Respeito e Educação

 

Acordei ansioso, nesse dia teríamos mais informações sobre o programa. Informações que tento obter desde o começo (lá no Brasil). Posso dizer que tudo o que sabia sobre a Beyond Race, Wave 2 (o nome do programa e a temporada em que ele aconteceria), era que era um trabalho educativo com crianças de 8 – 12 anos contra a intolerância Racial. Que eu trabalharia 5 horas por dia nessas escolas dando “aula” e conversando com elas sobre o tema.

Então levantei bem animado, tomei meu banho, aprendi como demonstrar o respeito ao mais velho e repeti o gesto com a “host mother” , que aparentemente ficou muito feliz. Mesmo que fazendo o básico, já acho que foi de grande avanço no nosso relacionamento que vai se estender por muitos dias. Saindo de casa, Paul me ofereceu uma carona, como por aqui não tem Wifi e a internet dele tinha acabado, ele iria até a livraria da universidade se conectar para fazer as coisas dele. Já eu, cheguei 40 minutos antes das reuniões porque realmente tava muito curioso. Queria aprender como ensinar, como é seguir um plano de aulas e se eles já tinham isso pra mim. Principalmente, ir mais fundo no meu tema para poder apresentar com mais confiança. O tempo passa, o pessoal começa a se reunir, começam a se dividir entre os programas (já que seriam aulas diferentes), e eu que estou só no meu programa, fui colocado junto a um grupo maior que iria para uma aula de “Reasearch” (assunto que já era muito familiarizado pela Faculdade e Pós-Graduação no Brasil), acho que pela idade e ânsia, devo ter sido o mais interessado na aula, ali eu via cada tópico que a jovem muçulmana, formada e mestre de uma faculdade na Nova Zelândia, passava. E tudo que era assunto eu tentava correlacionar com Crianças e Racismo. Seja uma pesquisa em sala para saber qual, de fato, era o problema deles ou porcentagem de cada diversidade para cada escola que eu iria “ensinar”. Mesmo assim, ainda tava meio confuso. Em meio a uma conversa com uma das “diretoras” de um programa que estava do meu lado, Programa “Elighten Batavia” de empreendedorismo social (que pretende ajudar a população que ainda é influenciada por essa cultura a desenvolver negócios rentáveis no dia de hoje sem deixar as raízes), ela me contou que todos que estavam na sala faziam parte do programa, e me perguntou a importância do Research nas minhas aulas. Nessa hora aí a pulga coçou atrás da orelha, deu uma agonia por dentro e eu não podia guardar para mim. Eu já havia questionado milhares de vezes o Awal sobre o programa, e sempre era respondido com um pedido de desculpas e que ele me falaria depois. Isso também aconteceu com as programações das aulas e outras informações. Aproveitei uma hora que o vi saindo da sala e saí junto. E mostrei para ele que estava muito desapontado com o programa e AIESEC. Toda hora me falavam da minha importância para Beyond Race (programa mais antigo e premiado da AIESEC no sudeste da Ásia), eu era o único que tava assumindo aquilo ali (os outros 4 voluntários não puderam vir por problemas pessoais em seus países). Mas assimilei aquela “importância” a algumas fases de diferentes empregos que tive no passado. Às vezes eu tava à tona no trabalho: projetos, grandes mudanças, grandes reuniões e etc. Mas as vezes me via meio perdido, sem saber se de fato fazia diferença para a empresa que eu tava (o que eu tava fazendo ali). Só que o “ali”, dos meus empregos, eram a 5, 20, 30 minutos de casa e dessa vez eu tinha atravessado o mundo para me fazer útil para quem realmente tava precisando e não medi as palavras ao falar com o Awal e outra “diretora” da AIESEC aqui. Disse exatamente que vim de longe para ser útil e que se não tivesse sendo útil iria para algum programa que realmente tivesse precisando de vountários (como o de crianças com câncer e empreendedorismo social em Bandung que fica a 3 horas daqui).

 

A verdade é que orientais não reagem tão bem a tanta pressão, ele ficou bastante envergonhado e não parou de pedir desculpa. Disse que até a tarde estaria tudo pronto para me apresentar. Então ainda encucado, saí para almoçar com Fiqih e outros voluntários e voltamos para uma aula geral (de todos os programas), de “Pedagogia”, de fato essa aula foi bem legal e importante. Ali uma “consultoria” Indonésia nos passou o perfil do estudante, segredos para ter sua atenção, e atividades dinâmicas que poderiam se adaptadas e aplicadas para todos os programas. Bastou àquele calor e empolgação da aula baixar, para eu voltar a ficar encucado. Não tava engolindo a saliva direito e só lembrava de uma coisa que Cecilia, uma amiga que fez dois programas do AIESEC (Egito e Sri Lanka): Cuidado porque são todos jovens muito ansiosos e muitos bem intencionados querendo fazer diferença impactando o mundo e sua realidade de alguma forma.

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Mas para minha (meia) felicidade, ao sair da sala, estavam reunidos uns 5 membros da AIESEC que me convidaram para uma reunião onde seria me apresentado minhas atividades. Saímos e na lanchonete eles abriram um note, lá tinha um ppt bem completo (para falar a verdade), descrevendo a grande importância da minha permanência no programa, explicando todas as siglas (dúvidas básicas) do meu schedule (programação) e o mais importante, com meu “Day by day” COMPLETO! Não era só meus dias de aulas e aonde seriam, ali eu já tinha que assuntos a abordar por aula. A criatividade de como abordá-los (exercícios e etc) e quanto tempo para cada atividade é comigo. Aí sim fiquei tranquilo. Aquela “meia” felicidade se tornou inteira substituiu minha apreensão e agonia. Só explicando de maneira bem resumida qual o problema racial do país: Os chineses chegaram há muitos anos na Indonésia, e com sua velocidade e esperteza conquistaram o mercado econômico local bem rápido. Vamos dizer que eles hoje são os donos do dinheiro por aqui, são presidentes e donos das grandes empresas locais, além disso, reivindicaram por um nome Indonésio como uma espécie de “Título de cidadania”, além de já ter conquistado altos cargos no governo do País (Ex- governardor de Jakarta, capital do país). Os indonésios, principalmente os muçulmanos, não gostaram (ou invejaram) essa evolução dos Cina (Tchina) por aqui, eles não queriam perder suas tradições nem território no seu próprio país. Além dos problemas econômicos, essa conquista politica dos chineses deixou os indonésios com um pé atrás, já que no passado eles tiveram grandes problemas com o comunismo no país e foi muito doloroso para eles conseguirem erradicar essa politica daqui (terminou não sendo muito resumo né? Kkkk).

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Feliz da vida, acabamos a reunião. Coincidentemente, Paul que estava na biblioteca, me mandou uma mensagem no LINK (app de msgs mais famoso entre os jovens daqui), me perguntando se eu queria carona para casa. Claro! Apesar de ser uns 25 minutos da Universidade pra casa por apenas 1 dolar (de moto), uma carona é sempre bom né? Ainda mais essa… No caminho ele me perguntou se eu não gostaria de visitar a High School que ele teria estudado e já vi que tinha aceitado o convite indo com Fiqih antes, aceitei o convite dele também.

 

As escolas aqui são muito parecidas, segundo Paul me disse, são padrão. Geralmente são grandes, tem quadras e são organizadas. Educação me pareceu ser um ponto em que o governo não mede esforço nos investimentos. Fomos caminhando pela escola enquanto Paul ia me apresentando os poucos funcionários que estavam lá, Mas lá atrás, em uma segunda quadra, foi possível ver um “treinamento militar” com mulheres e homens presentes. Não, apesar de muitos quarteis espalhados nas cidades (que conheci, Depok e Jakarta) a escola não era do exército. Segundo Paul, aquela era uma aula de disciplina e assim como FIqih já tinha me falado, eles são educados desde cedo a respeitar os professores, é como se eles fossem sagrados por aqui. Merecem o mesmo respeito que você tem pelos seus pais. E disse que era menos importante uma escola bem rankiada pelas notas das matérias normais do que pela educação e respeito dos alunos aos professores, muito legal né? De cara já veio uma fita rebobinando sobre minha vida na escola e rapidamente lembrei de um professor meu da época do colégio com quem não fui muito respeitoso. Então, já peço desculpas! Por mais que eu não gostasse dele, a imagem dele não me vem a cabeça hoje quando estou com raiva de alguma coisa ou por outro motivo qualquer, a não ser quando lembro do terceiro ano da escola. O ideal é que não tenhamos que fazer esforço para amar alguém, mas se temos espaço disponível dentro da gente para fazer, por que não né? Acima disso, se vai me trazer paz pessoal e me faz esquecer do passado e viver presente sem “ressentimentos”, essa certamente é a melhor escolha. Respeito!

2 thoughts on “Respeito e Educação

  1. Claudinha

    Que incrível o respeito deles pelos professores e pelos mais velhos, amei saber disso!
    Parabéns pela iniciativa de colocar uma pressãozinha lipinho, arrasou.
    E que coisa curiosa isso dos chineses, ô povinho empreendedor, a Rua de Santa Rita que o diga.

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  2. Claudinha

    Ah, e gostei do “pedido de desculpas”/reconhecimento em relação a silvio ehhe. Engraçado como essas recordações voltam ne?! Ainda bem, assim a gt consegue aprender e melhorar sempre!
    Ah2, e achei massa vc aprender a ensinar, válido demais e importante pra tudo!
    Bessos

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