Aceitação

3º Dia de aula. Acordei às 6h como tenho feito, fui pro banho. Lembra que eu tava achando até legalzinho? Pronto, tá parecendo um ‘’Ice Bucket Challenge” todos os dias de manhã. Eu pego a pazinha que tem uma cuinha em formato de coração, alinho a parte debaixo coração exatamente com a parte superior central da testa, entre o cabelo e a pele, inclino o pouco a cabeça para trás e dou-lhe (você colocou o dedo exatamente no ponto e inclinou a cabeça? Quero ver se minha narrativa é boa mesmo). Já passou a ser um ritual. Ainda não entrei na onda do café da manhã (frituras, carnes, molhos, tempero e arroz – tudo frio), aliás o arroz não pode faltar, porque pra eles se não tiver arroz, não é refeição. Então ainda to apelando pro meu pãozinho de caixa com uma fatia de queijo e um copo de café que já vem açucarado que Ibu comprou pra mim quando soube que eu gostava. Esperei um pouco enquanto lia um material com sugestões de atividades e jogos que Luiza e Morgana no Brasil me enviaram para ajudar com as aulas por aqui (estamos abertos a mais sugestões), deu um tempo, pedí a moto e fui.

Cheguei na escola mais a vontade, todas as crianças me cumprimentam mesmo quando estão mais longe (HEY MISTER), e me encaminhei a aula. Fui surpreendido (Awal mais uma vez), não me disse que daria a aula para mesma turma da segunda, então não tinha nada novo. Mesmo assim como já tinha avançado bem mais no conteúdo com a turma do dia passado, repeti as atividades que ainda não tinha conseguido fazer com essa turma (entrando mais na coisa do racismo). Esse assunto demorou mais por aqui, fomos um pouco mais a fundo e as crianças estavam mais a vontade, terminamos com uma atividade globalmente indicada que é desenhar o seu ambiente familiar, sua casa. Infelizmente as crianças não entenderam que era para passar a realidade e provavelmente fizeram o que seria o ideal para elas, a não ser por dois meninos que ao invés de desenhar suas casas, desenharam suas mesquitas (ainda não sei porque, não tive a oportunidade de questiona-los). No mais, os desenhos ficaram bem coloridos e serviram para colar nas paredes da sala e dar uma mudada no ambiente.

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Neste dia estava quase todo o grupo da AIESEC me acompanhando (eles fazem registros e ajudam com a tradução) mas também acho que tão gostando de irem comigo para participar, é de fato gratificante. Então de lá, havíamos planejado explorar um pouco mais a cidade e conhecer o Museu Tekstil, onde eu ia conhecer o processo para fazer o Batik. Batik é uma técnica de tingimento em tecido artesanal, basicamente com uma ferramenta própria, você aplica a cera quente (até ficar de fato destacado) no desenho que você faz naquele tecido e depois tinge da cor que você quiser, as camisas feitas usando essa técnica ficam bem legais, geralmente o povo usa na sexta aqui, assim como a nossa sexta casual (ainda preciso comprar a minha). Para chegar lá precisávamos pegar algum tempo de moto/trem, e chegando, obviamente todos estavam passando mal de fome. Andamos um pouco e não demorou muito para encontrar, no meio da muvuca de uma feira aberta, um restaurante Padang. Padang é a capital da província do Leste Sumatra, e tem como algumas características (assim como tudo na Sumatra) de ser mais apimentado (do que as coisas já são aqui), e de se comer com a mão. Antes de entrar no restaurante já era possível ver a comida exposta na vitrine de uma forma peculiar (já tinha visto na TV antes e aqui muitas vezes), e pensando que eles iam servir uma comida feita na hora, já ia me direcionar ao segundo andar do restaurante. Mas não, meus amigos já formaram uma fila ali depois da vitrine, foram escolhendo oque queriam, o cara adicionava o arroz e colocava uns molhos e umas verduras e legumes e tei. Pronto. De cara, dei aquele velho migué dizendo que não tava com fome (ô comida feia do cacete), para comer com a mão ainda. Pê quê pê! Subimos e o pessoal foi comendo, de fato é uma nojeira. A fome que eu tava sumiu na hora quando as meninas faziam bolinho com a de arroz com legumes e desfiavam a carne que tava presa ao osso da galinha com a mão. Para beber, um copão de chá da casa que vinha natural, também não arriscaria, sabemos o problema com água que podemos ter por aqui. Na mesa “Momo” entoava uma melodia conhecida para os meus ouvidos, aliás ela fazia isso há alguns dias, então fui e perguntei para ela do que se tratava. Para minha surpresa, tratava-se de uma performance que ela havia feito há um ano atrás com um grupo da AIESEC que tinha UM brasileiro. E a melodia que vinha em sussurros era: “OooOooLHA êeexploSÃO, quando ela bate cá bunda no chão” (kkkkkkkk), foi engraçado, só perdeu um pouco a graça porque ela ficou mexendo na tela do meu celular (com aquela mãozinha) para ver a letra da musica (tentar cantar), e falando em letras, “Bunda” aqui é usado para “Mãe” também, foi chocante para eles.

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Então saímos do restaurante e seguimos a exploração, chegamos no Tekstil Museum e fomos ver algumas peças de Batik antigas que ficavam expostas ali. Mas sabendo que existia uma oficina, queria logo colocar a mão na massa. como na oficina você fica limitado em fazer em uma só cor, me limitei ao azul para combinar com a pena de pavão que foi a primeira coisa que lembrei para fazer alguma referência ao Brasil (sei nem se o pavão é de lá) e combinasse com aquela técnica. A técnica exige uma paciência de Jó, você começa desenhando no tecido (ou papel para garantir o acerto) antes, e depois senta num banquinho na frente de uma lata de leite ninho que tem cera aquecida com um fogo embaixo. Você vai pegando essa cera com um “cachimbinho” e na frente tem como se fosse um bico de beija-flor, onde sai a cera liquida em pequenas quantidades. E era essas pequenas quantidades que estavam me tirando do sério kkkk, fui resolver fazer um desenho “complexo” então precisava passar várias vezes esse biquinho nos traços que eu queria que se destacassem após o tingimento. Isso tudo deve ter levado uns 40 minutos mas assim como todas as técnica artesanais orientais (sem exceção),  essa também trabalha bastante a calma e persistência (dá vontade de deixar como está mesmo, trabalho inacabado, com os traços não tão visíveis), mas o “professor” que tava ali ensinando não deixava você parar, insistentemente seguia tentando te ensinar como fazer até você acabar. Achei o resultado muito legal, e ainda não sei se vou trazer esse pedaço de pano para enquadrar e guardar de lembrança daqui ou dar a Ibu como presente (presentes quando tem algum esforço por trás são mais verdadeiros, lembra do jantar?), pois é, to pensando!

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Saindo de lá, nos direcionamos para o terminal de trem novamente, já tava meio cansado e ainda não eram 16h. Já dentro do trem Awal solta que estaríamos indo para casa de Fiqih (de novo não me avisa antes), mas eu to sempre tentando relevar esse cidadão me achando um pouco nele. Ele é bem novo, tem 18 anos, tem muita vontade e isso lhe deixa ansioso, querendo que as coisas deem certo. Mas essa vontade, essa ânsia, as vezes trazem desorganização (e isso sou eu quando estou empolgado em algum projeto no trabalho), então eu sei que ele tá dando o melhor dele, e to TENTANDO aceitar e demonstrar muito menos desapontamento do que realmente estou sentindo nessas pequenas ocasiões, mas também não estou conseguindo elogiá-lo e isso me faz parecer um pouco arrogante, preciso mudar.

Voltando ao trem, assim como o banho, já não é mais uma surpresa. Então ver aquela movimentação já não é uma novidade, ficar em pé e dar a ceder o seu espaço já se torna um exercício a boa parte é que já to desenrolando comprar o cartão, colocar crédito e fazer o resgate no fim do percurso sem ajuda (tudo na máquina em bahasa). Ah, o “resgate” que falei ali é como funciona aqui, você usa o trem e no fim do percurso se você não tiver mais crédito no cartão você pode recarregar durante um período de 48h ou pedir reembolso (valor do cartão) que dá quase o preço da passagem, muito legal! Chegando no ponto certo UI ,Universitas Indonesia, o mais perto da casa de Fiqih, íamos esperar por um tempo para as meninas pegarem as motos dela na outra estação e nos encontrar num mercado lá perto. Quando estávamos na porta do mercado, vi um mendigo pedindo dinheiro ou comida e vi que ele já estava abastado de alimentos em sua volta e entrei sem parar para cumprimenta-lo. Quando tava dentro da loja, lembrei de uma conversa que tive com Ibu na noite passada, nessa conversa ela me perguntava o que eu tava fazendo tão longe, de graça e em troca de nada, me elogiou bastante pela atitude e compartilhou comigo a história dela. Que foi adotada por um senhor que visita a casa todo sábado ou domingo. O detalhe é que esse senhor que adotou Ibu, ou o pai dela, mora na rua. Eu não sei se é de agora ou se já é desde antes, mas até fotos dela visitando o “colchão” dele com a esposa dele, ela me mostrou. Disse também que ele tava doente e que ela tava tentando ajudar com os medicamentos… E no meio daquele mercadinho ali, PEI! Bateu o peso na consciência. Cacete, eu neguei umas moedinhas para o cara, não lembrava do rosto do pai de Ibu, imagina se era ele. Um cara do bem, que não tinha nada e dividiu, tava doente e precisava de medicamento e não da comida que eu julguei suficiente na frente dele. E se não fosse ele também e esse outro cara tivesse numa situação parecida, e nesse “e se, e se”, juro pra você… É melhor não arriscar, ninguém vai querer esse peso na consciência que eu tive.

Meia hora depois eu tava na casa num parque perto da casa de Fiqih, descrevi esse lugar aqui uma vez quando fui e ficou uma manada de criança me seguindo. Dessa vez fomos para conversar com o “líder comunitário” dali, assim como fizemos com o da comunidade em que eu vivo, fomos pedir “autorização” para ensinar as crianças da região nesse espaço publico que foi presente do Governo passado de Jakarta. Então ele nos levou para o espaço, nos apresentou a professora, que prontamente aceitou a nossa visita e concebeu o uso do espaço para dar uma “outside class” no dia seguinte, a professora era bem legal! Na saída, ficamos conversando ali por um tempo (com 3 mil crianças em volta) e deu pra perceber que o nível delas iam bem além do que os das crianças da escola. Então tinha que me preparar melhor para aquele dia!

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One thought on “Aceitação

  1. Claudinha

    Ficou lindo teu batik, amei! Tu pode já colocar num quadro ai e dar de presente pra ibu. Mas depois faz outro tbm pra trazer. Na verdade, treina a paciência e faz mais dois kkkkkk quero um tbm 😁😁😁 bju

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