Impermanência

Nos primeiros 6 dias de viagem, vivenciei um grande contraste junto com os amigos Gunnar e Leticia. Enquanto estava em seu ciclo e sua casa, tive a oportunidade de ver uma Jakarta por uma perspectiva que muitos que vivem aqui jamais terão a oportunidade de ver durante a vida inteira. Eles me proporcionaram dias incríveis, conhecendo todos (todos mesmo) os pontos turísticos da cidade com muito conforto e cuidado. Disponibilizaram Dani the driver todos os dias para me acompanhar para todos os lados, e apesar de realizar algumas caminhadas sozinho tentando entrar na veia da cidade, sempre voltava para dormir numa casa maravilhosa, com conversas leves, comida de primeira e pessoas incríveis. Então esse post vai para meus últimos dias ainda numa “zona de conforto”.

Sabadão, pós balada, acordei um pouco mais tarde, mantive a rotina (matando a corridinha) e resolvi dar uma descansada, passar o dia mais tranquilo aproveitando os últimos momentos com o casal. Ao decorrer do dia, realizei que deveria agradecê-los de alguma forma por tudo que eles me proporcionaram. No inicio havia os presenteado com uma boa cachaça, guaraná e sonho de valsa, mas o que era aquilo diante de tudo o que eles fizeram por mim né? Deu até vergonha hahaha. Então seguindo uma “dica” que Tetê (amiga de Lisboa) jogou no ar durante uma conversa que tivemos no direct do insta (ela me perguntou se eu sabia cozinhar), resolvi entender a mensagem e encarar o desafio. Afinal, se não desse certo, o esforço já é uma nobre maneira de mostrar gratidão (na minha opinião). Então fiquei matutando o que poderia fazer que não fosse tão simples, que exigisse mais de mim (esforço é esforço) e opinei por um risoto em uma cestinha de parmesão que achei a receita no site da Band (obrigado Band!). Aproveitei a tarde uma ida de Leticia ao mercado e peguei uma carona para comprar os ingredientes do prato, planejando prepara-lo no domingo para o jantar. Me preparei todo, vi o que já tinha na casa, e fui atrás do que ainda restava para completar a receita. Cheguei no mercado com a seguinte lista:

– Sebuah bawang

– Bumbu dagin

– Keju parmesan, lima puluh gram

– Babi pinggang, seratus gram

– Bacon enam puluh gram

– Rosemary (não tinha)

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E para sobremesa, Es krim vanilla que eu colocaria com o bolo de rolo que Claudia levou de Recife para SP antes da minha partida. Haha. Comprado os ingredientes voltamos para casa, naquele dia mais tarde haveria um churrasco com um casal de amigos e já estávamos no limite da hora. Chegamos, rapidamente, nos trocamos e saindo percebi que não íamos de carro. Para minha surpresa, o churrasco era no vizinho. Para minha surpresa (x2) os vizinhos eram cariocas (muuuito gente fina por sinal). Gustavo, gerente geral da Danone veio há 3 anos e trouxe mais tarde a família (Marcela + 2 filhos e cachorro) que já moravam perto (Bangkok) para o convívio. Todos esses presentes no churrasco de certa forma tiveram uma grande felicidade, todo mundo podia se confortar nesse convívio mais íntimo, apesar da distância dos amigos, família e costumes dos seus países de origem. E muito além disso, como já disse, evoluir mais do que qualquer pessoa que tá na comodidade do seu país e sua cultura. Aqui existem milhares de oportunidades e modelos de negócios que podem ser reproduzidas, exportadas, importadas ou melhoradas (tô tentando não deixar passar nada, até na Pitaya por 3 reais no mecardo, eu to de olho haha), fica até chato a maneira como quero saber de tudo. Os dois, Gunnar e Gustavo, são viciados e profissionais em churrasco, então você já pode imaginar a qualidade do negócio. Mais uma noite de trocas, com pessoas legais que certamente já agregaram bastante a minha estadia por aqui.

Acordei no outro dia, dei aquela queimada na corrida de novo (fds né kk), e fiquei em casa. Antes da hora do almoço, fui dar um último rolé com Dani. Conhecer o pouco que faltava dos pontos turísticos da cidade. Começamos pelo Macan Museum, que pra mim foi o auge do dia. O Macan é o primeiro museu de arte moderna do país e por uma pechincha (50 mil rps – 5 dolares), foi possível ver muita coisa interessante (até tentei passar muitas delas pelo stories no instagram). Por aqui vou dar uma rasante resumindo minhas impressões: A experiência não é só sobre as obras que estavam no museu, era sobre a reação das pessoas que visitavam o lugar. Imagina só o choque cultural que era para uma muçulmana conservadora tradicional ao dar de cara com um quadro com um priquito e uma pomba, a turma tinha vergonha de encarar essa tela. Passavam rápido, rindo ou fingindo que não viam, mas certamente chamava muita atenção. Outro ponto observado, é que eles não paravam de tirar selfs e fotos de qualquer coisa que vissem (as vezes sem ler ou saber do que se tratava) e isso explica um dos maiores engajamentos do mundo em redes sociais (como insta) é o da indonésia (fiquei sabendo através de Gunnar, Dir. de Mkt da Philip Morris aqui). A grande maioria tava ali por ser um lugar de grande importância (divisor de águas) para cidade (até país) e de repente dão de cara com uma tela que representava o povo com um certo retardo, todos zarolhos (vesgos) para mostrar esse vício em self (que é global, claro). Assuntos como sexualidade, exploração no trabalho e geopolítica poderiam tá sendo expostos para tanta gente pela primeira vez em anos de ingenuidade (como um quadro lá classificava essa nação por questões trabalhistas). Era tapa na cara atrás de tapa na cara.

mulher quadro

Para mim o mais legal de todos, era uma exposição de bandeiras dos países membros da Associação do Sudeste da Nação da Ásia (ASEAN). As bandeiras eram feitas de areia coloridas com uma colônia de 5 mil formigas vivendo entre elas através de uns tubinhos transparentes. Esses tubinhos serviam para conectar as formigas e permitir que elas circulassem entre as bandeiras, as formigas cavavam grandes tuneis e carregavam areia de uma bandeira para outra livremente, transformando assim a composição de cada uma, num processo constante e continuo de construção e desconstrução do “ambiente”. É genial, essa metáfora deveria ser premiadíssima. Para você que não entendeu, isso representava as mudanças geopolíticas da Asia. A economia, trade, migração, resultados da globalização. Como o autor explicava em uma descrição na lateral da obra, o sudeste da Asia passou por um processo de “descolonização” após a segunda guerra, e a ASEAN foi estabelecida em 1967 com o intuito de acelerar o crescimento da economia daqueles países, promover a paz na região e encorajar a colaboração entre os membros da Associação. Simplesmente, incrível.

BANDEIRAS MUSEU

De lá, fomos ao Sunda Kelapa Harbour, ou Pasar Ikan (significa Mercado de Peixe), um porto de mais de 500 anos. Aí era onde os Portugueses comercializavam materiais com os Hindus do Reino de Pajajaran no início do séc. XVI. Que mais tarde comandaram o mercado juntos aos os Holandeses, e a partir de lá dominaram Jakarta e toda a Indonésia. Muitos anos se passaram, e os porto continua existindo e fazendo parte da mais importante rota comercial entre as ilhas do país. Ver tudo aquilo funcionando, com todos aqueles velhos barcos, inclusive um dos barcos daquela época ainda na ativa (a escuna chamada de Pinisi), pescadores usando métodos antigo para carregamento de cargas e transportes de peixes entre o porto e o mercado é uma, de fato, uma experiência e tanto.

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Saindo de lá, fomos ainda mais ao norte de Jakarta, numa parte mais moderninha (kkkk), um grande complexo de lazer (aparentemente privado, já que se pagava para entrar), onde fica um parque de diversões, um parque aquático, uma estrutura para shows e eventos, um shopping e finalmente, a praia. Experiente que sou, não devia ter entrado em Ancol (An/tch/ol -pronuncia do “C”)  dia de domingo né? Afinal conhecemos Boa Viagem no fim da semana. Para quem criou expectativas, mínimas que fossem, para uma praia na Indonésia quebra a cara de uma forma irrecuperável kkkkk. Bagunça, fuzuê, gente pra dédeu, todo mundo de roupa de cabo a rabo, no máximo dando aquela dobradinha na calça pra entrar na água (não sei pra que dobrar a calça já que ia molhar tudo né? Kkkk). Esgoto saindo direto no mar, milhares e milhares de famílias ali, com seus filhos pequenos (como se nada) felizes da vida (perspectiva de novo), e eu lá, o Fábio Jr (famoso) de Jakarta caminhando e todo mundo me olhando, rindo e cumprimentando (a turma adora me cumprimentar) o que não é pra menos. Pois se somar todo mundo, eu não vi 10 ocidentais aqui. Afinal quantos amigos seus já vieram a Jakarta para turismo? Quantos indonésios você já viu em suas viagens pelo mundo?

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Chegando em casa, tirei aquele cochilo para começar meu desafio do dia/ano (haha), nunca fiz arroz, muito menos risoto. Mas o mais difícil não foi o risoto, incrivelmente foi a cestinha de parmesão que ele ia dentro. Demorei bem uma hora preparando tudo, com receita a vista, vídeo no youtube e as porra toda de auxilio para sair tudo certo. Na terceira tentativa a cestinha saiu (graças a deus comprei muito parmesão), mudei uma coisinha ou outra à medida que ia cozinhando e provando o risoto. E voilá, temos um prato! Foi servido mais ou menos às 21h e não sei se foi pela fome ou pelo gosto que o casal curtiu tanto. Leticia não parava de elogiar, dizendo que não comia bem assim há muito tempo, que não tinha visto um risoto desse nem na Itália. E vou dizer vu, né que a parada tava boa mesmo? (se acha) nãaao… não tem nada de errado com se elogiar. “muitas vezes pensamos que elogiar a nós mesmo é ego, mas, na verdade, o ego não pode elogiar a si mesmo. Ao contrário, ele anseia pelo elogio dos outros”. Mas o principal mesmo é elogiar, e eu acho que é por isso que eu não consigo parar de economizar nas palavras quando falo do casal e da importância que eles tiveram para mim nesse início de jornada. Para finalizar os agradecimentos, demos aquela velha roubada no jogo… peguei umas fatias de bolo de rolo, dei uma passadinha na frigideira (gourmetização regionalizada) e servi com sorvete de creme. Para minha felicidade, tinha sido a primeira vez que os dois provaram a nossa (recifenses) sobremesa, ponto positivo! É isso aí, oficialmente fim da molezinha, é hora de seguir em frente sabendo que tudo na vida é impermanente. Pessoas, sentimento e emoções. Sabendo disso com antecedência, você pode investir mais energia nas experiências, mais entusiasmo.

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5 thoughts on “Impermanência

  1. claudiinha

    1. ” sabendo que tudo na vida é impermanente. Pessoas, sentimento e emoções. Sabendo disso com antecedência, você pode investir mais energia nas experiências, mais entusiasmo.”
    É isso ai, a bronca é a gt aprender a lidar com essa danada eheh
    Guruji tá mostrando pra que veio neee, quero esse livro dele despues..
    2. Quero provar esse risoto!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    bj no oi

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