Coexistência

Ontem e anteontem foram dois dias recheados de diversidades étnica e racial. Para aprofundamento no meu programa, fui junto com alguns membros da AIESEC em um bairro distante daqui. Acordei bem cedo e rapidamente me aprontei para me encontrar no terminal de trem com Awal e outras 4 jovens (todos muçulmanos) para partir em direção a Glodok, uma especie de China Town daqui. Para isso foi preciso pegar 1 hora de trem e alguns outros transportes alternativos que nos fizessem chegar o mais perto possível de lá. O percurso foi muito divertido porque as meninas (cobertas até os pulsos), se sentiram a vontade de tirar várias dúvidas sobre o Brasil e até mesmo bebida alcoólica, gravidez precoce e etc. A troca foi interessante! Chegando na estação, andamos alguns metros (toró/chuva dos infernos) e já pudemos nos encontrar com uma amiga deles da faculdade. Ela não usava lenço e logo me informaram que ela era budista e nos apresentaria à um templo que ficava ali perto. Então andamos em direção a uma porta nos levava a um mercado, através de um corredor estreito começou com produtos falsificados, tradicionais que passou pelas verduras e depois os peixes. Ums 400 metros adentro na chuva e cheiro ruim, foi possível ver um grande portão vermelho. Ali era o templo budista.

buda place

No templo estavam mais 2 estudantes da mesma universidade deles nos esperando, que também eram budistas. Todos estavam ali para me ajudar a entender melhor sobre a religião (em troca de nada material).  Começamos por uma parte onde era cheio de velas e incenso, aliás, tinha incenso a cada 2 milímetros de distância no templo, e devagar (bem devagar) fomos andando e eles tirando minhas dúvidas sobre os símbolos e estátuas que íamos vendo. Mais ou menos num formato de “U” (inverso), começamos pela direita, todo esse “corredor” era dividido em “baias” uns espaços dedicados a um (ou mais de um) Espirito. Olha a curiosidade… Os “espíritos” (melhor palavra que eles acharam para definir aquelas estatuas), são de pessoas que viveram em outros tempos e foram muito boas em alguma coisa e para o povo em geral, viu alguma semelhança aí? Pois é, a diferença deles para os santos católicos é que no budismo eles acreditam que por serem tão bons, e terem reencarnado tantas vezes e melhorado tanto. Essa última versão vem em forma de espirito e habita o “paraíso” para sempre. O mais importante deles é o Buddah (o gordinho risonho), que assim como em qualquer religião, foi o profeta que veio para passar todo o seu conhecimento a humanidade. Por favor, peço que se alguém souber mais do que isso ou se tiver algo de errado me corrinja (kkkk) o inglês não é dos melhores para um entendimento 100% correto.

budinhas.jpg

Continuamos andando até que o mais curioso deles, Rama, me perguntou sobre a minha religião (fudeu), logo respondi que não tinha religião. Na verdade, achava errado àquele fanatismo, àquela limitação de construir sua vida baseada em um livro. Costumava até dizer que a religião era boa para bitolar aquelas almas perdidas (bandido, assassino, estuprador) que talvez assim eles fossem transformados em zumbis e não voltassem a cometer mais tais crimes (mas essa parte eu não precisava expor), então limitei a minha explicação a dizer que acreditava no “bom”, que independentemente de religião se a pessoa faz as coisas certas, e dá mais do que pede o caminho dela vai ser iluminado. Ele rapidamente concordou, mas 15 metros depois (andando em direção a um restaurante), ele me perguntou como era não ter uma religião. Ali eu repeti a questão da bondade, indagando que existiam pessoas eram extremamente religiosas que não usam isso para o bem, ou que se dizem religiosas, mas não fazem nada pelos outros. Dessa vez ele concordou com uma cara mais tranquila, e reafirmou que de fato no budismo haviam pessoas convertidas apenas para pedir (coisa que diferente do templo Zu Lai de SP, aqui uma pessoa de fora não pode fazer). Eu e Rama tivemos muita identificação, ele era muito interessado pela maneira de pensar das outras pessoas (não o oque vestimos, dançamos ou jogamos como os outros perguntam), e durante o almoço pudemos conversar bastante sobre vários assuntos, entre eles ir mais a fundo na religião budista. É uma religião muito bonita que prega muito sobre se entregar e doar, mas que ao decorrer dos anos as pessoas usam mais para pedir do que agradecer (como qualquer outra religião) . Já no almoço uma quarta pessoa chegou, esse me apresentaria outro templo. Um que ele era mais familiarizado que os outros 3, saindo do almoço fomos todos juntos conhecer. No caminho passamos por uma Gereja (Igreja) que tinha arquitetura oriental, mas era voltada para os devotos de Nossa Senhora do Carmo, e em seguida encontramos o Templo. Esse templo era um pouco mais simples e menor que o outro, mas a grande diferença é que era mais “aberto” a pessoas de outras religiões. Na verdade, os visitantes ali eram na sua maioria descendentes de chineses (como no outro) mas que tinham o budismo como uma segunda religião (tipo um católico-budista), não sei como funciona, mas só veio na minha mente uma pessoa esperta querendo pedir pra 2 messias ao invés de um (kkkkk), nem entrei muito no assunto.

no templo

Em seguida saímos de lá e fomos e fomos num mercado aberto chinês, cheio de tranqueira, comida e coisa falsa. O mercado tava todo vermelho (de roupas e adereços), em menos de 2 semanas teremos o ano novo Chinês, e aqui é feriado nacional. Já era hora de partir e ainda tínhamos um longo percurso para casa. Mas antes de voltar paramos num grande armazém de doces, onde eles ficaram muito entretido enquanto eu fiquei do lado de fora dando uma olhada melhor no mercado. Já na hora de pegar o transporte para ir para o terminal, o último rapaz que havia chegado me presenteou com doces, e agradeceu pela companhia. O povo é foda!

homem mercado.jpg

Chega fiquei sem jeito porque não tinha comprado nada pra ele. O caminho comprei meu ticket do trem, e mesmo em horário de rush, conseguimos pegar o trem vazio (era o primeiro ponto), e conseguimos sentar. Ao meu lado veio Rama querendo saber mais ainda, ouvir as músicas que eu ouvia (ele achava que feeling good era de Michael Bublé), e me mostrou alguns pontos imperdíveis para ir na Indonésia. Chegando no terminal, pedi meu Uber moto, 4 minutos depois chega o cara e me entrega o capacete mas antes que eu pudesse sentar, uns caras colocaram ele pra correr. Awal que estava comigo ficou muito assustado achando que o cara tinha roubado algo, mas não, é a mesma confusão de Uber e Offline que tem aí no Brasil. Os caras do Offline mandaram eu dar o capacete para eles e dizer ao cara (pela mensagem do app uber) que se ele quisesse viesse buscar. Claro que me saí dessa confusão, pedi outro e andei um pouco para pegar. 1 hora depois de confusão e percurso, enfim, em casa. Aqui em casa só estava a mãe de Paul, o pai e Quézia. Logo que entrei, ela muito simpática me perguntou se eu queria que ela fizesse um café para mim. Ela se esforça muito no inglês, na maioria do tempo nos falamos por Google Translater (conversa engraçada né?), mas ela tá sendo muuuuuuuito mas muito legal comigo. Eu percebo porque a cada dia chega um produto (que não é local) aqui em casa, ela me oferece pão holandês (importado), um bolo de chocolate light (porque eu disse que tava de dieta com medo das comidas muito pesadas), e por aí vai. Sempre tento retribuir com o pouco que tenho, dessa vez foi a hora do Bolo de rolo, que fica guardado ali pra emergência de troca cultural. Na mesa, enquanto tomava café, pedi ajuda a ela (professora) para me ajudar com os exercícios das crianças que eu vou ensinar, ela prontificou logo de cara. Até para lavar as roupas, ela me perguntou se eu queria ajuda no sábado. Como tudo que to falando com ela, começo as frases com “não quero incomodar”, dessa vez ela foi além da carinha de “não tá incomodando” balançando a cabeça e mexendo com a mão, e escreveu para mim: “Eu não me sinto incomodada, estou feliz em estar ajudando, eu já considero você da família”, e completou pedindo para eu chama-la de Ibu (mãe) e o pai de Aya (pai) se eu me sentisse a vontade. Rapaz, quebrou minhas pernas. Não é só ela, o poder de sentir e falar ou expor de alguma maneira, fica clara quando você fica entre eles por aqui. E sem nenhuma obrigação, e com naturalidade direcionei minha cabeça as mãos dela agradecendo (makasih) por aquilo.

Em seguida, sentados (eu, Paul e Ibu – como vou me referir a mãe de Paul por aqui a partir de agora), estávamos assistindo TV, e eu e Paul começamos a falar sobre um livro que ele estaria lendo. O livro é o “Uma história de Deus” ou “A história de Deus” como ele me traduziu. Para me falar melhor sobre o livro, ele foi pegar lá dentro, e assim que Ibu viu o livro não ficou nada contente. Me direcionou a palavra dizendo que não gostava nada desse livro, e ficou esperando uma resposta minha. A única coisa que pude falar é que era “expansive” fazendo um gesto de abrindo a mente. Mesmo assim ela continuou mostrando a insatisfação e falou que estava muito preocupada porque Paul não acreditava em Jesus, e disse que realmente esperava que eu acreditasse. A situação ficou um pouco chata, mas logo em seguida ela foi pro quarto, e antes de qualquer “piu” que a gente pudesse dar na sala, ela veio com uma tradução no celular dizendo que estava muito triste porque Paul não acreditava em Jesus, e esperava muito que eu pudesse ajudar com isso, assim que eu li, balancei a cabeça positivamente para ela e ela voltou para o quarto. Logo depois eu e Paul iniciamos um diálogo sobre religião um pouco longo, que vou tentar resumir aqui. Tentei mostrar para ele que a base teórica e o fim que toda religião procura é a paz de espirito através do respeito e boas ações (dar mais e pedir menos), e que a religião de certa forma era uma tentativa de materializar seus discursos mostrando qual tinha mais força através de símbolos e suas histórias. No final da conta temos santos, temos profetas (messias), em todas elas em diferentes formatos, só mudamos o nome dos personagens e do Deus. Ele começou dizendo que a maior preocupação dele era a mãe dele ficar triste, porque se ela ficasse triste, ele também ficaria triste, logo depois ele concordou com o que eu havia falado. Mas que o discurso da igreja católica e cristã é muito frágil e o livro muito dúbio. Explicou de onde veio a Bíblia, associou o Natal com o aniversario de um Imperador Romano, entre outros discursos (e assumo que por ser muito estudioso e curioso sobre história ele é bem convincente), então já sem munição, pedi que ele não definisse a religião dele, por enquanto ficasse em paz e estudasse mais as outras possibilidades antes de assumir qualquer indisposição em casa ou papel na sociedade religiosa (que aqui é uma grande coisa), até convidei ele a ir nos templos comigo e conhecer uma terceira ou quarta versão de Deus. Aparentemente ele ficou convencido, mas ao mesmo tempo pediu que eu assistisse a um vídeo de um ex-pastor, atual sheik, americano que conta em um programa de TV árabe a história de como ele se converteu ao Islamismo. Realmente o cara tem discursos bem fortes que o fizeram mudar de opinião, chega a ter alguns pontos que você até gosta assim como as outras religiões também acendem isso em mim. Chega a sexta, ou Jumaah para os árabes, um dia de reza importante nas Mesquitas e Paul se mandou assim que deu a hora (kkkkkk) ou seja, não fui nem um pouco convincente tentando trazer ele para o times dos “não religiosos”. Ou melhor dizendo, multi-religioso, já que me identifico um pouco com cada uma que conheço e estou a procura de atingir o que todas esperam de uma pessoa, ser melhor todos os dias.

 

Para quem quiser ver o vídeo do ex-pastor e atual Sheik americano, segue o link:

https://islamhouse.com/pt/videos/386822/

One thought on “Coexistência

  1. Claudinha

    Que foda esse post! Tô muito admirada e curiosa com toda essa questão religiosa dai. Como é importante essa definição de isso ou aquilo ne?!… tas escrevendo MT bem, tô me sentindo solidária a Paul na busca dele(sei bem oq é heheh), chorei com a parte da tua ibu(que pessoa linda), e feliz em saber como esse povo é massa e como são almas boas e gentis independente da religião.
    Ainda bem que tu vai parar de chamar ibu e aya de pai e mãe de Paul, eu só ficava imaginando os pais da vaca e o frango do desenho, tu falava deles e eu via só as pernas.
    E fala pra Paul que espiritualidade é diferente de religião. Budda diz que nao existem verdades de uma religiao ou outra, a unica verdade é a que lhe faz bem, e cabe a vc testa-las. Depois mostra uns vídeos no YouTube que guruji fala sobre espiritualidade em inglês. (Agr da uma introdução pra ele n achar que é hinduísmo puro kkkkk) mais uma religião vai remexer a cabeça do rapaz não dá ne?!
    Beijos lipinho, adorando ler!!

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s