Descobertas

Me despedi de Jakarta e seguí caminho. Jakarta é uma cidade muito grande, cheio de mazelas, muitas pessoas, desigualdade social e transito bastante caótico, assim como a maioria das cidades grandes (principalmente as subdesenvolvidas) aí pelo mundo. Meu caminho até a Universidade da Indonésia, onde já havia ido, foi preenchida por muita risada e conversas (meio confusa) com Dani the driver, um cara muito espirituoso, dedicado e trabalhador (talvez pelas circunstâncias da vida). Ele é cristão, não muito religioso, tem alguns calos que talvez a vida tivesse criado. Ele veio de Sumatra, não gostava de coreanos ou muito de muçulmanos (a mulher dele era muçulmana e teve que se converter a católica para casar), não gostava muito da policia por achar que eles são todos corruptos, e todos os “flanelinhas” que pediam dinheiro na rua eram “gangstas” para ele. Em meio a tanta conversa, fomos a fundo pelo menos em uma dessas barreiras que ele tinha na vida, os muçulmanos. Para ele, todos eram muito radicais, eram Osama Bin Laden ou faziam parte do ISIS (ele falava brincando), mas foi muito fácil de compreender porque ele pensava dessa forma. Nos anos 90 , em Sumatra, foi travada uma guerra entre o norte da ilha contra o governo indonésio. Aceh, o norte da ilha, era povoado na sua maioria por extremistas muçulmanos, e em meio ao conflito, Dani que era jovem na época, foi convocado para se unir a Marinha Indonésia no combate a essa força radical, que tinha por fim tornar-se um país independente. Apesar de ser da Marinha ele era do morteiro e atuava em solo e em um certo momento durante a guerra Dani caiu numa emboscada com um “grande amigo” onde foram capturados por algumas horas. O amigo de Dani foi morto (degolado) na sua frente, e ele disse que correu pela sua vida, e isso lhe trazia bastante lembranças na sua memória, principalmente durante o sono. E era por isso que gostava mais de trabalhar e se manter acordado. Se desprender do passado é muito difícil, viver o presente exige uma grande habilidade, ainda mais nessas circunstâncias, e é por isso que passei a admirar profundamente aquele cara que conseguia colocar o sorriso na cara todo dia ao se apresentar pra trabalhar, sem reclamar de exatamente de NADA.

2018-01-17 09.01.19 1.jpg

Então, chegamos um pouco mais cedo na Universidade, onde eu e Awal (da AIESEC), marcamos encontro com Paul (hostbrother), e ele conseguiu me adiantar algumas informações antes da apresentação. Ele me passou que a família “infelizmente” não era muçulmana como 90% (ou 85% como eles dizem aqui) dos Indonésios, e sim Cristã. E que eram cristãos ferrenhos (nessa hora já não sabia o que teria sido melhor mim) “no problem at all” foi a única coisa que saiu da minha boca mesmo com um medo arretado kkk, e para completar, me pediu para não expor a minha “falta de religião”, tentar desviar o assunto sempre que corresse para esse viés (fudeu, vou viver numa armadilha de deus). Aí chega Paul, rapaz magro, mais alto que estatura normal do povo aqui (que são bem baixos), meio tímido. Awal sem muita habilidade para apresentações, então saí na frente e tentei puxar uns 2 ou 3 assuntos (que não se prolongaram nem por 4 segundos) sendo limitados por “yes” ou “no” … Então foi quando Awal disse que Paul tinha um intuito de melhorar o inglês dele durante a minha visita, essa era de fato uma troca cultural. Desse ponto foi possível iniciar uma conversa, e como sempre puxou para comida. Então lá vai eu com minha mala de 30kg, arrastando até uma “cantina’’ da universidade. Chegando lá bate o silêncio de novo, então através de uma informação inusitada, Awal e Paul me fizeram uma confissão. Paul estaria seguindo o Alcorão e pretendia seguir o Islamismo, assim como o amigo Awal, o problema é que a família nunca aceitaria. A mãe cristã (protestante) junto com o outro Irmão (único, fora eu e Awal que sabe do segredo) e a irmã mais nova, enquanto em paralelo o pai segue o catolicismo de forma mais tranquila. Ao contrário do que você deve tá pensando, essa “bomba” não deixou a conversa mais pesada, muuuuito pelo contrário… Ali eu me bem mais tranquilo, não tava só na onda dos “errantes”.

Com todos mais à vontade, tomei a liberdade de tirar várias dúvidas sobre a religião que ele queria seguir, descobri muita coisa que eu nem imaginava. Geralmente muçulmanos não tem cachorro em casa, por que a saliva deles é suja e quando você tá sujo pela saliva do cachorro, você não pode rezar se não se lavar (só cachorro). Para se lavar existe um ritual, não é só ir ali e passar uma água na mão não, tanto que tem uma torneira ou um recipiente com água nas mesquitas. Eles não podem comer porco, anfíbios ou qualquer outro bicho que tenha presas (dentes afiados). Bebida nem pensar. Namoro? Kkkkkk não pode nem se tocar filhão (oq achas c. renda), vai namorar pra que? Bem que eu tinha desconfiado que não tinha visto nenhuma bitoquinha por aqui. Tudo isso só é permitido depois do casamento, ainda assim em publico não acontece. Já perto da hora da oração deles, Paul pediu permissão para usar o quarto onde eu ficaria para rezar escondido de vez em quando (não negaria nunca) e em seguida eles entraram para uma mesquita ali perto. De lá, fomos para casa (finalmente), em casa Paul me mostrou os banheiros, os quartos, pediu que eu não entrasse no quarto dos pais dele (naturalmente ninguém faz isso né?), e sem muitos lugares para sentar fomos pro chão. Ele me perguntou se eu me incomodava, mas claro que não. Já no chão, ele me trouxe algumas comidas locais… Tipo um amendoim e um doce daqui, já achei uma ótima oportunidade de oferecer Guaraná (trouxe 5 de 1 litro na mala) e sonho de valsa. Os dois adoraram o Guaraná, acharam muito refrescante e gostoso, só ficaram meio enojados quando mostrei a fruta no google (não é pra menos), sobre o sonho de valsa: chocolate é chocolate, igual em todo lugar do mundo. Sonho de valsa só presta pra levar pra brasileiro que tá há muito tempo longe de casa mesmo. E tome mais conversa até a hora de Awal partir, já eram umas 14h e tínhamos uma Welcome “Party”, às 17h. Eu já tava morto, acabado, desfalecendo de cansado e não tinha feito nada demais, então pedi licença a Paul e fui deitar. Dar aquela cochilada de 1 horinha que você não acorda mais nunca. Pois foi, acordei em cima da hora do negócio, troquei a camisa e ele me deu uma carona (moto), para o terminal de metrô onde eu encontraria com Awal novamente. Eu tava cansado, tava chovendo, céu feio, muita gente na rua, cheiro ruim, correria, metrôzão balançava mais queumcarai, paga aquilo, paga isso. Chega na estação “perto” da festa, corre 600 metros na chuva, no esgoto, chega no lugar da festa. Segundo andar de um “bar” (não vende bebida), umas 30 pessoas. UM ocidental, rola aquela identificação (não tem como fugir disso), mas resolvi não ir cumprimentar (exercício mental para não correr pra famosa zona de conforto de novo), ficar entre os locais e os chineses que me receberam bem naquela salinha apertada e quente. Papo vai, papo vem, devo ser o mais velho entre todos presente na sala. Apresentação de um a um em Bahasa (a língua daqui): Selamat Sore, Nama saya Felipe, Saya Dari Brasil, Saya dua puluh enam tahun, makasih, dadáa (tchau). Lá em cima eu havia colocado festa entre aspas porque não era uma festa (kkkkk), eram brincadeiras tipo dança da cadeira misturado com “eu nunca”, aquela que se você se identifica com a pessoa que disse que nunca fez tal coisa você tem que beber – neste caso só trocar de cadeira. Conheci uma Filipina, gente boa… Mas tava em outro programa. Claro, tô sozinho no meu programa, como poderia ser do meu? Kkkk. Na verdade tava meio sem paciência, cansado mesmo. Já tinha passado da hora que Paul tinha mandado eu chegar em casa (sempre em torno das 19, 20h), então junto com Fiqih (meu parceiro), me despedi da galera assim como todo mundo e partir de volta para estação de metrô. No trem tava o Ocidental, então vamo papear né? Kkkk mexicano, veio nas férias da faculdade de Arquitetura que cursa em Denver (EUA), geninho do cacete, citou mais capital do brasil do que eu possivelmente sabia. Sabia onde era Recife, e só em SP falou umas 5 cidades diferente e o detalhe era que ele nunca havia ido para Brasil, apenas gosta do Google Maps mesmo. Aí chega na minha estação (7 pontos depois), e vou pedir um Uber moto… Essa lenda durou horas, a moto aqui não vai até você, você vai até o ponto que ele decide ir te buscar e até lá muita chuva, muito esgoto, muito rato. Santo Fiqih me ajudou com tudo, e mesmo assim só fui conseguir a moto, meio suado, meio molhado, lá pras 22:30.

20180115_230428

Chego em casa morto, Paul tava de boa do lado de fora me esperando (na verdade acho que ele não demonstraria no primeiro momento se tivesse com raiva), nem ousei perguntar se poderia tomar banho. A mãe dele (muuuito gente fina) tinha dado um jeitinho ainda melhor no quarto que eu ficaria. Deitei ali e ainda fui ler meu livro pra ver se dava uma energizada. Que dia ein? Tava cinza, carregado. Já não aguentava mais, além de ter ficado com uma péssima impressão de Depok.  Mas né que o bicho é bom mesmo? Me apeguei a um trecho que dizia: “Você pode pensar que seu ambiente cria você, mas, na verdade você cria o seu ambiente”. “A aceitação do momento presente é inevitável. Ele aconteceu como aconteceu. Se você quer que seja diferente, ele só pode se tornar diferente no momento seguinte. Apenas quando você aceita que é e se torna calmo, você pode realmente mudar alguma coisa.” E foi esse trecho que me fez fechar o dia 15/01 e começar o 16/01 em outra vibe totalmente diferente!

Obs: aqui já é 17/01

3 thoughts on “Descobertas

  1. Sandra

    Que você possa transmitir a todos nós cada minuto dessa sua experiência de uma forma que todos nós possamos ser muito melhores. Fiquei muito aflita, mas hoje, acho que essa experiência e coragem vai fazer de você uma pessoa ainda melhor do que sempre foi. Te amo. Cuide-se❤️

    Like

  2. Felipe, fiquei arrepiada com a historia do Dani. Que sofrimento. Que tristeza. Que experiencia de vida tao pesada. Isso explica tanta coisa…, alias explica porque NINGUEM ficou chocado quando o mezanino da bolsa de valores desabou, ha dois dias, aqui em frente ao nosso escritorio. Acredito que o povo indones esteja acostumado a conviver com a tragedia. Porque estao neste arquipelago cheio de manifestacoes da natureza – vulcoes, tsunamis, terremotos, e porque sao independentes ha tao pouco tempo, tendo passado por tantas adversidades nesta vida. Possivelmente as historias dos avos, sao de cortar o coracao. Enfim. Vambora que a vida nao para. Foco e fe na sua jornada!

    Like

  3. claudiinha

    Caramba Lipinho, que história a de Dani. 😦
    E que surreal o extremismo religioso dai!
    Terminou me lembrando uma conversa que tive com teu tio Rui esse fds, ele tava me contando sobre algumas teorias de como bases religiosas influenciam na economia, como muitas vezes “estimulam” a riqueza(protestantes nos EUA) e como por vezes “estimulam” a pobreza… Isso bem resumidamente. Vai ser um bom assunto pra trocar figurinha depois da sua experiencia por ai…
    E tu tas se garantindo cada vez mais na narrativa hehehe
    bjssss

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s