Troca

Se eu pudesse, intitulava cada post com “respeito” ou “aprendizado” só porque as vezes procuro palavras para me referir aos dias, e essas duas resumem bem isso. Mas “troca” nesse dia veio a calhar. É troca de lugar, troca de afeto, troca de experiência e troca de cultura. Começando pela Global Village (evento da AIESEC onde os voluntários de diversas nacionalidades apresentam seu país e cultura para os outros) e me parece que os coordenadores da própria AIESEC não tavam muito alinhado a respeito do evento, no sentido de saber o que ia se passar de verdade. Apesar de ser um evento rotineiro para quem faz o programa, muitos voluntários não sabiam o que levar, como apresentar e a melhor forma para fazer. Como minha ferinha (Awal), só me avisou no dia anterior que teríamos uma “performance” para apresentar no outro dia seguinte, tive que improvisar tudo nas carreiras e pedir desculpas a Ibu porque não ia na Missa com ela (domingo é missa para os cristãos e aqui é importante não faltar)… Lembra daquele bolo de rolo do jantar do casal? Pronto. Fora ele (metade) ainda tinha 2 garrafas de 1 litro de guaraná, uma bandeira (canga) do Brasil e uma camisa que do brasil meio malamanhada que eu comprei no aero de SP para dar de presente para alguém aqui (possivelmente darei a Fiqih). E isso era tudo o que eu tinha para mostrar no stand do brasil (foi mal), então na noite anterior, assim que cheguei em casa, fiquei maquinando numa maneira de fazer essa apresentação de uma forma minimamente criativa. Como não sambo, não temos saudações especificas ou músicas patrióticas emocionantes e acho que muito menos uma das locais se ofereceriam para pegar um forrózinho, fiquei no bom e velho PPT mesmo.

Para minha apresentação lembrei de alguns fatos, algumas curiosidades em comum sobre a Indonésia que me surpreenderam bastante na primeira semana por aqui. Então, além dos vídeos de abertura no telão (dica para quem for apresentar o Brasil para gringos: tem ótimos vídeos no youtube no MinTur e Secretarias Estaduais voltados para o publico do exterior), fiz uma apresentação totalmente baseada nas similaridades entre Brasil e Indonésia. Ahá, aposto que você nunca imaginou isso né? Pois é…. vivendo e aprendendo, vamos a elas:

Ambos fomos colonizados pelo Portugueses (indonésia por menos tempo) e para os Pernambucanos, ambos também foram colonizados pelos holandeses. Além da colonização pelos mesmos países, isso aconteceu no mesmo tempo (mais ou menos século XV XVI, mas que para indonésia durou mais tempo, conseguindo obter a independência dos holandeses 300 e cacetada anos mais tarde por volta dos anos 40. Fruto da colonização, Brasil e Indonésia tem o cristianismo (abrangendo Jesus) como 1ª e 2ª maior religião do país e o mesmo alfabeto sendo os seus principais (existem línguas nativas indígenas no Brasil e outras centenas de línguas nativas com outro alfabeto aqui também). Mas não é só o alfabeto que é igual, haha! Temos também váaaarias palavras que são iguais, e quando não são iguais deve ter sido porque os indonésios não ouviram direito e escreveram de forma diferente, mas o som é o mesmo!! Segue algumas: boneka, sapatu, bola, grátis, meja (mesa), kameja (camisa), taksi, garpu (garfo), sekolah (escola, mesma pronuncia), guereja (igreja, mesma pronuncia, terigu (trigo), mantega, tinta, misa (missa), fita, paderi (padre), natal e paskah. Também fiquei de cara. Esses portugueses eram virados mesmo! Mas como toda “boa” colonização, não foi para troca de cultura ou de experiência não, foi para escravizar, extrair e imputar a cultura mesmo, como o povo aqui foi mais “resistente” que o brasileiro (brincadeira, os holandeses colocaram os portuga pra correr), não ficou muita lição desse tempo não! Nem o inglês eles absorveram. Na verdade, na verdade de cultura exterior que ficou aqui foi o islamismo dos árabes e indianos comerciantes que se utilizam dessa importante rota no século XVI. Voltando para as similaridades, temos um clima parecidíssimos e frutas iguais, quando não são iguais são primas (Jaca e Darian, entre outras aí) e como não é só de festa que os países são feitos, ambos têm a triste realidade de pertencer ao terceiro mundo, e tá passando por uma guerra muito grande contra as drogas (apesar de você não ver tanto por aqui porque o tratamento é um pouco, podemos dizer, diferenciado kkk). Mas sim, na minha opinião todos os dois vivem com esses problemas com bastante positividade e sorriso na casa, porque se dependêssemos dos políticos corruptos (de ambos os países), estaríamos fudidos.

BR .jpg

Bem, no final das contas minha apresentação extrapolou o limite de tempo e deixou o publico (aparentemente) contente com as informações, principalmente os indonésios que vibraram com as semelhanças. Mas em questão de apresentação, devo dizer que a China e a India derão um verdeiro show. Eu não sei o que acontece com indiano que toca uma música e os cara já tão se mexendo (os indonésios tbm, só que os indianos sabem).  Os caras dançaram mto pqp! (daquele jeitinho q vc tá imaginando mesmo, final de “who wants to be a bilionaire”, caminho das índias, dedinhos pra cima, cambalhota e as porra. Mas a Chinesa, a chinesa não paii. Ela é bailarina algo assim, de ctza! Acho que deu pra ver algo desses dois exemplos pelo meu instagram (stories). No quesito stande, devo confessar que o meu pouco bolo de rolo e guaraná conquistaram o público. Ele amaram guaraná e o bolo de rolo de Jambu Biji (goiaba aqui), meu estande (mesa) era lotado o tempo todo e todos comentaram muito sobre isso. Agora no quesito simpatia, os indianos também levaram, os cara são easy going demaaais! Gente da melhor qualidade e um deles, que já está no final do programa, me deu o cartão para ficar andando de metrô deles (que to usando bastante) e o outro me deu comida típica deles para mais de mês para eu trazer para casa. Sobre informações úteis, que alguns passaram sobre seus países (ao invés de dançar ou cantar), eu fico com a da amiga Fran (Francesca) que veio das Filipinas. Eu sempre tive muuuuita vontade de fazer uma tatuagem e sempre postergo porque não sei o que fazer, e na apresentação dela, ela nos mostrou Whang Od, a última Mambabatok, mestre tatuadora tribal que tem 90 anos. Neste caso, é a própria Whang Od quem escolhe a tatuagem de acordo com sua energia e oque ela acha de você e essa é a solução para minhas dúvidas que não sei escolher nem que refrigerante pedir em restaurante. Agora só temos 3 problemas: tempo (ela tem 90 anos), ir as filipinas e achar a aldeia da senhora (que pelo que li em blogs, demora 1 dia e 1 noite para chegar e nem todo mundo sabe o caminho). Uma coisa que não para durante esses encontros “pré-programa”, é que todos ficam me perguntando se eu sou o cara que vai fazer o projeto sozinho (tanto da AIESEC quantos os Voluntários), como se fosse a maior loucura do mundo, eu não entendo qual a grande diferença entre se tivesse eu ou +5 na sala comigo. Mas enfim, todos se reuniram e resolveram sair dali para ir no Beergarden (lembra aquele que eu fui com o casal e o outro brasileiro?) acreeedito eu que para tomar uma cerveja, pelo menos os menos religiosos. Maaans, eis que eu me lembro de um fato: um dia antes, meu parceiro Fiqih, me ligou pedindo desculpas dizendo que não poderia comparecer a Global Vilage, pelo motivo de que sua tia teria falecido naquele dia e como ofereci qualquer apoio que ele precisasse, fui convidado para ir a casa do avô dele no dia seguinte. Como nem tudo é festa (me parafraseando lá de cima), pedí desculpas aos demais e falei para Awal que iria encontrar com Fiqih, e para minha sorte, Awal e mais 4 amigas também já tinham marcado de ir lá, então fomos todos juntos.

Na catraca do metrô, pude ver foto de 4 sujeitos, então questionei sobre quem seriam. As meninas que ainda não tinham lido, responderam dizendo que deviam ser pessoas perdidas. Mas como não era usual para aqui elas foram dar um confere, e os 4 sujeitos eram ladrão que roubaram alguém no metrô (isso causou espanto para eles). Apesar da pobreza e desorganização, dentro dos vagões existe respeito. Adesivos informando para você não tocar nas mulheres, vagões exclusivamente femininos para as mulheres que não se sentirem a vontade de ir junto com os demais, milhares de bolsas colocadas nos apoios laterais superiores dentro dos vagões (sem medo que alguém leve) e o mais importante: o respeito ao mais velho. Se a pessoa é mais nova e a outra é aparentemente mais velha (pode ser até seus 45 50 anos) já é suficiente para você ceder seu espaço no banco para aquela pessoa, podendo acontecer também com mulheres, principalmente se tiverem com filhos. Bem, passada umas 6 estações, chegamos próximo a casa do avô de Fiqih. Na estação pegamos um Uber que foi entrando por becos e vielas até encontrarmos com o próprio Fiqih numa “rua principal”, que nos esperava para nos levar para a casa do avô. Chegando lá, sinal de respeito máximo, testa vai em direção a mão dos mais velhos, e a suas mãos que tocavam a mão da outra pessoa em seguida é direcionada ao seu peito (coração) e da mesma forma que fazíamos isso para esses mais velhos, todas as crianças faziam para gente (tinham bem uns 300 primos de Fiqih lá). Tiramos o sapato na parte de fora da casa, e lá dentro (sem cadeiras ou sofá), sentamos num tapete que estava estendido no meio da sala. Nesta hora estávamos todos em circulo reunidos, conversando e obviamente (não me achando), as atenções foram voltadas para mim pela minha diferença física com os demais. A partir dessa hora, todas as crianças, dessa vez também os adultos, queriam conversar bastante. Saber do brasil, falar do meu nariz, todos perguntam o que eu to achando daqui e, principalmente, mostram muita gratidão quando eu digo em que missão eu vim. A mãe de Fiqih me trouxe muita comida local, várias que não tinha visto ainda, eu também saquei meu bolo de rolo (tenham sempre com vocês kkk) e apresentei a todos, que também amaram. A noite, que supostamente era para ser triste, acabou em muuuuita risada, descontração e fotos (muitas fotos) com toda a família (do avô ao primo de 4 anos). Na saída todos me cumprimentavam muito, e eu só conseguia falar “Terih makassih” para agradecer a oportunidade de estar na intimidade daquela família tão boa. Alías disso isso a Fiqih, que sempre que tava na comunidade dele ou entre as pessoas dele, era quando eu me sentia melhor aqui na viagem. E ele me falou que todos estavam pedindo bastante para eu voltar mais vezes, que eu tinha alegrado a noite e por fim (uma ótima novidade), que o pai dele permitiu que ele se juntasse a mim numa viagem que farei na semana que vem a Yogyakarta para visitar as ruínas dos templos budistas e hindus daquela região, fiquei bastante feliz principalmente imaginando que eles estariam fazendo algum sacrifício incluindo um custo não previsto no orçamento da família, foi de bastante consideração, diga ai!

FIQIH.jpg

Na sequência fomos numa ruazinha lateral a casa fazer uma reunião sobre a aula que eu daria no dia seguinte. A reunião aconteceu num desses “street foods”, que eles têm de muito por aqui. Só uma conversa sobre o assunto já foi suficiente para vários insights do que fazer no primeiro dia de aula, além de aparentemente já ter conseguido hospedagem free na casa de um amigo de uma das meninas que estavam na reunião, em Yogyakarta (uuhul). No meio da reunião, enquanto a gente comia, chegou um (a) Drag Queen nesse ambiente (para espanto de todos). Eu que pensava que os (a) Lady Boys eram exclusividade da Tailândia, também fiquei impressionado. Mas eu não estava enganado, aquilo de fato foi um evento pontual e bastante chocante para eles. Para muitos, foi a primeira vez em que eles viram um gay na vida (sem ser Drag, só gay mesmo) então eu perguntei se o país supostamente não seria democrático (burramente), e rapidamente foi respondido que sim, havia democracia (por mais que tendenciosa para as tradições islâmicas), mas não era um país liberal que aqui então seria permitido ser gay, não só pela religião (qualquer uma delas) como também pelo estado. Foi ainda mais chocante para mim, mas não o suficiente para superar a felicidade que estava em ter feito tão bem àquelas pessoas um pouco mais cedo (e sugestão para AIESEC de possíveis próximos programas). De lá, com o grupo reduzido, fomos a uma livraria para comprar o material da aula. Como Momo (Monika), que tá me ajudando com o material da aula me avisou previamente que as aulas eram muito “procrastinadas” pela falta de atenção ou empolgação dos alunos em cada tópico, não era necessário diversificar tanto nas atividades. Então fui de giz de cera, uma resma de papel, 2 pilotos e no andar de cima daquela monstruosa “bookstore”, enquanto eu procurava o mapa mundi, me acendeu a ideia de comprar um livro para Paul, assim ele deixava o que tá deixando Ibu chateada um pouco de lado (Uma história de Deus) e entraria nesse que eu havia comentado com eles desde o ínicio da minha chegada, o Sapiens. Hoje conversando com ele, ele já tinha elegido o livro como seu melhor livro e já estava na página 60 e pouco (só da noite que eu presenteei ele), pensando agora só que confusão vai ser na cabeça do cara que veio da costela de adão, para o nascimento do primeiro homem muçulmano, agora ir para o Darwinismo. Espero que não dê tilt nos neurônios!

 

 

2 thoughts on “Troca

  1. Claudinha

    Rapazzz esse bolo de rolo tá rendendo demais! Kkkkkk que bom!
    Lipinho, homi de deus, Sapiens é INCRÍVEL, mas é bem ateu, quero MT saber qual será a reação de Paul. Acho que foi o melhor presente que ele poderia receber nesse momento. Vai clarear tudo ou dar tilt geral. Vamos ficar com a primeira opção. Eu to bem adiantadinha nele e as vezes fico meio tiltada e as vezes super clareada kkkkkk
    E pelo amor de deus não deixa ibu ler ele não hehehe
    E tô achando massa toda essa troca. Muita coisa legal e interessante, tenho que reler pra guardar tudo!
    E que massa essa trip!!! Quero saber mais depois. Bessos

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  2. Claudinha

    E to apx por fiqih. Tas escrevendo tão bem que todo mundo dai fica parecendo personagem de um livro e a gt que tá lendo vai se emocionando com eles.

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