na frente do semáforo, parece uma câmara de gás. Toda a minha felicidade da aula tava sendo atrapalhada por uma dor de cabeça e tontura daquele calor somado a fumaça, tô pensando seriamente em usar umas descartáveis quando for sair de Uber, tá foda! Cheguei em casa, e pra minha surpresa, Jordan (o mais velho) tava no sofá. Sentei do lado dele e puxei um papo, terminei perguntando se ele não teria trabalho e ele disse que o contrato não foi renovado, mas que contratos de 6 meses eram muito normal aqui. Achei ruim por ele, mas por mim era bom porque ganharia mais convivência (pensamento bem egoísta, mas sincero kkk), e logo de cara ele perguntou se eu não animava em fazer algo a tarde. Topei e eles combinaram de me levar num shopping. Mas antes de ir pro shopping pedi para dar uma carregada no celular (eu não andava com celular descarregado em SP, quem dirá aqui – sobrevivência), deitei na minha cama, mas em menos de 3 minutos fiquei pensando. Carai, eu tenho que ajeitar essa porra dessa cama. Então descobri que ajeitar a cama não era vergonha (como eu tava me justificando) era preguiça! Levantei dela, tirei as 3 camadas de colchão que tem nela, uma tábua de madeira e fiquei me perguntando o que fazia o colchão inclinar. Descobri que era uma madeira na lateral, então peguei com Paul um martelo e uma chave e com muuuuito esforço (pra tirar e não quebrar a cama também), consegui tirar uma madeira que tava em uma das laterais. Aproveitei que tinha tirado tudo ali e levei os colchões para dar umas espalmadas ali do lado de fora (tinha muita poeira), mas o colchão não era o foco da poeira não, tinha que ver debaixo da cama. P Q P!, resolvi faxinar aquele negócio todo, mas antes de começar a ter alergia já tomei um Alegra D para garantir. Tive que esvaziar o aspirador de pó duas vezes, varrer e as porra toda. Mas valeu muuuuuito a pena! Não só pelo bem-estar físico, mas o psicológico de ter uma atividade concluída, o “vai lá e faz” não tá só nos grandes eventos e decisões da vida não, as pequenas ações que nos tiram dessa zona de conforto e não nos deixam ficar mal acostumados e acomodados com situações que não estão nos fazendo bem. Tomei meu banho, juntei meus 3kg de roupa suja (é menos do que você pensa) e levei na lavanderia no caminho pro shopping. Não tem porque eu lavar com as mãos no balde, primeiro que não vai dar o mesmo resultado, segundo que é MUITO barato. 5 mil rupias, corre 5 casas para direita, você tem o valor em dólares. Multiplica por 4 (calcular por cima sempre) você tem em Real, ou seja, 4 reais. Se preferir, abre o app “My Moeda” (sensacional), que ele já mostra todos os câmbios de uma moeda para outra como se fosse um Google Translater.

Eu não entendia o conceito de shopping, eu achava que shopping era o RioMar, JK, Eldorado e até mesmo o Aventura. Meu velho, shopping é aquele ali viu. Eu nunca vi um negócio daquele tamanho não, é GIGANTE. Nem sei quantas praças de alimentação, lojas topadas de todos os jeitos (muita coisa que não tem no Brasil), o pé direito cabia palmeiras coloniais em sua maior forma, tinha uma parte de bistrot e bares que parecia que você tava na rua mesmo, o piso meio acinzentado e a luz um pouco mais baixa. Mas a maior parte do tempo passamos em um café que tinha numa área externa no segundo andar. Lá Paul ficou mais introvertido e conheci mais Jordan (que não conhecia quase nada), de cara ele já sacou o get (cigarro) e foi fumando. Jordan não tem religião, bebe, gosta de sair e pensa diferente do irmão e da comunidade em geral. Ficou aberto para me levar para algum bar se eu quiser, e me apresentar pontos turísticos perto da cidade. Cidade cujo qual descobri que não era loucura da minha cabeça (ou abstinência) que eu não via nenhum bar. É porque não tem. Ele tava me explicando que Depok tem uma concentração muuuito maior de muçulmano que o resto da ilha, então lá eles optaram por banir a bebida alcólica, então 0 álcool até em supermercado e muito menos bares pela cidade, a vida noturna e aquela cervejinha gelada de tarde no final de semana fica exclusivamente para Jakarta. Apesar de muito surpreendente o shopping, e até parque aquático ter dentro daquele negócio, shopping é shopping. Então voltamos ao carro da família e a realidade

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One thought on “Vai lá e faz

  1. Claudinha

    Que legal as aulas lipinho.
    E que shopping viu!
    Gostei de Jordan.
    E que doidera isso deles conseguirem banir bebida na cidade toda, cada vez fico mais de cara com o poder da religião ai.
    Ah, e adorei a reflexão sobre a cama, de fato de maneira geral arrumamos muitas desculpas para nós mesmo.. vc tá com uma autocrítica maravilhosa 👏👏
    Bjs

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