1º Dia: Fazer a diferença

E finalmente começaram os trabalhos. Provavelmente na noite passada e a manhã precedente as aulas, acho que fiquei mais nervoso do que naqueles primeiros dias de aula quando você é 2ª ou 3ª série ou do que no primeiro dia de trabalho quando você não conhece ninguém! Pois é, a experiência pode ser comparável, por mais que sejam crianças, acho que nunca dei aula em inglês para crianças muçulmanas na Indonésia (nunca dei nem aula em português), então é de se esperar esse nervosismo. No primeiro dia a aula começou um pouco mais tarde, às 9h. O pessoal do programa queria conversar com a turma da escola e deixar tudo pronto antes da minha chegada, para não haver nenhuma grande surpresa. Mas apesar de começar às 9, coloquei o alarme para as 6 e fiquei matutando aqui como seria e às 8:30 já pedi o Uber. Comigo eu levava 4 Sonhos de Valsa, bandeira do Brasil, câmera e o material que comprei um dia antes (mapa, piloto, papel e giz de cera), era coisa para cacete e para minha infelicidade, caindo um toró (chuva da porra), peguei a capa de chuva que trouxe do Brasil, cobri tudo que eu tinha em mãos e segui para escola. Perna e sapato de fora resultaram num belo banho de chuva (mas o material tava a salvo).

A moto seguia o mapa, que se limitava a uma fachada na beira de uma avenida principal: “Sekolah Master Indonesia”. Mas a escola não começava aí, era uma espécie de beco que ia ficando um pouco mais apertado a medida que eu ia entrando. Passei por uma “barriga” nesse beco que tinham 2 containers empilhados, então achei que fosse ali. O motoqueiro perguntou a uma pessoa que tava passando e ela disse que eu deveria seguir o caminho. Passamos por uma casa, que parecia mais uma mesquita, depois uma espécie de jardim, onde aparentava ser uma escola para crianças de uns 2 a 6 anos, e depois uma portinha num muro de pré-moldado. Essa portinha levava para uma pequena estradinha que se abria no final, nessa “abertura” já dava para ver umas pessoas e umas 2 casas bem pobres, e ao fundo uma formação de containers com um espaço no meio. Era a escola. A escola é bem diferente das que comentei aqui antes (de Fiqih e de Paul), era uma escola informal que não tinha nenhum custo para as famílias. Dessa forma, a escola “funciona” de modo muito precário, com nenhum conforto ou área de lazer para as crianças a não ser duas barras num cimento acidentado no centro do lugar. Fiquei muito surpreso na chegada, tanto que demorou uns 5 minutos para que eu pudesse ver Awal, que tava na porta da sala logo ao meu lado. Então me coloquei no lugar, um sorriso no rosto e me direcionei a ele. Entrando na sala, as crianças ainda não muito à vontade só olhavam curiosas para mim. A sala bastante suja, com arroz no chão, plásticos de comida e etc nos fizeram atrasar um pouco a aula, preferimos deixar a sala limpa no início. As crianças não estavam uniformizadas, umas delas sim, outras não. Muitas delas estavam com bastante sujeira na roupa, mas tudo isso variava muito, vamos a aula. Como foi indicado e me falado várias vezes, caprichar na apresentação. Demorar quanto tempo for preciso para eles se sentirem mais a vontade e tirarem todas as suas dúvidas em relação a minha pessoa, e qualquer informação a respeito do Brasil (localização, personalidades, língua), seria inédito para eles, então seguimos. É difícil ter a atenção de todas as crianças, eram mais ou menos umas 20 30 na sala e os meninos especificamente já seguiam uma rebeldia normal para idade. Sempre com o cabeça coordenando. As meninas foram muito mais fácil de conduzir, elas mais tranquilas sentaram em fileira e participaram bastante da aula mas mesmo assim, em certos momentos todos perdiam a atenção e começava uma certa gritaria para terem um descanso ou acabar a aula. Aprendi a fazer um “Baby Shark” (procurem no google kkkk), mesmo assim aquilo não capturava a atenção de todos, então resolvi seguir a aula (mesmo sem tanta atenção), e cumprir o que eu tinha planejado, um bnom e velho Head, shoulder, knees and toes. Né que que consegui ter todos de volta? Hahaha. Os meninos e as meninas ficaram muito interessados, principalmente quando sugeri um “campeonato” que quem ganhasse ia ficar com um chocolate no final. A aula seguiu 100% e por volta das 10:30, 11h acabamos com “louvor” e direito a agradecimento de todo o grupo e individual com o gesto de respeito ao mais velho fazendo fila na minha frente (éee muuuuuuito gratificante).

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Para entender melhor o comportamento das crianças, vamos parar um pouco para pensar. Elas ficam ali naquela escola, meio jogadas. Todos os professores são voluntários (todos locais), e não dão aula com compromisso, vão quando podem. Quando não podem, as crianças ficam lá esperando de bobeira. Fazendo bagunça mesmo, jogando bola e o que mais quiserem fazer. A aula ali, diferente das escolas do estado que terminavam lá para as 13 ou 14h, acabava as 10h, era até quando os voluntários se colocavam a disposição. Como alguma pessoa pode esperar um bom comportamento daquelas crianças? Algumas delas, em conversa após a aula, falavam que na sua casa tinham ratos, ou que moravam só com seu irmão de 17 anos. Outra tinha só um pai para contar, e mesmo com 7 anos ia só e voltava só da escola. Vocês podem imaginar o que é isso?

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Fiquei ali na sala depois da aula, só com Fiqih (quem tá me ajudando a traduzir as aulas), Awal (que também tem me acompanhado) e algumas estudantes que já estavam fazendo a atividade de casa (O que é família?) ali mesmo. Enquanto um silencio pegou a turma, resolvi abrir meu livrinho, mas não conseguia me concentrar. Na minha cabeça só vinha uma maneira de solucionar o problema da escola, que é impossível nesse período que eu vou tá aqui. Mas veio uma ideia de fazer dali uma Escola Internacional da AIESEC. Um grande (pequeno) programa que envolvesse voluntários de diversas áreas (arquitetura, engenharia, pedagogia e etc). Com esse time sempre rodiziando, seria possível fazer daquela escola um projeto fixo que poderia sempre receber voluntários que quisessem ensinar ali. A intenção é não faltar professor e seguir uma metodologia, além de preparar aquelas crianças além do esperado, deixando todas bem-educadas e falando inglês. Não seria maravilhoso? Já falei com o pessoal daqui, mas me parece que eles não têm muita visão ou poder de fazer algo tão grandioso assim, ou pelo menos acham que não é da ossada deles. Imagina voluntários até para captação de patrocínio para transformação total daquele ambiente? Puts, minha cabeça foi longe viu? Obviamente vou tentar seguir com a ideia, e se necessário me envolver mais para conseguir tirar da cabeça! Cabeça que ficou muuuuito pensativa depois de ver tanta coisa triste e sorriso misturado no mesmo dia. É demais.

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Fora da sala, ali entre aquelas duas “casas” que falei no inicio para descrever a entrada da escola, conheci um menino. Esse menino é muuuito interessado e curioso, e com 6 anos me falou que sonhava em ser fotógrafo quando crescesse (eu não tinha sacado a câmera nenhuma vez da bolsa, juro!) Então você já pode imaginar a felicidade dele quando dei a câmera para ele tirar umas fotos né? Hahaha! Era felicidade pura… Ensinei a abrir o zoom, tirar a foto e a ter cuidado com a lente, e já foi possível ele dar uma voltinha tirando umas fotos com o maior zelo possível pelo equipamento. Mas como o céu tava fechando pedi a câmera de volta e como já eram umas 13h e eu não tinha almoçado ainda, segui caminho. Optei pelo shopping, porque tinha que trocar dinheiro para comprar as passagens de ida e volta de Yogyakarta e queria comer algo “ocidental”. Já tinha comido muito a comida daqui e tava com medo de continuar arriscando assim (e porque queria pizza mesmo kk). Cheguei no shopping, fui direto na troca, depois resolvi dar uma voltinha na praça de alimentação lá em cima, mas antes de chegar na praça eu vi o cinema. Acho que era aquilo que eu tava precisando mesmo, um bom filme, pipoquinha e silêncio (inglês), para a cabeça dar uma relaxada. Não sei se era a sensibilidade ou o filme, mas achei esse que tá em cartaz com Hugh Jackman (Logan de X MEN), The Greatest Showman, sensacional! Eu odeio musical, nem sabia que se tratava de um, mas era essa leveza que eu tava querendo. O filme fala daquele circo de “bizarrices – freak show” (mulher barbada, anão, gigante, homem tatuado) que acontecia antigamente, mas uma versão boa disso tudo. Resumindo o filme, é meio um “viva a diferença” (O que já me deu ideias para as próximas aulas), acabando lá, nem tive mais fome. Então voltei para casa e relaxei com a família mesmo. Falei com Ibu sobre a situação da escola (ela é professora do jardim de infância), e ela ficou muito chocada com essa realidade. Pediu para ajudar, dizendo que na páscoa eles (a escola que ela trabalha) tem um projeto que ajuda outras crianças com doações, um dia feliz e dinheiro. Fiquei muito animado e disse que perguntaria para a Diretora (que eu não tinha conhecido ainda) se essa caridade seria bem-vinda (já que era uma escola na maioria muçulmana). Depois fiquei escrevendo e lendo até tarde, então tive a oportunidade de trocar uma ideia com Jordan de novo, e esse final de semana combinamos de ir ao Jardim Botânico da cidade, ele e Paul falaram que é muito bonito!

No segundo dia de aula, tudo foi um pouco diferente. Ficamos num ambiente externo, as crianças eram um pouco mais velhas e não tínhamos Fiqih para ajudar no primeiro momento. Desta vez, eu tinha chegado um pouco mais cedo, às 8:30. As crianças já tinham trocado uma ideia com uma outra professora que tava ali perto, e todas pareciam muito comportadas, sentadas em filas e divididos entre meninos e meninas (como os muçulmanos costumam sentar em sala). Esses meninos que pareciam ser muito mais comportados começaram a ficar agitados, as meninas (como sempre) mais participativas e interessadas se aproximavam do quadro. Deixando o resto da turma cada vez mais distante da aula e mais dispersos já que eles tinham todo o “pátio” para correr de um lado para o outro. A aula se divide em conteúdo, mini-brigas que terminam em choro, brincadeiras e atividades. Terminamos a primeira parte da aula e íamos finalizar por ali mesmo, não dava para continuar. Mas uma grande parte dessa turma que era maior que a de ontem, se juntou e disse que queria continuar. Conseguimos uma sala, já que tinha passado das 10h e as crianças das outras liberaram para gente. Lá resolvi ir um pouco dentro do assunto do projeto que eu vim aplicar, Beyond Race (Além da Raça). Comecei os questionando o que nos diferenciava. O que diferenciava eles de pessoas de outros países. Conseguimos váaarias coisas: olhos, cabelos, línguas, religião, beleza, cor, cultura e (FINALMENTE) falaram, raça. Então puxei a palavra raça para outo campo, e pedi que ignorassem qualquer fator externo (excluindo beleza, cor, olhos e cabelos), disse para eles que nada disso importava. Depois perguntei 2 raças diferentes, e eles sugeriram Padang, um povo que fala uma língua própria e tem sua própria cultura aqui na Ilha de Java mesmo, e (felizmente) Cina (China). As diferenças eram poucas, se resumiam a língua, cultura e religião (maioria). As crianças sugeriam diversas vezes que eles os chineses eram mais inteligentes e mais ricos. Achei importante colocar aquelas informações ali porque serviria para o próximo passo que era pedir duas coisas em comum entre as duas culturas. Rapidamente viemos com Sayang (amor), sugerido através da atividade da (O que é família para você) e Sangue (ambos eram vermelhos). Ali já foi suficiente para conseguir apagar todas as diferenças e mostrar para eles que o que basta era o que eles tinham em comum, que as diferenças eram impostas pela sociedade e que para eles não precisava ser assim. Tive a compreensão de todos que tavam na sala, foi muuuito legal a atividade. Terminamos com um outro exercício (sugerido por Luiza, uma amiga que dá aula no Brasil) que você escreve uma introdução de um texto e deixam eles (individualmente) irem complementando com um tempo limite especificado antes do exercício. Assim o texto teria o toque de todos da sala e o frankstein serviria para a reflexão no final. Aquilo mostrou a eles que o que eles pensam dos chineses era exatamente o que eles faziam por aqui, aproximando ainda mais ele dessa outra raça como foi proposto pelo programa. Fim das atividades, agradecimento da turma, “benção” individual dos alunos e fomos para uma reunião com a Diretoria (finalmente conhecendo alguém do corpo docente daquela escola). Se tratava de uma mulher pequena e franzina, ela tem alguns problemas físicos, da pra ver pela voz e pela formação da mão dela. E junto dela uma outra mulher só com os olhos de fora e outra professora com o rosto descoberto. Todas foram muito gentis e se mostraram muito agradecidas por me terem ali, me explicaram como funciona a escola de disseram que as marcas que tinham em algumas placas na escola (Tupperware e um banco daqui), já não ajudam mais. Todos os custos são por parte de doadores, mas que ali nenhuma criança paga nada para estudar. No início pedi para Awal comentar sobre a ação que a Ibu se propôs a fazer na escola, mas ele disse que a questão era delicada que era melhor deixar isso para depois. Mas depois que conseguir conduzir o papo para essa área de patrocinadores e pessoas que tavam afim de ajudar, resolvi mostrar uma mensagem em bahasa que a Ibu tinha escrito no meu celular. De cara a diretora gostou da ideia, e disse que não teria problema algum. E que eles tinham crianças cristãs (por mais que fossem poucas) na escola, que a escola estava de portas abertas. Isso para mim já foi uma vitória. Já foi alguma coisa que eu consegui fazer para aquela escola e aquelas crianças, não vou tá aqui até o páscoa, mas espero muuuito receber essas fotos quando já tiver no Brasil.

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Essa reunião se estendeu mais um pouco e terminou umas 13h como no dia anterior. Saí de lá, zonzo de fome e queria aquela pizza de qualquer jeito. Peguei um Uber moto e fui no shopping. Sentei ali na Hut, tomei 3 7ups, um breadstick de alho e queijo e uma PPP (devia voltar pro Brasil, medida certa) e bateu um banzo danado. Já saí do shopping ali na calçada para pegar uma moto de volta, quando começam as mensagens aqui nos grupos: ‘’VOCÊS ESTÃO SENTINDO ISSO?” “TODO MUNDO TÁ BEM”, rapaz, eu não sei se foi o banzo, mas eu não senti PN (Porra Nenhuma) daquele terremoto 6,4 que tinha acabado de acontecer. O povo daqui de Depok, de Bandung (3h daqui) e Leticia de Jakarta, cada um com uma história e eu com minha barriga cheia e banzo no sol quente tentando arrumar moto, pqp. Cheguei em casa, fui dar um cochilo e TCHARAAAN acordei 15 horas depois. Isso nunca tinha acontecido antes na minha vida inteira. Bati recordes e ainda estou estudando pra saber o que aconteceu comigo. Minha energia foi totalmente drenada!

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One thought on “1º Dia: Fazer a diferença

  1. claudiinha

    Linpinho, tô comovida, por toda situação dai e pela coisa linda que vc tá fazendo ai, e que incrível que tas tão esforçado para dar o seu melhor pra essas crianças(que só pela foto da vontade de agarrar todas). Achei muito massa a suas ideias de projeto, e não desista deles não!! Nada é impossível, principalmente com tanta vontade de ajudar o próximo, tenho certeza que com seu empenho as coisas naturalmente vão acontecer e dar certo. E mesmo com distância e fuso horário pode contar cmg pra ajudar a pelo menos pensar em soluções. Parabéns de verdade lipinho, to muito orgulhosa e ainda mais apaixonada!
    E meu deus, ibu é muito fofaaaa(LLLL) como é que se fala sogra aí?
    Adorei as suas aulas,arrasou! Quero mt ver esse filme tbm. E ainda bem que tu n sentiu esse terremoto..
    beijoooos

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